{"id":4138,"date":"2015-05-10T14:21:17","date_gmt":"2015-05-10T16:21:17","guid":{"rendered":"http:\/\/jurjotorres.com\/?p=4138"},"modified":"2015-05-10T14:21:17","modified_gmt":"2015-05-10T16:21:17","slug":"a-imperiosa-necessidade-de-uma-teoria-e-pratica-pedagogica-radical-critica-dialogo-com-jurjo-torres-santome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jurjotorres.com\/?p=4138","title":{"rendered":"A imperiosa necessidade de uma teoria e pr\u00e1tica pedag\u00f3gica radical cr\u00edtica: Di\u00e1logo com Jurjo Torres Santom\u00e9"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">A imperiosa necessidade de uma teoria e pr\u00e1tica pedag\u00f3gica radical cr\u00edtica:\u00a0<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">Di\u00e1logo com Jurjo Torres Santom\u00e9<\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><strong>Jo\u00e3o M. Paraskeva<\/strong>.\u00a0Universidade do Minho,\u00a0Braga, Portugal<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><strong>Lu\u00eds Armando Gandin<\/strong>.\u00a0Universidade Federal do Rio Grande do Sul,\u00a0Porto Alegre, Brasil<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><strong>\u00c1lvaro Moreira Hypolito<\/strong>.\u00a0Universidade Federal de\u00a0Pelotas, UFPel<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-4173\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Curr\u00edculo-sem-Fronteiras--1024x185.png\" alt=\"Curr\u00edculo-sem-Fronteiras-\" width=\"359\" height=\"65\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Curr\u00edculo-sem-Fronteiras--1024x185.png 1024w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Curr\u00edculo-sem-Fronteiras--300x54.png 300w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Curr\u00edculo-sem-Fronteiras-.png 1528w\" sizes=\"auto, (max-width: 359px) 100vw, 359px\" \/><\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><\/h3>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800080;\">Curriculo sem Fronteiras<\/span><\/h3>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800080;\">Vol. 4, n\u00ba 2, pp. 5 &#8211; 32, Jul.- Dez. 2004<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff00ff;\"><strong>Resumo<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #7f0b99;\">Entrevista com o professor Jurjo Torres Santom\u00e9, na qual ele discute o tema da\u00a0educa\u00e7\u00e3o, globaliza\u00e7\u00e3o e curr\u00edculo, centrando sua an\u00e1lise na cr\u00edtica ao pensamento\u00a0conservador e neoliberal hegem\u00f4nico no processo de reestrutura\u00e7\u00e3o educacional em\u00a0curso. V\u00e1rios aspectos da realidade educacional espanhola e mundial s\u00e3o analisados, o\u00a0que permite uma vis\u00e3o clara da sua compreens\u00e3o acerca das principais tem\u00e1ticas do\u00a0campo do curr\u00edculo, envolvendo ensino, m\u00e9todos, pol\u00edticas educacionais, reformas\u00a0educativas, globaliza\u00e7\u00e3o e neoliberalismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff00ff;\"><strong>Abstract<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #7f0b99;\">Interview with Professor Jurjo Torres Santom\u00e9, in which he discusses issues related to\u00a0education and curriculum and its relation to globalization. Santom\u00e9 focuses his analysis\u00a0on the critics of hegemonic, neo-conservative and neo-liberal educational restructuring.\u00a0Several aspects of the educational context in Spain and throughout the world are\u00a0analyzed, bringing a better understanding of curriculum, and themes such as teaching,\u00a0methodology, educational policies, educational restructuring, globalization, and neoliberalism.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013 <em>Voc\u00ea esteve profundamente ligado ao PSOE [Partido\u00a0Socialista Oper\u00e1rio Espanhol] e profundamente envolvido \u2013 na concep\u00e7\u00e3o e\u00a0implementa\u00e7\u00e3o \u2013 na reforma educativa na Espanha. Posteriormente, voc\u00ea se retirou e\u00a0anunciou o rumo que a reforma viria a assumir. Quais as raz\u00f5es que o levaram a afastar-se\u00a0de um projeto pol\u00edtico importante, no qual esteve profundamente envolvido?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Eu fui assessor do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancia nos dois\u00a0primeiros governos do PSOE, apesar de nunca ter sido militante desse partido. Eu sempre\u00a0me mantive mais \u00e0 esquerda. Durante os anos em que estudei na Universidade de\u00a0Salamanca, fui ativista num grupo nacionalista de ideologia comunista, na UPG (Uni\u00f3n do\u00a0Povo Galego), que atualmente integra o BNG (Bloque Nacionalista Gallego), coliga\u00e7\u00e3o que\u00a0re\u00fane diversos partidos e movimentos sociais nacionalistas da Gal\u00edcia. A Gal\u00edcia \u00e9 uma das\u00a0prov\u00edncias que fazem parte da Espanha (juntamente com o Pa\u00eds Basco e a Catalunha) e que\u00a0reivindica maiores cotas de auto-governo no Estado Espanhol. Apesar de n\u00e3o ser\u00a0atualmente militante de forma organizada, todos os que me conhecem sabem que simpatizo\u00a0e apoio o BNG. No entanto, quando o PSOE foi eleito em 1982 para governar a Espanha,\u00a0toda a esquerda concordou em apoiar a primeira experi\u00eancia progressista no pa\u00eds depois da\u00a0longa e cruel ditadura do General Francisco Franco Bahamonde. A minha colabora\u00e7\u00e3o\u00a0enquadra-se na aposta da esquerda para democratizar um Estado que uns meses antes tinha\u00a0sofrido um golpe de estado levado a cabo por um importante grupo de militares, mas que\u00a0apenas durou algumas horas. Este golpe militar falhado viria a provar que a democracia era\u00a0algo ainda muito d\u00e9bil. \u00c9 nesta base que se enquadra o meu apoio ao Governo Socialista. O\u00a0Minist\u00e9rio reuniu um conjunto de pessoas nas quais confiou a cria\u00e7\u00e3o de uma lei nova para\u00a0todo o sistema educativo. Pretendia-se a substitui\u00e7\u00e3o da Lei Geral da Educa\u00e7\u00e3o, que tinha\u00a0sido promulgada em 1970 durante o Governo ditatorial do General Franco. O meu trabalho\u00a0foi muito intenso, dado que colaboro no sentido de p\u00f4r em marcha diversos programas e\u00a0iniciativas para ajudar os professores na defesa de uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica com mais\u00a0qualidade. Al\u00e9m disso, junto com outros colegas, entre eles, Jos\u00e9 Gimeno Sacrist\u00e1n, Angel\u00a0P\u00e9rez G\u00f3mez, Alvaro Marchesi, C\u00e9sar Coll, Jes\u00fas Palacios, fomos incumbidos de decidir\u00a0como deveria ser a educa\u00e7\u00e3o neste pa\u00eds, construir uma nova Lei. Durante duas legislaturas\u00a0fomos criando o projeto de uma nova lei, a LOGSE (Lei Org\u00e2nica Geral do Sistema\u00a0Educativo) que viria a ser aprovada em 1990. Eu colaborei ativamente com o Minist\u00e9rio da\u00a0Educa\u00e7\u00e3o desde 1989, altura em que o Projeto da Lei come\u00e7ou a ser debatido no\u00a0Parlamento Espanhol. Nesses \u00faltimos quatro anos as minhas diverg\u00eancias aumentaram,\u00a0pois havia programas que se iam atrasando sem justifica\u00e7\u00f5es convincentes: programas\u00a0dedicados a promover bibliotecas escolares e salas de aula, propostas para incentivar o uso\u00a0de mais variedade de recursos did\u00e1ticos nas escolas, relegando os livros escolares para um\u00a0lugar mais secund\u00e1rio. Propus que os document\u00e1rios que a Televis\u00e3o Espanhola produzia e\u00a0que por essa raz\u00e3o eram financiados com dinheiro p\u00fablico se distribu\u00edssem em todas as\u00a0escolas. N\u00e3o entendo como \u00e9 que qualquer pessoa pode ter acesso atrav\u00e9s da televis\u00e3o a\u00a0document\u00e1rios sobre os rios da Espanha, os montes, a vegeta\u00e7\u00e3o, obras de teatro\u00a0representadas pelas melhores companhias de teatro, concertos de m\u00fasica, etc., financiados\u00a0com dinheiro p\u00fablico e, por outro lado, nas escolas os mesmos temas s\u00e3o reduzidos nos\u00a0livros escolares a quatro ou cinco linhas incompreens\u00edveis. Pareceu-me que esta id\u00e9ia era\u00a0boa e com custos reduzidos, bastava gravar em fitas de v\u00eddeo, uma vez que os restantes\u00a0custos de produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinham sido bancados pelo Estado. Tamb\u00e9m propus que se\u00a0incentivasse a cria\u00e7\u00e3o de bibliotecas tem\u00e1ticas de divulga\u00e7\u00e3o. Tratava-se de oferecer apoio\u00a0econ\u00f4mico \u00e0s editoras para publicar livros de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de forma a que os\u00a0alunos fossem entrando em contato com livros bem concebidos, bem escritos e\u00a0documentados, elaborados por aut\u00eanticos especialistas.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-4163\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/El-Lissitzky.jpg\" alt=\"El Lissitzky\" width=\"297\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/El-Lissitzky.jpg 547w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/El-Lissitzky-182x300.jpg 182w\" sizes=\"auto, (max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logicamente este tipo de medida n\u00e3o era bem vista pelas principais editoras de livros.\u00a0As press\u00f5es foram muito fortes e este tipo de proposta nunca foi avante, foi sendo adiada\u00a0muitas vezes. Assim, nem sequer nos deixaram participar no modelo de programa.\u00a0Curiosamente, Jos\u00e9 Gimeno, Angel Perez e eu (os tr\u00eas \u00fanicos pedagogos da equipe) fomos\u00a0exclu\u00eddos desse debate e os psic\u00f3logos do grupo optaram por recorrer a uma proposta muito\u00a0mais tecnocr\u00e1tica, praticamente tyleriana, e inundaram o ambiente educativo com uma\u00a0linguagem claramente psic\u00f3loga. Quando decidi abandonar o Minist\u00e9rio publiquei um\u00a0artigo cujo t\u00edtulo expressava claramente as minhas id\u00e9ias sobre esses acontecimentos: \u201c<em>La\u00a0Reforma educativa y la psicologizaci\u00f3n de los problemas sociales<\/em>\u201d (En VV. AA.: Sociedad,\u00a0Cultura y Educaci\u00f3n. Edit. Centro de Investigaci\u00f3n y Documentaci\u00f3n Educativa, Ministerio\u00a0de Educaci\u00f3n y Ciencia y Universidad Complutense de Madrid. Madrid, 1991, p\u00e1gs. 481-\u00a0503). Era como se a psicologia e mais concretamente o construtivismo, fosse a pedra\u00a0filosofal que iria resolver todos os problemas do sistema educativo. Curiosamente deu-se\u00a0um novo fen\u00f4meno: o Minist\u00e9rio deixou de fazer pol\u00edtica educativa para se tornar numa\u00a0esp\u00e9cie de Faculdade Universit\u00e1ria dedicada a incentivar e legitimar oficialmente o\u00a0construtivismo psicol\u00f3gico. No entanto, o verdadeiro motivo que me levou a deixar de\u00a0colaborar com o PSOE foi o fato de terem cometido um erro para o qual v\u00ednhamos a\u00a0chamar \u00e0 aten\u00e7\u00e3o durante anos: n\u00e3o houve nenhum compromisso oficial no sentido de\u00a0financiar a nova Lei. Aprovar no Parlamento ou no Senado uma Lei sem um programa de\u00a0financiamento concreto era como aprovar uma cortina de fuma\u00e7a. Era claro que n\u00e3o havia\u00a0dinheiro para a Educa\u00e7\u00e3o e o pouco era gasto para os professores freq\u00fcentarem cursos\u00a0acerca do construtivismo em psicologia. Mas, como me diziam alguns professores: o que\u00a0fazer depois nas aulas com o construtivismo? Nem sequer se aproveitou para tentar alterar a\u00a0forma\u00e7\u00e3o base dos professores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A LOGSE \u00e9 uma lei que manteve a forma\u00e7\u00e3o dos professores tal como estava. No\u00a0fundo parecia que o Minist\u00e9rio pensava que bastava legislar para mudar a vida nas escolas.\u00a0Em resumo, penso que a Espanha desperdi\u00e7ou um momento decisivo em que todos estavam\u00a0dispostos a colaborar e a ajudar. Nunca a esquerda esteve t\u00e3o unida. A partir dessa altura, o\u00a0ambiente foi piorando e o Partido Popular, \u00e0 direita, chegou ao poder e l\u00e1 continua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo\u00a0<em>sem<\/em>\u00a0Fronteiras\u00a0<\/strong>\u2013 <em>Ao n\u00edvel da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, a realidade tem demonstrado\u00a0nos \u00faltimos anos, que as gest\u00f5es socialistas e sociais democratas t\u00eam-se confundido,\u00a0sobretudo nas \u00e1reas judicial, da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o. Tomando como exemplo o\u00a0caso da Espanha e no que diz respeito \u00e0s pol\u00edticas educativas e curriculares, que\u00a0paralelismos poderia estabelecer entre o per\u00edodo de governo socialista e o per\u00edodo\u00a0atual liderado pelo Partido Popular?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Sou dos que pensa que na Europa ainda h\u00e1 diferen\u00e7as entre social\u00a0democratas e socialistas e os conservadores e neoliberais dos partidos de direita. No\u00a0entanto, os primeiros confiam no Estado e lutam por consolidar o Estado do Bem Estar.\u00a0Ainda existe uma forte id\u00e9ia de Estado como garantia de servi\u00e7os tais como sa\u00fade,\u00a0educa\u00e7\u00e3o, seguridade social, aposentadoria, habita\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os sociais para a terceira\u00a0idade, etc. Isto \u00e9 mais vis\u00edvel nos pa\u00edses n\u00f3rdicos. No sul, onde este estado de Bem Estar foi\u00a0sempre fraco, como, por exemplo, em Portugal e na Espanha (entre outras raz\u00f5es, devido\u00a0aos grandes per\u00edodos de ditaduras militares a que ambos estiveram sujeitos), as pol\u00edticas\u00a0para abandonar o passado e passar a reger-se por completo pelo mercado s\u00e3o mais claras\u00a0nos partidos de direita. Contudo, nas \u00faltimas d\u00e9cadas tem de se reconhecer que os partidos\u00a0socialistas e social-democratas t\u00eam adotado cada vez mais pol\u00edticas neoliberais. O caso\u00a0mais vis\u00edvel \u00e9 o do Reino Unido em que a Terceira Via dos trabalhistas de Tony Blair quase\u00a0se transformou num estratagema ling\u00fc.stico para encobrir as pol\u00edticas econ\u00f4micas\u00a0neoliberais. Uma coisa preocupante \u00e9 a obsess\u00e3o que tem, por exemplo, na Espanha, o\u00a0PSOE para atrair os votos da direita. Isto leva ao abandono de tudo o que eram os seus\u00a0s\u00edmbolos identificadores, cedendo na luta pelos grandes ideais para atrair uma direita\u00a0capitalista que o levar\u00e1 a tomar atitudes pouco claras, levando a que popula\u00e7\u00e3o vote \u00e0\u00a0direita, pois \u00e9 a \u00fanica leitura clara e sem ambig\u00fcidades que consegue fazer. Vivemos num\u00a0mundo onde a direita controla os meios de produ\u00e7\u00e3o e em especial, os meios de\u00a0comunica\u00e7\u00e3o, algo em que at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo a esquerda era mais poderosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 muitos anos a esquerda tinha mais facilidade de divulgar as suas mensagens,\u00a0de\u00a0promover debates intelectuais importantes com id\u00e9ias e propostas de a\u00e7\u00e3o. Atualmente, um\u00a0dos grandes problemas da esquerda \u00e9 o acesso \u00e0 televis\u00e3o, ao r\u00e1dio e \u00e0 imprensa. A direita\u00a0aprendeu a controlar habilmente estes meios e existem muitas pessoas que acreditam que\u00a0n\u00e3o existem nem discursos nem modelos alternativos. Obviamente est\u00e3o fortemente\u00a0censurados. Os social-democratas parecem entrar nesse jogo. A direita deixa-lhes pouco\u00a0espa\u00e7o para aparecerem nos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o social, no entanto exige\u00a0contrapartidas: exige-lhes que baixem o valor das suas propostas. Assim, por exemplo, na\u00a0Espanha o PSOE tem apenas um jornal ao seu servi\u00e7o, o \u201cEl Pa\u00eds\u201d (de grande tiragem e\u00a0muito \u00eaxito); no entanto este jornal n\u00e3o aceita um pensamento mais \u00e0 esquerda. Assim,\u00a0qualquer analista de imprensa estrangeiro poderia constatar que na Espanha n\u00e3o existe\u00a0Esquerda Unida (uma coliga\u00e7\u00e3o em que est\u00e1 integrado, entre outros, o Partido Comunista)\u00a0ou o Bloco Nacionalista Galego, apesar de serem coliga\u00e7\u00f5es com representa\u00e7\u00e3o no\u00a0Parlamento e no Senado. Esta censura vai aumentado se, para al\u00e9m de se ser de esquerda,\u00a0for \u201cnacionalista de esquerda\u201d. Aqui a manipula\u00e7\u00e3o passa a ser escandalosa, pois o discurso\u00a0oficial tanto da direita espanhola como do Partido Socialista \u00e9 t\u00e3o manipulador que\u00a0apresentam os nacionalistas de esquerda como se tratassem de nazistas (o Partido Popular,\u00a0que na realidade \u00e9 ultranacionalista, ou seja, tem um discurso fortemente nacionalista e\u00a0conservador s\u00f3 que com outras fronteiras, as do Estado Espanhol. Analise-se a pol\u00edtica de\u00a0imigra\u00e7\u00e3o que \u00e9 defendida pelos partidos que dizem que n\u00e3o s\u00e3o nacionalistas e veja-se\u00a0como \u00e9 que se explica a not\u00edcia sobre o direito de admiss\u00e3o de trabalhadores de outros\u00a0pa\u00edses). Nada mais longe da realidade. Eu considero-me nacionalista de esquerda e toda a\u00a0minha vida tenho lutado contra as id\u00e9ias e pr\u00e1ticas da direita e contra algumas da esquerda\u00a0espanhola; n\u00e3o me sinto de forma alguma representado pela imagem oficial que se tem da\u00a0cidadania do que \u00e9 o nacionalismo e em concreto do nacionalismo de esquerda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>Sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013 <em>No artigo \u201cDemocracia, Institui\u00e7\u00f5es Escolares. Diversidade\u00a0e Justi\u00e7a Social\u201d voc\u00ea defende a educa\u00e7\u00e3o como uma dimens\u00e3o da pol\u00edtica cultural\u00a0de uma determinada sociedade, n\u00e3o s\u00f3 destacando que as quest\u00f5es curriculares\u00a0devem ser consideradas no \u00e2mbito mais amplo da pol\u00edtica cultural, como tamb\u00e9m\u00a0denunciando toda a proposta curricular como a resultante de op\u00e7\u00f5es entre distintas\u00a0parcelas da realidade. Assim, e uma vez que o curr\u00edculo, na seq\u00fc\u00eancia do que nos\u00a0prop\u00f5e tamb\u00e9m Forquin, expressa o resultado de uma intencional sele\u00e7\u00e3o no seio de\u00a0uma dada cultura, como ser\u00e1 poss\u00edvel efetuar esta sele\u00e7\u00e3o por forma a que se\u00a0promova a justi\u00e7a e igualdade sociais, numa \u00e9poca em que, merc\u00ea das pol\u00edticas\u00a0neoliberais, se assiste cada vez mais, \u00e0 cristaliza\u00e7\u00e3o do espectro da segrega\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Penso que a segrega\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos grandes problemas do s\u00e9culo\u00a0que agora se inicia, o s\u00e9culo XXI. Pode-se afirmar que este problema sempre existiu, no\u00a0entanto atualmente est\u00e1 a aumentar devido aos modelos econ\u00f4micos neoliberais que\u00a0dominam este mundo globalizado. Se h\u00e1 algumas d\u00e9cadas se dizia que no mundo existiam\u00a0pa\u00edses em vias de desenvolvimento, tamb\u00e9m se acreditava que se uma vez desenvolvidos\u00a0continuariam nesse grupo para sempre. Hoje em dia aquilo que se constata \u00e9 que s\u00e3o cada\u00a0vez mais os pa\u00edses em vias de subdesenvolvimento, ou seja, pa\u00edses que tinham entrado em\u00a0pleno a competir de igual a igual no mercado dos pa\u00edses desenvolvidos, agora sofrem crises\u00a0constantes, pa\u00edses com economias na bancarrota e com condi\u00e7\u00f5es de vida semelhantes \u00e0s\u00a0dos pa\u00edses mais pobres do mundo. Um bom exemplo \u00e9 o caso da Argentina. Quem iria\u00a0imaginar h\u00e1 30 anos que um dos pa\u00edses mais cultos e ricos como era a Argentina chegaria \u00e0\u00a0situa\u00e7\u00e3o grave em que se encontra hoje em dia? Ningu\u00e9m. No mundo da economia observase\u00a0que dia ap\u00f3s dia toda a riqueza e os recursos est\u00e3o mais concentrados. Basta consultar o\u00a0ranking das pessoas mais ricas do mundo que a revista Forbes publica periodicamente. Um\u00a0aut\u00eantico esc\u00e2ndalo! A segrega\u00e7\u00e3o vai aumentando, embora em muitas alturas at\u00e9 chegue a\u00a0dissimular-se. Pensemos como nos \u00faltimos anos apareceu um fen\u00f4meno completamente\u00a0novo: a \u201cpobreza vergonhosa\u201d, ou seja, um grupo de pessoas que n\u00e3o nasceram em fam\u00edlias\u00a0pobres, tendo pelo contr\u00e1rio, nascido em fam\u00edlias da classe m\u00e9dia e at\u00e9 classe alta, que\u00a0fizeram parte dessas classes durante muitos anos e que fracassaram na profiss\u00e3o chegando\u00a0at\u00e9 \u00e0 pobreza. Essas pessoas tentam esconder de todas as formas, gastando inclusivamente\u00a0o pouco dinheiro de que disp\u00f5em em roupa e objetos para dissimular e ocultar assim a sua\u00a0pobreza. Porque \u00e9 que n\u00e3o se unem, protestam e lutam por outro tipo de sociedade e de\u00a0mundo? Isto acontece essencialmente porque os discursos dominantes convenceram-nos,\u00a0n\u00e3o s\u00f3 a eles como a uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o, de que vivemos em sociedades em\u00a0que j\u00e1 existe igualdade de oportunidades, por conseguinte agora as diferen\u00e7as sociais s\u00e3o\u00a0fruto de esfor\u00e7os individuais, do valor individual ou inclusive, dos genes. Ningu\u00e9m \u00e9\u00a0respons\u00e1vel por esses fracassos individuais, s\u00f3 cada um deles individualmente\u00a0considerados. \u00c9 terr\u00edvel! Logicamente, na constru\u00e7\u00e3o desses discursos, a escola tamb\u00e9m\u00a0tem algumas responsabilidades, \u00e9 \u00f3bvio que n\u00e3o as principais, mas desempenha um papel\u00a0importante no desenvolvimento das pessoas para pensar, julgar e poder intervir em assuntos\u00a0coletivos, p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-4167\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Jonathan-Darby.jpg\" alt=\"Jonathan Darby\" width=\"545\" height=\"367\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Jonathan-Darby.jpg 535w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Jonathan-Darby-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 545px) 100vw, 545px\" \/>H\u00e1 alguns anos tenho denunciado a degrada\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados dos livros did\u00e1ticos.\u00a0Contudo, continuam a existir demasiados temas que n\u00e3o s\u00e3o objeto de aten\u00e7\u00e3o nos\u00a0conte\u00fados lecionados nas aulas. No entanto nas an\u00e1lises de mat\u00e9rias curriculares que fa\u00e7o\u00a0periodicamente, as escolas continuam a pensar que no mundo s\u00f3 existem homens de ra\u00e7a\u00a0branca, de idade adulta, que vivem em cidades, empregadas, crist\u00e3os, de classe m\u00e9dia,\u00a0heterossexuais, elegantes, saud\u00e1veis e robustos. Dificilmente nos conte\u00fados de tais livros se\u00a0encontra informa\u00e7\u00e3o sobre temas como: a vida quotidiana das mulheres, das raparigas,\u00a0rapazes e adolescentes: sobre a situa\u00e7\u00e3o das etnias oprimidas e os porqu\u00eas das suas\u00a0condi\u00e7\u00f5es de vida; o que acontece \u00e0s culturas das na\u00e7\u00f5es sem Estado? Por que as reprimem\u00a0e tentam exterminar os seus idiomas e as obrigam a aceitar as l\u00ednguas e culturas dos pa\u00edses\u00a0hegem\u00f4nicos? O que \u00e9 que se ensina aos alunos sobre a vida das pessoas desempregadas,\u00a0sem trabalho, sobre as injusti\u00e7as que sofrem as pessoas no seu trabalho, sobre como podem\u00a0defender-se? Que formulas de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores se ensinam para lutar por\u00a0outras formas de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o mais justas e democr\u00e1ticas? Como se explica a\u00a0pobreza e por que aparece? Onde e quando se estuda a vida quotidiana das pessoas que\u00a0vivem da agricultura e da pesca; as injusti\u00e7as que enfrentam, a escassez de recursos de que\u00a0disp\u00f5em devido \u00e0 sua concentra\u00e7\u00e3o exclusivamente nas cidades? Como podem defender-se\u00a0e com o qu\u00ea, os trabalhadores com baixos sal\u00e1rios e suportando m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho?\u00a0Por que \u00e9 que a vida das pessoas com menos capacidades f\u00edsicas e\/ou ps\u00edquicas \u00e9 t\u00e3o\u00a0dolorosa e injusta? Como \u00e9 que se explica que al\u00e9m de pessoas heterossexuais existem gays\u00a0e l\u00e9sbicas? Como se explicam as injusti\u00e7as e situa\u00e7\u00f5es de marginalidade dos homossexuais?\u00a0Como se estuda a situa\u00e7\u00e3o das pessoas idosas e doentes? Que id\u00e9ias acerca do ser humano e\u00a0do mundo s\u00e3o as mais acertadas e dignas? Que dizer sobre as religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s ou das\u00a0explica\u00e7\u00f5es at\u00e9ias acerca do mundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 justo que os alunos durante a escolaridade obrigat\u00f3ria n\u00e3o cheguem a conhecer e\u00a0refletir sobre as rela\u00e7\u00f5es de poder existentes nas sociedades em que vivem esses grupos que\u00a0sofrem de alguma forma de marginaliza\u00e7\u00e3o, a classifica\u00e7\u00e3o, o seu valor e os motivos pelos\u00a0quais apareceram essas situa\u00e7\u00f5es de marginalidade no mundo em que vivemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenhamos presente a luta das mulheres, dos grupos \u00e9tnicos sem poder, dos povos sem\u00a0estado, dos gays e l\u00e9sbicas, etc., que deram relevo atrav\u00e9s do seu poderoso ponto de vista\u00a0na defini\u00e7\u00e3o do que vinha a considerar o conhecimento v\u00e1lido e necess\u00e1rio, a grande\u00a0desigualdade de oportunidades e, como tal, as situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a a que estavam sujeitas\u00a0as pessoas que faziam parte desses grupos. Uma escola comprometida com a justi\u00e7a social\u00a0e a liberdade tem de incluir estes ternas como conte\u00fados dos programas para os estudantes.\u00a0\u00c9 obrigat\u00f3rio se queremos formar cidad\u00e3os, ou seja, pessoas com informa\u00e7\u00e3o e\u00a0compet\u00eancias para analisar e avaliar a vida quotidiana n\u00e3o s\u00f3 da sua comunidade como a de\u00a0dos povos mais distantes. Uma escola em que a escolha das mat\u00e9rias dadas oculte ou altere\u00a0as condi\u00e7\u00f5es de vida de grupos silenciados ser\u00e1 uma escola opressora, injusta e\u00a0colonizadora. \u00c9 tudo o contr\u00e1rio da raz\u00e3o de ser desta institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>Sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013 <em>Num outro trabalho \u201cAs culturas negadas e silenciadas no\u00a0Curr\u00edculo\u201d voc\u00ea, entre outras quest\u00f5es cruciais, denuncia o curr\u00edculo como um\u00a0mecanismo de constante desvaloriza\u00e7\u00e3o de determinados quadros culturais,\u00a0alertando para a necessidade de perceber a perigosa tens\u00e3o entre os valores que\u00a0preparam as pessoas para a cidadania e para o mundo do trabalho. Voc\u00ea acha que a\u00a0tem\u00e1tica da cidadania tem sido educativa e curricularmente bem tratada, ou tem sido\u00a0apenas mais uma mera estrat\u00e9gia pol\u00edtica constru\u00edda em redor de um significado\u00a0flutuante?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Efetivamente, parecem-me muito preocupantes os sil\u00eancios e\u00a0desvaloriza\u00e7\u00f5es, a maioria das vezes conseguidas recorrendo a subterf\u00fagios, de muitos\u00a0grupos sociais que est\u00e3o mais longe dos grupos sociais com maiores possibilidades de\u00a0acesso a estruturas de poder e com maiores fontes de poder nas suas m\u00e3os. Esta situa\u00e7\u00e3o\u00a0agrava-se nas sociedades neoliberais, onde o mercantilismo a que submetem o sistema\u00a0educativo leva a que determinadas mat\u00e9rias escolares sejam vistas como pouco\u00a0interessantes, pois n\u00e3o s\u00e3o exigidas pelas empresas no mercado de trabalho. Os mercados\u00a0fomentam o esp\u00edrito empreendedor, mas n\u00e3o est\u00e3o interessados numa cidadania preocupada\u00a0com assuntos como a justi\u00e7a e as responsabilidades sociais. As pessoas apenas s\u00e3o\u00a0importantes como consumidoras, n\u00e3o como cidad\u00e3s. A cidadania que sempre se preocupou\u00a0em conseguir mais justi\u00e7a social e igualdade de oportunidades agora pode ser substitu\u00edda\u00a0pelos consumidores que apenas se regem pelas leis do mercado: a sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 ter\u00a0liberdade para escolher e competir. Esta diferen\u00e7a de filosofias \u00e9 o que explica que uma\u00a0grande percentagem de pessoas pertencentes \u00e0s novas classes m\u00e9dias j\u00e1 n\u00e3o se preocupam\u00a0tanto com a pol\u00edtica social, nem pela democratiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, nem por novos modelos\u00a0educativos mais pr\u00f3ximos das idiossincrasias dos alunos. A sua obsess\u00e3o \u00e9 que nas escolas\u00a0os seus filhos obtenham boas notas sem nunca chumbar1 durante o curso e, se poss\u00edvel, que\u00a0os convertam e transformem em pessoas obedientes \u00e0 autoridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podemos esquecer que as escolas s\u00e3o um dos locais em que a sociedade delega a\u00a0tarefa de socializar as novas gera\u00e7\u00f5es; o que significa ajud\u00e1-los a entender as condutas,\u00a0tipos de inter-rela\u00e7\u00e3o, formas de trabalho, estrat\u00e9gias de racioc\u00ednio, os ju\u00edzos e valores que\u00a0explicam o modo de ser das pessoas que fazem parte da sociedade em que os alunos s\u00e3o\u00a0parte integrante, assim como as outras comunidades diferentes. Este processo, por sua vez,\u00a0tem de servir para desenvolver todo um tipo de destrezas e valores que lhes permitam\u00a0integrar-se como cidad\u00e3os na sociedade, de uma forma reflexiva e cr\u00edtica. Uma miss\u00e3o t\u00e3o\u00a0importante implica, entre outras coisas, dedicar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s mat\u00e9rias culturais que se\u00a0selecionam para atingir tais objetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este debate sobre a cultura escolar \u00e9 um dos que pode suscitar as pol\u00eamicas mais\u00a0comuns. H\u00e1 muito tempo que os analistas do programa oculto e expl\u00edcito t\u00eam trazido \u00e0 luz\u00a0enormes contradi\u00e7\u00f5es nos valores que a escola promove sobre os diferentes modelos de\u00a0vida e os produtos culturais mais importantes gerados pela sociedade, sobre o mais valioso\u00a0da heran\u00e7a cultural. No decorrer da an\u00e1lise realizada pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o para a\u00a0sele\u00e7\u00e3o cultural com o objetivo de impor conte\u00fados obrigat\u00f3rios \u00e0s escolas \u00e9 f\u00e1cil concluir\u00a0que determinados grupos sociais fiquem melhor preparados do que outros, em rela\u00e7\u00e3o a\u00a0artefatos culturais, tecnol\u00f3gicos e cient\u00edficos produzidos pelos grupos mais elitistas que s\u00e3o\u00a0considerados os mais importantes. S\u00e3o as posi\u00e7\u00f5es de poder e privil\u00e9gio que det\u00eam\u00a0determinados grupos sociais que t\u00eam por h\u00e1bito explanar muitos dos conte\u00fados culturais\u00a0escolhidos como obrigat\u00f3rios para as aulas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-4181\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Dena-Matar.jpg\" alt=\"Dena Matar\" width=\"344\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Dena-Matar.jpg 567w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Dena-Matar-294x300.jpg 294w\" sizes=\"auto, (max-width: 344px) 100vw, 344px\" \/>Mas, apesar da inten\u00e7\u00e3o de controlar a cultura e de modificar os conte\u00fados para os\u00a0apresentar como neutros, desinteressados, \u00e0 margem da pol\u00edtica, nas \u00faltimas d\u00e9cadas,\u00a0mostrou-se na nossa sociedade um grande consenso acerca de determinadas tarefas e\u00a0conte\u00fados que deveriam fazer parte do programa escolar. Assistimos a como as escolas dia\u00a0ap\u00f3s dia enfrentam as novas propostas da sociedade. Al\u00e9m de lhes exigir um aumento do\u00a0n\u00edvel cultural das novas gera\u00e7\u00f5es, atribuiu-se-lhes o incremento do desporto, de h\u00e1bitos\u00a0pessoais saud\u00e1veis, de educar para o \u00f3cio e tempo livre, de ensinar uma alimenta\u00e7\u00e3o\u00a0saud\u00e1vel, persistiram muito mais na informa\u00e7\u00e3o acerca do comportamento c\u00edvico. At\u00e9 a\u00a0pouco tempo, a maioria das pessoas considerava estes assuntos uma obriga\u00e7\u00e3o exclusiva\u00a0das fam\u00edlias, por\u00e9m hoje em dia existe legisla\u00e7\u00e3o para que tamb\u00e9m sejam tarefas\u00a0obrigat\u00f3rias das escolas. Os nomes das mat\u00e9rias transversais s\u00e3o um bom exemplo desta\u00a0nova extens\u00e3o do significado e da miss\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es escolares: \u201ceduca\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade\u00a0e qualidade de vida\u201d, \u201ceduca\u00e7\u00e3o moral e c\u00edvica\u201d, \u201ceduca\u00e7\u00e3o sexual\u201d, \u201ceduca\u00e7\u00e3o ambiental\u201d,\u00a0\u201ceduca\u00e7\u00e3o para a paz\u201d, \u201ceduca\u00e7\u00e3o do consumidor\u201d, \u201ceduca\u00e7\u00e3o para a igualdade de\u00a0oportunidades entre os sexos\u201d, \u201ceduca\u00e7\u00e3o para o \u00f3cio\u201d, \u201ceduca\u00e7\u00e3o para a vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, os \u00faltimos anos de governo do Partido Popular na Espanha, e em particular\u00a0com a promulga\u00e7\u00e3o da Lei Org\u00e2nica de Qualidade da Educa\u00e7\u00e3o (Dezembro de 2002), os\u00a0resultados est\u00e3o a ser not\u00e1veis. Assim, por exemplo, uma das aus\u00eancias preocupantes no\u00a0programa proposto pela Administra\u00e7\u00e3o (outra coisa \u00e9 o que as escolas ensinam na\u00a0realidade) \u00e9 o abandono do que se tem denominado, a \u201cEduca\u00e7\u00e3o c\u00edvica ou da cidadania\u201d.\u00a0Algo que obrigaria os alunos a lidar com temas que se consideram imprescind\u00edveis para\u00a0poderem exercer os seus direitos e deveres como cidad\u00e3os. Temas, entre outros, como a\u00a0justi\u00e7a social, o desenvolvimento sustent\u00e1vel, a interdepend\u00eancia e globaliza\u00e7\u00e3o, os direitos\u00a0humanos e responsabilidades sociais permitiriam aos alunos analisar valores e atitudes,\u00a0ajud\u00e1-los-iam a questionar e explorar as suas pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es do mundo e as que s\u00e3o\u00a0mais dominantes na sua comunidade e em outras partes do mundo. Poderiam vir a conhecer\u00a0as interdepend\u00eancias que existem nos produtos com que se alimentam, vestem, se informam\u00a0e se divertem, e as formas de vida que t\u00eam outros povos que, em alguns casos, fabricam\u00a0esses produtos e, noutros casos, n\u00e3o lhes t\u00eam acesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 \u00f3bvio que estes conjuntos de conte\u00fados est\u00e3o dispersos num programa curricular,\u00a0mas tamb\u00e9m se constata que grande parte dos cidad\u00e3os queixa-se que os jovens n\u00e3o est\u00e3o\u00a0informados, nem se comportam como deveriam em tudo o que diz respeito aos seus deveres\u00a0e obriga\u00e7\u00f5es c\u00edvicas. A educa\u00e7\u00e3o transversal que promovia a anterior lei promovida pelo\u00a0Governo Socialista, a LOGSE (Lei Org\u00e2nica Geral do Sistema Educativo, Outubro de\u00a01990), marcou um avan\u00e7o neste caminho. Os seus resultados pr\u00e1ticos ainda n\u00e3o est\u00e3o\u00a0suficientemente avaliados, mas podemos comprovar que nos projetos curriculares dos\u00a0centros e das aulas elaborados pelos professores \u00e9 dedicado um cap\u00edtulo exclusivamente a\u00a0este tipo de tem\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obviamente, conscientizar os alunos e, at\u00e9 os professores de que seria necess\u00e1rio tornar\u00a0mais vis\u00edvel a realidade nos conjuntos tem\u00e1ticos de que se comp\u00f5em as mat\u00e9rias que s\u00e3o\u00a0distribu\u00eddas nas aulas (raz\u00e3o pela qual a LOGSE integra a educa\u00e7\u00e3o transversal), originou\u00a0situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o eram do agrado do Governo do Partido Popular. As escolas que sabem\u00a0que t\u00eam obrigatoriamente que trabalhar de uma forma transversal mat\u00e9rias como\u00a0\u201cEduca\u00e7\u00e3o para a paz\u201d, \u201cEduca\u00e7\u00e3o moral e c\u00edvica\u201d ou \u201cEduca\u00e7\u00e3o ambiental\u201d, viram-se\u00a0obrigadas a canalizar a sua aten\u00e7\u00e3o para problemas atuais, como o desastre ecol\u00f3gico na\u00a0Gal\u00edcia e todo o norte da Espanha devido \u00e0 mar\u00e9 negra do petroleiro Prestige, bem como a\u00a0guerra com o Iraque. Estes dois temas foram vistos como uma amea\u00e7a ou um absurdo por\u00a0parte do Governo conservador de Manuel Fraga Iribarne na Gal\u00edcia, o que deu lugar \u00e0\u00a0promulga\u00e7\u00e3o das \u201cInstru\u00e7\u00f5es da Direc\u00e7\u00e3o Geral para as Escolas e Preceitos Educativos\u201d (12\u00a0de Mar\u00e7o de 2003) na tentativa de impedir que estes temas se tratassem nas como\u00a0conte\u00fados transversais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas \u201cinstru\u00e7\u00f5es\u201d servem para intimidar a maioria das escolas, dado que estes dois\u00a0temas estavam a ser objeto de uma imensa aten\u00e7\u00e3o, tanto por parte dos alunos como dos\u00a0professores. Advertem-se as dire\u00e7\u00f5es das escolas para que n\u00e3o utilizem locais de an\u00fancios e\u00a0outras instala\u00e7\u00f5es para fins que a Administra\u00e7\u00e3o apelida de propangand\u00edsticos e\u00a0publicit\u00e1rios. No meu pa\u00eds, Gal\u00edcia, os dias que se seguiram \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o destas instru\u00e7\u00f5es\u00a0foram dedicados pelas escolas ao debate sobre o que fazer com os trabalhos realizados\u00a0acerca do desastre ecol\u00f3gico do Prestige e da guerra com o Iraque. A conclus\u00e3o un\u00e2nime,\u00a0por aquilo que pude constatar, foi de que iriam continuar com este tipo de tarefas escolares\u00a0e n\u00e3o iriam ter em conta as amea\u00e7as de san\u00e7\u00f5es da parte do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o da\u00a0Junta da Gal\u00edcia, dado que se correspondem, pelo menos, com os conte\u00fados de tr\u00eas das\u00a0mat\u00e9rias transversais que devem ser lecionandas obrigatoriamente: a \u201ceduca\u00e7\u00e3o ambiental\u201d,\u00a0a \u201ceduca\u00e7\u00e3o para a paz\u201d e a \u201ceduca\u00e7\u00e3o moral e c\u00edvica\u201d. Esta situa\u00e7\u00e3o de conflito com a\u00a0Administra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma boa amostra das inten\u00e7\u00f5es dos grupos conservadores que integram o\u00a0governo do Partido Popular para controlar o conhecimento que se produz e circula nas\u00a0escolas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O avan\u00e7o do neoliberalismo com inten\u00e7\u00e3o de criar pessoas consumidoras e n\u00e3o\u00a0cidad\u00e3os, juntamente com a alian\u00e7a com os grupos sociais mais conservadores preocupados\u00a0em conformar seres humanos submissos e pouco cr\u00edticos, militantemente convencidos com\u00a0verdades que nunca se atrevem a questionar nem a debater, \u00e9 algo que nos deveria levar a\u00a0um verdadeiro debate democr\u00e1tico acerca dos conte\u00fados escolares que s\u00e3o objeto de estudo\u00a0nas escolas e bem como as pr\u00f3prias metodologias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>Sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013 <em>O curr\u00edculo nacional, constru\u00eddo com o intuito de atenuar a\u00a0desigualdade social, viria a tomar-se num curr\u00edculo fundamentalista, isto para usar\u00a0sua pr\u00f3pria terminologia. Desgastado como solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, v\u00e1rias vozes t\u00eam\u00a0tentado promover uma outra plataforma curricular, ornamentando-a com\u00a0significados outros, nomeadamente, o curr\u00edculo integrado. Seguindo a sua concep\u00e7\u00e3o\u00a0te\u00f3rica [e ainda de outros autores e autoras, como Beane, Apple, Ladson-Billings,\u00a0Greene], que, de todo, n\u00e3o \u00e9 a dominante, o curr\u00edculo integrado \u00e9 de fato a melhor\u00a0maneira de se \u201cfazer curr\u00edculo\u201d. Todavia, e \u00e9 esta a nossa preocupa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o\u00a0acha que o debate em torno da integra\u00e7\u00e3o curricular tem sido colocado de uma\u00a0forma viciada, uma vez que acontece nos limites impostos pela ditadura disciplinar e\u00a0algum [embora porventura compreens\u00edvel] corporativismo da classe docente?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Se existe uma cr\u00edtica comum e reiterada ao longo da hist\u00f3ria do\u00a0ensino, \u00e9 a de selecionar, organizar e trabalhar com conte\u00fados culturais pouco relevantes,\u00a0de forma nada motivadora para os alunos, correndo mesmo o risco de perder o contato com\u00a0a realidade. Nesse modelo, as situa\u00e7\u00f5es e problemas da vida quotidiana, as preocupa\u00e7\u00f5es\u00a0pessoais, acabam normalmente por ficar \u00e0 margem dos conte\u00fados e processos educativos,\u00a0fora dos muros das aulas e escolas. Por mais de uma ocasi\u00e3o \u00e9 normal que o programa\u00a0tradicional por disciplinas acabe apresentando uma semelhan\u00e7a not\u00e1vel com alguns jogos\u00a0ou concursos de televis\u00e3o de sentido nominalista, como, por exemplo, o jogo \u201cTrivial\u00a0Pursuit\u201d; ou seja, considera-se aprender por se ser capaz de recordar pequenos fragmentos\u00a0de informa\u00e7\u00e3o sem entrar em pormenor e, mais grave ainda, sem uma verdadeira\u00a0compreens\u00e3o desses conte\u00fados que se verbalizam. Por exemplo, uma pessoa que diz que o\u00a0Dom Quixote foi escrito por Cervantes d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que tem conhecimentos de\u00a0literatura, num concurso de televis\u00e3o at\u00e9 receberiam um pr\u00eamio pela resposta \u00e0 pergunta de\u00a0quem escreveu Dom Quixote. No entanto, \u00e9 muito prov\u00e1vel que nunca sequer o tenham\u00a0lido, que n\u00e3o entendam o verdadeiro sentido da maioria das situa\u00e7\u00f5es que ali s\u00e3o narradas,\u00a0que n\u00e3o saibam qual a \u00e9poca em que vive e escreve Cervantes, o que estava a suceder\u00a0naquela sociedade, quais os motivos que levaram o autor a escrev\u00ea-la, de que forma\u00a0influenciou a literatura a partir da\u00ed, qual o interesse atual desta obra, etc. Uma an\u00e1lise deste\u00a0tipo obriga-nos a recorrer a muitas outras informa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o objeto de outras disciplinas.\u00a0Para fazer frente a esta classe de problemas escolares durante todo o s\u00e9culo XX foram\u00a0criadas diversas estrat\u00e9gias did\u00e1ticas. Solu\u00e7\u00f5es que t\u00eam como finalidade tentar converter os\u00a0conte\u00fados culturais da escola de forma relevante e significativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-4195\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Georgia-OKeeffe.jpg\" alt=\"Georgia O'Keeffe\" width=\"309\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Georgia-OKeeffe.jpg 572w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Georgia-OKeeffe-223x300.jpg 223w\" sizes=\"auto, (max-width: 309px) 100vw, 309px\" \/>Conv\u00e9m n\u00e3o esquecer de uma das perguntas mais freq\u00fcentes feitas pelos alunos aos\u00a0professores: por que temos de estudar esta cadeira ou este tema? E a resposta mais\u00a0freq\u00fcente do professor costuma ser, adotar uma atitude de transcend\u00eancia e import\u00e2ncia,\u00a0dizendo que esse tema \u00e9 important\u00edssimo para que no curso seguinte o possam entender\u00a0como qualquer outro tema. Normalmente, serve sempre para o \u201cpr\u00f3ximo curso\u201d, nunca para\u00a0compreender qualquer situa\u00e7\u00e3o atual ou um fen\u00f4meno do presente. Normalmente costumo\u00a0dizer que o programa curricular se parece com os romances policiais de Agatha Christie.\u00a0Todo um conjunto de informa\u00e7\u00f5es com a finalidade de no final da escolaridade tenham\u00a0sentido e se vejam as suas inter-rela\u00e7\u00f5es. Nos romances de Agatha Christie com, por\u00a0exemplo, 200 p\u00e1ginas, passa-se as primeiras 195 p\u00e1ginas fornecendo pistas, sem nunca as\u00a0percebermos claramente. Sempre nos enganamos no diagn\u00f3stico, aquela pessoa que parece\u00a0ser o assassino \u00e9 na realidade boa pessoa. O assassino aparece nas \u00faltimas cinco p\u00e1ginas e \u00e9\u00a0sempre uma surpresa, sendo nestas p\u00e1ginas que toda a informa\u00e7\u00e3o anterior passa a fazer\u00a0sentido. A minha pergunta \u00e9: onde est\u00e3o essas cinco \u00faltimas p\u00e1ginas no processo da\u00a0escolaridade obrigat\u00f3ria? Quando e em que momentos \u00e9 que o aluno capta a rela\u00e7\u00e3o que\u00a0existe entre as diversas disciplinas que tem de estudar? E especialmente, quando se v\u00ea\u00a0obrigado a integrar esses conte\u00fados oferecidos como pe\u00e7as de um puzzle na tentativa de\u00a0cobrar plena consci\u00eancia do quadro que comp\u00f5em? Desde a minha experi\u00eancia, penso que\u00a0unicamente quando trabalham com modelos mais interdisciplinares, mais integrados.<br \/>\nPensemos que a interdisciplinaridade \u00e9 um dos conceitos que servem para justificar\u00a0com maior contund\u00eancia o programa integrado. Ou seja, a reorganiza\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados,\u00a0umas vezes para recuperar e outras para construir uma rede mais integrada entre conceitos e\u00a0modelos e estrat\u00e9gias de investiga\u00e7\u00e3o que uma subespecializa\u00e7\u00e3o organizou em\u00a0compartimentos estanques, n\u00e3o apenas com possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o, mesmo quando\u00a0tenham como finalidade analisar e intervir num espa\u00e7o comum, com os mesmos objetos\u00a0e\/ou pessoas, um fim semelhante, etc. Tenhamos presente que a cultura das especificidades\u00a0cria numerosos problemas \u00e0 pr\u00f3pria sociedade, pois \u00e9 comum que diante de algum\u00a0problema social, industrial, econ\u00f4mico, etc. diferentes disciplinas ofere\u00e7am solu\u00e7\u00f5es\u00a0completamente distintas e, inclusivamente, contradit\u00f3rias. Aquilo que na realidade acontece\u00a0nessas ocasi\u00f5es \u00e9 que cada uma dessas disciplinas toma em considera\u00e7\u00e3o determinadas\u00a0vari\u00e1veis e ignora e despreocupa-se com outras. Um destes exemplos \u00e9 o que acontece\u00a0quando uma comunidade tenta obter mais energia, dependendo dos especialistas a consultar\u00a0assim ser\u00e3o as propostas. \u00c9 prov\u00e1vel que os profissionais da f\u00edsica optem pela constru\u00e7\u00e3o\u00a0de plantas de energia nuclear, enquanto os que t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o com maior peso da\u00a0biologia, da sociologia, a filosofia etc., \u00e9 mais prov\u00e1vel que se decidam por propostas de\u00a0interven\u00e7\u00e3o muito diferentes, opondo-se com m\u00faltiplos argumentos \u00e0s solu\u00e7\u00f5es dos\u00a0anteriores. Podemos afirmar que as disciplinas \u201cdisciplinam\u201d a forma como se interpreta,\u00a0ou seja, s\u00f3 nos permitem observar e tomar em considera\u00e7\u00e3o a realidade com os conceitos,\u00a0com as informa\u00e7\u00f5es, com os conte\u00fados dessa disciplina que estudamos ou em que somos\u00a0especialistas. Pensemos nas pessoas com o curso universit\u00e1rio conclu\u00eddo, por exemplo,\u00a0soci\u00f3logas, economistas, psic\u00f3logas, f\u00edsicas, etc. Ou seja, as pessoas que conseguiram\u00a0concluir e ter \u00eaxito no sistema educativo. Quantas vezes nas conversas em que participam\u00a0especialistas n\u00e3o escutamos reprova\u00e7\u00f5es do tipo: Claro, como tu \u00e9s economista, tudo se\u00a0resolve com a economia! ou \u00e9s mesmo psic\u00f3logo, pois reduzes tudo a problemas\u00a0interpessoais, quest\u00f5es de percep\u00e7\u00e3o, preju\u00edzos, complexos, &#8230;! Frases semelhantes, o que\u00a0fazem \u00e9 chamar \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para o importante ponto de vista das nossas observa\u00e7\u00f5es e\u00a0an\u00e1lises.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma estrat\u00e9gia que pode contribuir para resolver problemas semelhantes \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de\u00a0h\u00e1bitos intelectuais nas pessoas, desde o primeiro momento de sua escolariza\u00e7\u00e3o, para que\u00a0se tome sempre em considera\u00e7\u00e3o o maior n\u00famero poss\u00edvel de perspectivas quando se\u00a0analisa, avalia ou interv\u00e9m em qualquer situa\u00e7\u00e3o ou resolu\u00e7\u00e3o de qualquer problema. \u00c9\u00a0\u00f3bvio que n\u00e3o podemos ignorar que esta divis\u00e3o que domina o pensamento e a forma de\u00a0atuar da maioria das pessoas que est\u00e3o ou j\u00e1 passaram pelo sistema educativo n\u00e3o \u00e9\u00a0unicamente resultado de subespecializa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e culturais, mas tamb\u00e9m\u00a0conseq\u00fc\u00eancia de modelos pol\u00edticos que incentivam uma explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais e a\u00a0explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, cultural e, numa s\u00f3 palavra, o dom\u00ednio de umas pessoas sobre\u00a0outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como conseq\u00fc\u00eancia, falar de interdisciplinaridade \u00e9 observar as aulas, o trabalho\u00a0curricular do ponto de vista dos conte\u00fados culturais, ou seja, investigar quais as rela\u00e7\u00f5es e\u00a0os grupos de conte\u00fados que podem ser postos em pr\u00e1tica, por temas, por conjuntos de\u00a0conte\u00fados, por \u00e1reas de conhecimento e experi\u00eancia, etc. Conseq\u00fcentemente, o programa\u00a0integrado, \u00e9 o resultado de uma filosofia sociopol\u00edtica e de uma estrat\u00e9gia did\u00e1tica. Tem\u00a0como fundamento uma concep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a socializa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es, o sonho de\u00a0um ideal de sociedade, do sentido e do valor do conhecimento e, para al\u00e9m disso, do como\u00a0se podem facilitar os processos de ensino e aprendizagem. N\u00e3o nos esque\u00e7amos que as\u00a0quest\u00f5es curriculares s\u00e3o uma dimens\u00e3o diferente, mais \u00e0 imagem de um projeto de maiores\u00a0dimens\u00f5es de cada uma das sociedades, como \u00e9 exemplo a pol\u00edtica cultural. Qualquer\u00a0proposta curricular implica op\u00e7\u00f5es sobre parcelas da realidade, partindo da id\u00e9ia de sele\u00e7\u00e3o\u00a0cultural que se oferece \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es de forma a facilitar a sua socializa\u00e7\u00e3o: com o\u00a0intuito de os ajudar a compreender o mundo que os rodeia, conhecer a sua hist\u00f3ria, valores\u00a0e utopias. O mesmo podemos concluir do programa curricular, o puzzle, nas palavras de\u00a0Basil Bernstein, onde o parcelamento n\u00e3o \u00e9 mais do que uma conseq\u00fc\u00eancia da divis\u00e3o e\u00a0hierarquiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida social. O programa \u00e9 dividido em disciplinas ou temas,\u00a0subdivididas ent\u00e3o em grupos de conte\u00fados ou li\u00e7\u00f5es, em conte\u00fados, capacidades e valores;\u00a0em trimestres, semestres, cursos acad\u00eamicos e etapas educativas; o hor\u00e1rio escolar \u00e9\u00a0dividido em grupos r\u00edgidos que separam as atividades que deveriam ter maior continuidade:\u00a0os professores subdividem-se em departamentos (a maioria das vezes de forma incoerente):\u00a0o corpo docente isola-se da comunidade. etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, este tipo de divis\u00f5es, s\u00e3o vistas como um dado adquirido, como algo\u00a0que sempre foi assim e que n\u00e3o pode ser de outra forma; s\u00e3o quest\u00f5es que raras vezes s\u00e3o\u00a0questionadas ou revistas, visto que n\u00e3o se assumem como algo que \u00e9 assim porque algures,\u00a0algumas pessoas que optaram por esta estrutura tiveram o poder suficiente para convencer\u00a0os restantes profissionais de educa\u00e7\u00e3o. E colocada de parte a an\u00e1lise dos interesses\u00a0ideol\u00f3gicos, pol\u00edticos e econ\u00f4micos que est\u00e3o por detr\u00e1s da atual organiza\u00e7\u00e3o curricular do\u00a0conhecimento, dos temas e conjuntos de conte\u00fados que s\u00e3o selecionados como foco de\u00a0aten\u00e7\u00e3o para as aulas e centros de ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema das escolas tradicionais, onde se d\u00e1 uma forte \u00eanfase aos conte\u00fados\u00a0apresentados em pacotes de disciplinas, \u00e9 que n\u00e3o acreditam que os alunos sejam capazes\u00a0de ver esses conte\u00fados como parte do seu pr\u00f3prio mundo. Quando a f\u00edsica, a qu\u00edmica, a\u00a0hist\u00f3ria, a gram\u00e1tica, a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e as matem\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis para a maioria dos\u00a0estudantes \u00e9 f\u00e1cil que tudo o que \u00e9 ensinado nas aulas s\u00f3 se entenda como \u201cestrat\u00e9gia\u201d para\u00a0os aborrecer ou, de uma forma mais otimista, ser o pre\u00e7o a pagar para que possam transitar\u00a0de curso para curso com a esperan\u00e7a de obter uma licenciatura e depois logo se v\u00ea o que\u00a0acontece. A institui\u00e7\u00e3o escolar aparece como o reino da artificialidade, um espa\u00e7o em que\u00a0existem umas normas particulares de comportamento, em que se fala de uma forma peculiar\u00a0e em que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio executar determinadas rotinas, que apenas servem para obter\u00a0felicita\u00e7\u00f5es ou san\u00e7\u00f5es por parte dos professores e, inclusive, das pr\u00f3prias fam\u00edlias, mas\u00a0n\u00e3o passa disso. Muitos estudantes chegam a assumir, levando em considera\u00e7\u00e3o a forma\u00a0como levam a vida nas aulas, onde se torna muito dif\u00edcil estabelecer uma interliga\u00e7\u00e3o com a\u00a0vida real, com os problemas e realidades mais quotidianas ou que isso apenas est\u00e1\u00a0reservado para as pessoas mais inteligentes, aos seres excepcionais. Desta forma, contribui-se\u00a0para a continua\u00e7\u00e3o da mitifica\u00e7\u00e3o do conhecimento, ocultando-se as condi\u00e7\u00f5es da\u00a0produ\u00e7\u00e3o bem como as respectivas finalidades e perigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o dar aten\u00e7\u00e3o a esta artificial compartimentaliza\u00e7\u00e3o que se estabelece entre a vida\u00a0acad\u00eamica e a vida exterior \u00e0s escolas que pode at\u00e9 p\u00f4r em perigo o fim da escolaridade,\u00a0em especial nos anos obrigat\u00f3rios, ou seja, preparar os cidad\u00e3os para entender a realidade, a\u00a0sua hist\u00f3ria, tradi\u00e7\u00f5es e porqu\u00eas e habilit\u00e1-los para intervir e melhorar a sociedade de uma\u00a0forma democr\u00e1tica, respons\u00e1vel e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das finalidades mais importantes que est\u00e1 na base de conceitos e modelos como o\u00a0programa integrado \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o de organizar os conte\u00fados culturais dos curr\u00edculos de\u00a0forma significativa, de tal forma que desde o primeiro momento o aluno compreenda o\u00a0porqu\u00ea das tarefas escolares em que se envolve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de se optar por estrat\u00e9gias integradas n\u00e3o significa que as disciplinas\u00a0desapare\u00e7am, nem que deixem de fazer sentido as estruturas conceituais, as seq\u00fc\u00eancias de\u00a0conceitos e procedimentos nas planifica\u00e7\u00f5es dos programas. No entanto, uma quest\u00e3o \u00e9\u00a0essa estrutura disciplinar e outra \u00e9 que na altura de as concretizar em propostas de trabalho\u00a0para os alunos tem de se seguir essa mesma ordem que caracteriza a estrutura l\u00f3gica dos\u00a0conte\u00fados das disciplinas. Estas est\u00e3o presentes nas id\u00e9ias dos professores, mas as\u00a0propostas curriculares que se conjugam regem-se por outra l\u00f3gica, a de prestar tamb\u00e9m\u00a0aten\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade ou n\u00e3o de se revelarem importantes e de interesse para os alunos. \u00c9\u00a0necess\u00e1rio dar aten\u00e7\u00e3o aos conceitos, estruturas conceptuais e procedimentos que s\u00e3o\u00a0indispens\u00e1veis para prosseguir em dire\u00e7\u00e3o a maiores n\u00edveis de aprofundamento do\u00a0conhecimento, que permitem enfrentar problemas cada vez mais complexos e avan\u00e7ar para\u00a0n\u00edveis de maior dom\u00ednio do conhecimento, dando aten\u00e7\u00e3o ao significado, relev\u00e2ncia e\u00a0interesse das tarefas escolares na perspectiva do estudante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No trabalho curricular integrador a estrat\u00e9gia vis\u00edvel, o motor para a aprendizagem est\u00e1\u00a0estimulado por um determinado tema, t\u00f3pico, ou centro de interesse que faz de eixo\u00a0principal das necessidades individuais com as dimens\u00f5es mais proped\u00eauticas do sistema\u00a0educativo, ou seja, com as condi\u00e7\u00f5es para o acesso a outras etapas superiores do sistema\u00a0escolar. Desde a preocupa\u00e7\u00e3o com vertentes humanas, comunit\u00e1rias, \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o com\u00a0problemas sociais da atualidade e dos desafios da ci\u00eancia e tecnologia como ajustar a\u00a0funcionalidade e valor dos conte\u00fados culturais do programa, das teorias, conceitos,\u00a0procedimentos e valores que se escolhem para trabalhar nas aulas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-4209\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Victor-Ekpuk--861x1024.jpg\" alt=\"Victor Ekpuk\" width=\"335\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Victor-Ekpuk--861x1024.jpg 861w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Victor-Ekpuk--252x300.jpg 252w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/>Por conseguinte, um bom m\u00e9todo de ensino integrado \u00e9 muito mais do que a aplica\u00e7\u00e3o\u00a0de uma determinada metodologia ou uma t\u00e9cnica. Pelo contr\u00e1rio, sup\u00f5e-se n\u00e3o perder de\u00a0vista as raz\u00f5es pelas quais se adota esta modalidade de trabalho curricular. Isso explica a\u00a0preocupa\u00e7\u00e3o dos professores que optam por esta filosofia pedag\u00f3gica para criar condi\u00e7\u00f5es,\u00a0ambientes em que o aluno se sinta motivado para investigar, questionar e aprender. O\u00a0desenvolvimento da intelig\u00eancia, afetividade, sensibilidade, motricidade est\u00e1 condicionado\u00a0pelas oportunidades de executar, envolver os alunos em quest\u00f5es como a resolu\u00e7\u00e3o de\u00a0problemas, planifica\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e avalia\u00e7\u00e3o de projetos de trabalho, estudo de\u00a0casos sobre quest\u00f5es de conflito ou cr\u00edticas, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>Sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013 <em>Num outro trabalho \u201cSem muros na sala de aula: o curr\u00edculo\u00a0integrado\u201d, Jurjo defende que o curr\u00edculo integrado implica uma proposta de\u00a0trabalho coerente, tanto para os alunos e alunas, como para a classe docente o que\u00a0implica um debate claro em torno dos objetivos, daquilo que se planifica, assim como\u00a0a discuss\u00e3o de um conjunto de alternativas. Mais, entende ainda o curr\u00edculo\u00a0integrado como uma forma dos cidad\u00e3os e cidad\u00e3s aprenderem a mover-se em\u00a0estruturas flex\u00edveis, numa sociedade onde a palavra flexibilidade foi convertida num\u00a0voc\u00e1bulo m\u00e1gico. A quest\u00e3o que lhe colocamos \u00e9 a seguinte: Como explica a\u00a0exist\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es para uma discuss\u00e3o ampla e justa em torno dos objetivos\u00a0educativos, em geral, e curriculares, em particular, sobretudo numa altura em que as\u00a0pol\u00edticas sociais neoliberais t\u00eam vindo a fragilizar, progressiva e acentuadamente,\u00a0tanto o papel dos alunos e alunas quanto o da classe docente?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Obviamente, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que com esse tipo de pol\u00edticas\u00a0sociais de fundo, o programa integrado esteja a retroceder. As pol\u00edticas neoliberais e\u00a0conservadoras que t\u00eam dominado a \u00faltima d\u00e9cada n\u00e3o est\u00e3o interessadas em propostas\u00a0pedag\u00f3gicas baseadas na interdisciplinaridade, pois isso implica que os conte\u00fados\u00a0curriculares n\u00e3o possam ser controlados com tanta facilidade. Caso se trabalhe com um\u00a0programa integrado nas aulas surgem mais facilmente perguntas menos convenientes para\u00a0as pessoas conservadoras. Pensar na diferen\u00e7a que existe na hora de se falar da reprodu\u00e7\u00e3o\u00a0humana como uma li\u00e7\u00e3o de biologia ou como ponto fundamental de um projeto de trabalho\u00a0integrado. No primeiro caso, apenas seriam trabalhadas as no\u00e7\u00f5es de biologia, no segundo\u00a0caso, o aluno teria de determinar, para al\u00e9m dos aspectos puramente fisiol\u00f3gicos, a tem\u00e1tica\u00a0da sexualidade ou seja o prazer das rela\u00e7\u00f5es humanas, os tipos de sexualidade, as condutas\u00a0sexuais e as respectivas valoriza\u00e7\u00f5es sociais, o mercado da sexualidade, a igualdade de\u00a0g\u00eaneros nos comportamentos e inter-rela\u00e7\u00f5es sociais, a hist\u00f3ria da sexualidade, o papel das\u00a0religi\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es da sexualidade e as diversas modalidades de\u00a0matrim\u00f4nio, etc. Ou seja, estar\u00edamos a forrar uma cidadania mais informada e respons\u00e1vel,\u00a0capaz de pensar de forma aut\u00f4noma, n\u00e3o aceitando dogmas e imposi\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Espanha, na nova Lei da Qualidade da Educa\u00e7\u00e3o em vigor desde 2002, v\u00ea-se\u00a0claramente como desapareceu a aposta na interdisciplinaridade; j\u00e1 n\u00e3o se fala de temas\u00a0colaterais, a op\u00e7\u00e3o t\u00edmida que promoveu a lei socialista anterior, regressando-se \u00e0\u00a0linguagem severa das disciplinas. Falar da realidade com um conhecimento disciplinar\u00a0permite ocultar muito melhor aquelas perspectivas mais conflituosas dessa mesma\u00a0realidade, permitindo dissimular os interesses pol\u00edticos, militares, religiosos, econ\u00f4micos,\u00a0de g\u00eanero, etc., dessas divis\u00f5es da realidade que apresentamos aos alunos como tema de\u00a0estudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se os conte\u00fados das diversas mat\u00e9rias escolares t\u00eam de possibilitar ao aluno avaliar\u00a0outros modos de vida e valores diferentes pelos quais se regem familiares e amigos, tornase\u00a0\u00f3bvio que a n\u00e3o promo\u00e7\u00e3o de maiores quotas de interdisciplinaridade e programas\u00a0transversais \u00e9 uma forma de dificultar enormemente a educa\u00e7\u00e3o de uma nova cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pol\u00edticas contempor\u00e2neas dos pa\u00edses, como \u00e9 o caso a Espanha, t\u00eam nos governos\u00a0partidos conservadores que defendem modelos econ\u00f4micos neoliberais. Outro rasgo\u00a0distintivo subjacente \u00e9 a not\u00edcia da participa\u00e7\u00e3o em todas as esferas da sociedade e,\u00a0portanto, no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o. Assim, por exemplo, os conte\u00fados obrigat\u00f3rios, o\u00a0programa nacional, \u00e9 legislado sem antes se promover qualquer debate social acerca da sua\u00a0conformidade, oportunidade e validade. \u00c9 o governo que de um dia para o outro, decide\u00a0publicar um decreto com uma lista de conte\u00fados para o ensino obrigat\u00f3rio, mas sem\u00a0explicar porque faz este tipo de sele\u00e7\u00e3o da cultura. Uma s\u00e9rie de burocratas decidem o que\u00a0\u00e9 importante e o que acham que n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o incluem nessa lista de temas obrigat\u00f3rios que o\u00a0aluno deve estudar. Para al\u00e9m disso, com a nova Lei da Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 diminu\u00edda a\u00a0participa\u00e7\u00e3o tanto das fam\u00edlias como dos alunos e dos professores na vida das escolas.\u00a0Refor\u00e7a-se o papel dos diretores das escolas, dotando-os com mais poder de decis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez mais se constata, que quando se diz que nas nossas sociedades est\u00e3o a perder\u00a0liberdades, algo que muitos temos vindo a denunciar, n\u00e3o nos estamos a referir a\u00a0abstra\u00e7\u00f5es, mas sim \u00e0s possibilidades reais que os cidad\u00e3os t\u00eam de se fazerem ouvir e poder\u00a0participar nas tomadas de decis\u00f5es que nos afetam a todos. Contudo, isto n\u00e3o significa que\u00a0n\u00e3o existam possibilidades de criar formas mais democr\u00e1ticas de gest\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o nas\u00a0escolas. As liberdades sempre foram uma conquista e n\u00e3o uma oferta daqueles que\u00a0governavam. Temos de pensar que existem muitos professores, assim como estudantes e\u00a0cidad\u00e3os que n\u00e3o aceitam este corte de liberdades. Obviamente isto obriga a que n\u00e3o nos\u00a0esque\u00e7amos das estrat\u00e9gias utilizadas noutros momentos da hist\u00f3ria para lutar pelos\u00a0mesmos ideais. Conv\u00e9m estar alerta e ter na mem\u00f3ria o passado, pois uma das estrat\u00e9gias \u00e0s\u00a0que recorre a direita \u00e9 o corte das fontes de mem\u00f3ria, fazendo-nos crer que s\u00f3 existe o\u00a0presente e que este \u00e9 e ser\u00e1 sempre assim. Na mem\u00f3ria do passado temos armas suficientes\u00a0e formas de a\u00e7\u00e3o para fazer frente aos que tentam impor um \u00fanico pensamento, aos que se\u00a0adiantaram para consolidar o fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitos docentes envolvidos em experi\u00eancias educativas com muito valor e conv\u00e9m\u00a0apoi\u00e1-los, divulgar os seus trabalhos para fazer ver \u00e0s gera\u00e7\u00f5es de professores mais jovens\u00a0que existem alternativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, o aluno tem de aprender que nem todas as coisas que se estudam nas\u00a0escolas t\u00eam de servir para ganhar dinheiro e cargos de poder. Infelizmente, o mercantilismo\u00a0est\u00e1 a causar grandes estragos entre a juventude, mas n\u00e3o nos esque\u00e7amos que outra das\u00a0caracter\u00edsticas das \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 o crescente n\u00famero de organiza\u00e7\u00f5es de volunt\u00e1rios, de\u00a0Organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-Governamentais dedicadas a colaborar com os sectores sociais mais\u00a0desfavorecidos: estas ONG&#8217;s s\u00e3o na sua grande maioria constitu\u00eddas por jovens, por\u00a0adolescentes que ainda acreditam no valor das utopias e empregam o seu tempo, os seus\u00a0saberes e inclusivamente p\u00f5em em perigo as suas vidas para ajudar os outros. Esta\u00a0juventude encontra-se na sua maioria escolarizada, sendo assim mais f\u00e1cil mobiliz\u00e1-la se\u00a0formos capazes de lhes demonstrar a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o. Estes alunos s\u00e3o aqueles\u00a0que ir\u00e3o exigir que nas aulas se discutam temas vitais, que se debatam as quest\u00f5es que\u00a0muitas vezes ocupam as primeiras p\u00e1ginas dos jornais e telejornais. O programa integrado \u00e9\u00a0a estrat\u00e9gia mais adequada para converter as aulas em espa\u00e7os de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>Sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013<em> Voc\u00ea tem uma determinada experi\u00eancia ao n\u00edvel da educa\u00e7\u00e3o\u00a0pr\u00e9-escolar. Num outro espa\u00e7o, voc\u00ea reflete sobre o brinquedo e o jogo como\u00a0instrumentos de socializa\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, transmiss\u00e3o de ideologias.\u00a0Entendendo a educa\u00e7\u00e3o como um projeto pol\u00edtico [dado que constr\u00f3i a identidade de\u00a0um determinado pa\u00eds] e uma vez que os primeiros passos educativos e curriculares se\u00a0d\u00e3o ao n\u00edvel do ensino pr\u00e9-escolar, por que raz\u00e3o este n\u00edvel de ensino tem sido t\u00e3o\u00a0negligenciado nas agendas pol\u00edticas?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Penso que este \u00e9 um bom exemplo do desmoronar do Estado de\u00a0Bem Estar que est\u00e1 a criar ideologias neoliberais. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o econ\u00f4mica e para tal\u00a0\u00e9 necess\u00e1rio diminuir as hip\u00f3teses de interven\u00e7\u00e3o do Estado para compensar minimamente\u00a0os excessos do mercado. A op\u00e7\u00e3o neoliberal do Partido Popular de Jos\u00e9 Marfa Aznar\u00a0explica-nos a orienta\u00e7\u00e3o mercantilista da nova lei de qualidade da educa\u00e7\u00e3o (LOCE); o que\u00a0justifica a defesa clara do ensino privado e, como conseq\u00fc\u00eancia, o abandono que se tem\u00a0vindo a sentir nos \u00faltimos anos em rela\u00e7\u00e3o ao ensino p\u00fablico. A finalidade \u00e9 converter o\u00a0Sistema Educativo num mercado, regido apenas pela lei da procura e da oferta; mesmo\u00a0sabendo que nem todas as pessoas possuem capacidades, informa\u00e7\u00e3o e recursos\u00a0econ\u00f4micos para fazer a sele\u00e7\u00e3o de temas sobre educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m este governo\u00a0neoliberal que reduz a oferta da educa\u00e7\u00e3o infantil, em especial do grupo com idades entre\u00a0os zero e os tr\u00eas anos. Recuperaram inclusive o nome injusto de Educa\u00e7\u00e3o Pr\u00e9-escolar para\u00a0essa primeira etapa dos zero aos tr\u00eas anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram as lutas das professoras progressistas, dos sindicatos dos professores e das\u00a0Associa\u00e7\u00f5es c\u00edvicas dos bairros que conseguiram transformar a Educa\u00e7\u00e3o Pr\u00e9-escolar em\u00a0Educa\u00e7\u00e3o Infantil; algo que o governo socialista que chegou ao poder em 1982 contribuiu\u00a0para a legitima\u00e7\u00e3o, resultando assim, na Lei da Educa\u00e7\u00e3o de 1990, a LOGSE, passando o\u00a0grupo dos zero aos seis anos de idade a ser conhecido por Educa\u00e7\u00e3o Infantil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar de Educa\u00e7\u00e3o Pr\u00e9-escolar \u00e9 reconhecer que a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as entre os zero e\u00a0os seis anos \u00e9 algo pouco importante; mais relacionado com a guarda das crian\u00e7as enquanto\u00a0os pais trabalham. Tanto a designa\u00e7\u00e3o Pr\u00e9-escolar como as fun\u00e7\u00f5es que se estabelecem,\u00a0dando mais import\u00e2ncia \u00e0 componente assistencial do que \u00e0 componente educativa,\u00a0colocam esta etapa fora do sistema educativo e, inclusive, \u00e0 margem do Minist\u00e9rio da\u00a0Educa\u00e7\u00e3o. Na Espanha durante os governos anteriores ao do Partido Socialista, esta etapa\u00a0dependia de v\u00e1rios minist\u00e9rios: Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m do Minist\u00e9rio do\u00a0Trabalho. Existiam redes de creches promovidas pelo Minist\u00e9rio de Trabalho para facilitar\u00a0a incorpora\u00e7\u00e3o de mulheres no mundo do trabalho, uma situa\u00e7\u00e3o correta mas que n\u00e3o pode\u00a0ser feita \u00e0 custa de uma oferta de educa\u00e7\u00e3o sem qualidade \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"  wp-image-4212 alignright\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Hundertwasser-885x1024.jpg\" alt=\"Hundertwasser\" width=\"324\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Hundertwasser-885x1024.jpg 885w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Hundertwasser-259x300.jpg 259w\" sizes=\"auto, (max-width: 324px) 100vw, 324px\" \/>A Educa\u00e7\u00e3o Infantil como etapa que abarca as idades dos zero aos seis anos, foi uma\u00a0conquista social que teve in\u00edcio na d\u00e9cada dos anos setenta. Todo o conhecimento\u00a0especializado que se tem vindo a construir at\u00e9 hoje, sobre o desenvolvimento e a\u00a0aprendizagem infantil t\u00eam uma grande import\u00e2ncia nestes anos iniciais. \u00c9 por esta raz\u00e3o\u00a0que a designa\u00e7\u00e3o anterior, LOGSE (1990), apoiando-se no que as Neuroci\u00eancias, a\u00a0Psicologia, a Pedagogia e a Sociologia t\u00eam vindo a constatar, prop\u00f5e como medida pol\u00edtica\u00a0de justi\u00e7a social, garantir a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as desde o momento do seu nascimento.\u00a0Algo que as fam\u00edlias mais favorecidas j\u00e1 vinham a fazer atrav\u00e9s de in\u00fameros programas\u00a0privados de estimula\u00e7\u00e3o precoce e de educa\u00e7\u00e3o infantil. Qualquer governo minimamente\u00a0comprometido com pol\u00edticas de igualdade de oportunidades e de justi\u00e7a social n\u00e3o pode\u00a0deixar de dar aten\u00e7\u00e3o a esta etapa educativa. Este \u00e9 um dos marcos que servem para avaliar\u00a0as pol\u00edticas educativas e sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maleabilidade que caracteriza o ser humano nos primeiros anos de vida \u00e9 o\u00a0argumento de maior peso na hora de defender a necessidade de uma Educa\u00e7\u00e3o Infantil de\u00a0qualidade. Atualmente, a ci\u00eancia confirma como o desenvolvimento da fala, da cogni\u00e7\u00e3o, a\u00a0regula\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es, o desenvolvimento psico-motriz, precisam de um ambiente com os\u00a0est\u00edmulos adequados para um bom desenvolvimento. E necess\u00e1rio um projeto educativo em\u00a0que esteja bem planificada a regularidade de determinadas rotinas, a repeti\u00e7\u00e3o de\u00a0determinados exerc\u00edcios, as varia\u00e7\u00f5es graduais de determinadas tarefas, a dura\u00e7\u00e3o e\u00a0continuidade de determinadas est\u00edmulos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 este tipo de ambiente educativo que vai possibilitar que as crian\u00e7as, atrav\u00e9s das\u00a0intera\u00e7\u00f5es que estabelecem, das experi\u00eancias em que participam, v\u00e3o construindo as suas\u00a0capacidades, adquirindo conhecimentos que ir\u00e3o mais tarde condicionar outros. A\u00a0socializa\u00e7\u00e3o como membro de um grupo cultural de uma comunidade humana requer ajuda,\u00a0n\u00e3o \u00e9 algo que venha com os genes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um pequeno diagn\u00f3stico sobre a Educa\u00e7\u00e3o Infantil deveria ter em considera\u00e7\u00e3o o\u00a0trabalho que os professores t\u00eam vindo a desempenhar nesta etapa. O seu trabalho,\u00a0claramente educativo faz com que inclusive as tarefas que tradicionalmente assim eram\u00a0consideradas, passassem a s\u00ea-lo gra\u00e7as ao seu esfor\u00e7o e profissionalismo. Refiro-me a\u00a0tarefas tais como os cuidados e a limpeza corporal, o descanso, o sono e o per\u00edodo de lazer.\u00a0As tarefas que a uns anos atr\u00e1s se desenvolviam de uma forma rotineira, mec\u00e2nica e fria\u00a0mas que agora se converteram em momentos educativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obviamente, esta etapa educativa tamb\u00e9m cumpre um trabalho essencial, dado que\u00a0facilita \u00e0s m\u00e3es e aos pais o desempenho das suas carreiras profissionais. No entanto, foi o\u00a0trabalho dos que t\u00eam a responsabilidade de educar durante esta etapa que contribuiu para\u00a0uma volta nestas fun\u00e7\u00f5es: as tarefas que h\u00e1 pouco tempo eram as mais idiossincr\u00e1ticas das\u00a0institui\u00e7\u00f5es que acolhiam as crian\u00e7as durante estas idades. Atualmente as necessidades\u00a0infantis passaram a ocupar o centro das aten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenhamos presente, mesmo assim, que o trabalho das Escolas Infantis t\u00eam vindo a\u00a0desenvolver, n\u00e3o come\u00e7a e termina com o aluno, alcan\u00e7ando cada vez mais as fam\u00edlias. Um\u00a0bom exemplo \u00e9 que cada vez h\u00e1 mais escolas \u201cEscuelas de Madres y Padres\u201d promovidas a\u00a0partir destes centros escolares. \u00c9 tamb\u00e9m desta forma que as fam\u00edlias v\u00e3o conhecendo\u00a0melhor como s\u00e3o as suas crian\u00e7as, como podem ajud\u00e1-los no seu desenvolvimento e, assim,\u00a0compreender a import\u00e2ncia de colaborar e participar nas escolas para melhorar a qualidade\u00a0da educa\u00e7\u00e3o. Esta tarefa de forma\u00e7\u00e3o que se realiza junto das fam\u00edlias surge e consolida-se\u00a0mais como uma tarefa educativa, dado que os professores que trabalham nesta etapa\u00a0possuem uma forma\u00e7\u00e3o que nunca existiu anteriormente. As fam\u00edlias foram assim\u00a0aprendendo cada vez mais a dar valor \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o Infantil e passaram desta forma a ser\u00a0mais exigentes com as escolas para onde enviam os seus filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas os resultados conseguidos nesta etapa n\u00e3o se ficam por aqui. Recorde-se que \u00e9 na\u00a0Educa\u00e7\u00e3o Infantil onde surge uma das revolu\u00e7\u00f5es mais importantes do s\u00e9culo XX nas\u00a0metodologias did\u00e1ticas. Os centros de interesse, os m\u00e9todos globalizados, o trabalho com\u00a0projetos e as unidades did\u00e1ticas s\u00e3o estrat\u00e9gias para adaptar o que se pretende ensinar em\u00a0fun\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas de cada crian\u00e7a, t\u00eam a sua origem na etapa Infantil, mas muito\u00a0cedo este tipo de inova\u00e7\u00e3o vai-se adotando tamb\u00e9m noutras etapas, principalmente na\u00a0Escola Prim\u00e1ria, embora tamb\u00e9m na Escola Secund\u00e1ria, em especial quando os professores\u00a0est\u00e3o preocupados em estimular os seus alunos com mat\u00e9rias relevantes e significativas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma simples observa\u00e7\u00e3o do Sistema Educativo tenderia irremediavelmente para\u00a0valorizar este proveito e, assim, promover e refor\u00e7ar cada vez mais esta etapa educativa, o\u00a0que representa o inverso do que agora se pretende com a LOCE (2002), que implica\u00a0retroceder muitas d\u00e9cadas, quase at\u00e9 ao s\u00e9culo XIX, quando surgiram as creches. Nessa\u00a0altura eram as necessidades dos processos de industrializa\u00e7\u00e3o em curso as que levaram \u00e0\u00a0cria\u00e7\u00e3o de creches que cuidavam das crian\u00e7as durante as horas em que os adultos estavam a\u00a0trabalhar. As ind\u00fastrias em crescimento necessitavam muito de m\u00e3o de obra, como tal, se se\u00a0pretendia que as mulheres trabalhassem fora de casa era imprescind\u00edvel criar alguma\u00a0institui\u00e7\u00e3o para cuidar das crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma prova da regress\u00e3o na concep\u00e7\u00e3o educativa para esta etapa dos zero aos tr\u00eas\u00a0foram as declara\u00e7\u00f5es recentes do Ministro Espanhol do Trabalho, Eduardo Zaplana, quando\u00a0anunciou como promessa para o pr\u00f3ximo exerc\u00edcio a garantia da cria\u00e7\u00e3o de 400 mil novas\u00a0creches, situadas o mais perto poss\u00edvel dos centros de trabalho e, se poss\u00edvel, dentro das\u00a0pr\u00f3prias empresas. Um planejamento semelhante, recorrendo \u00e0 denomina\u00e7\u00e3o de creches,\u00a0mostra que a \u00fanica coisa que se pretende \u00e9 a exist\u00eancia de espa\u00e7os para guardar, cuidar e\u00a0vigiar. O mercantilismo dominante afasta as fun\u00e7\u00f5es educativas e origina um forte ataque\u00a0aos Direitos da Crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer Governo com um m\u00ednimo de preocupa\u00e7\u00f5es pela inf\u00e2ncia teria que considerar\u00a0um plano para expandir a educa\u00e7\u00e3o nesta etapa e, inclusivamente, torn\u00e1-la gratuita,\u00a0especialmente se pretendesse que os grupos sociais mais desfavorecidos se preocupem pela\u00a0educa\u00e7\u00e3o dos seus filhos. Recordemos que sempre que se deu aten\u00e7\u00e3o a estes grupos uma\u00a0das medidas a que tradicionalmente se recorria era a programas de Educa\u00e7\u00e3o\u00a0Compensat\u00f3ria dirigidos aos meninos destas idades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Educa\u00e7\u00e3o Infantil deve continuar a ser uma etapa educativa, o que n\u00e3o obsta que ao\u00a0mesmo tempo desempenhe, embora de forma secund\u00e1ria, outras fun\u00e7\u00f5es sociais, como a de\u00a0facilitar o trabalho das mulheres e dos homens fora de casa e ser tamb\u00e9m uma institui\u00e7\u00e3o\u00a0que sirva para contribuir na reorganiza\u00e7\u00e3o dos bairros, povos e aldeias em que se habita.\u00a0Cada vez s\u00e3o mais as escolas infantis que desenvolvem projetos educativos em que est\u00e3o\u00a0envolvidas n\u00e3o s\u00f3 as fam\u00edlias, mas tamb\u00e9m outras inst\u00e2ncias sociais, como as associa\u00e7\u00f5es\u00a0vizinhas, as lojas e neg\u00f3cios comerciais \u00e0 sua volta, institui\u00e7\u00f5es como a pol\u00edcia local, os\u00a0bombeiros, etc. Quando a escola trabalha desta forma, transforma-se numa inst\u00e2ncia de\u00a0reorganiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, visto que nos torna conscientes de qu\u00e3o interdependentes somos\u00a0e que todos devemos ser. Ao mesmo tempo em que se contribui para facilitar a socializa\u00e7\u00e3o\u00a0das crian\u00e7as, faz-se com que os adultos, se tomem conscientes dos la\u00e7os que nos unem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apresentar esta etapa como etapa principalmente assistencial significa deixar a perder\u00a0todo o trabalho realizado at\u00e9 agora pelas escolas infantis que est\u00e3o comprometidas com\u00a0uma filosofia e uma pol\u00edtica claramente educativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar de educa\u00e7\u00e3o Infantil \u00e9 falar dos Direitos da Crian\u00e7a, falar de educa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-escolar\u00a0\u00e9 falar apenas a partir do direito das mulheres ao trabalho. As mulheres t\u00eam que dispor de\u00a0boas condi\u00e7\u00f5es para exercer os seus direitos como cidad\u00e3s e trabalhadoras, n\u00e3o devendo por\u00a0esse fato condicionar a qualidade da educa\u00e7\u00e3o a que t\u00eam direito \u00e0s crian\u00e7as dos zero aos\u00a0seis anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destacar esta etapa como pr\u00e9-escolar \u00e9 algo muito bem visto pelo Governo neoliberal\u00a0de Jos\u00e9 Maria Aznar, pois deste modo pode reduzir ainda mais o seu investimento no\u00a0mundo da educa\u00e7\u00e3o, para, entre outras coisas, poder investir mais em armas de destrui\u00e7\u00e3o\u00a0massiva, juntar-se \u00e0s aventuras b\u00e9licas imperiais de George Bush.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>Sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013 <em>No seu trabalho \u201cO Curr\u00edculo Oculto\u201d voc\u00ea efetua uma\u00a0excelente an\u00e1lise em torno do conceito gramsciano de hegemonia dissecando o modo\u00a0como determinadas ideologias se conseguem impor porque garantem um\u00a0determinado consenso atrav\u00e9s do consentimento das classes que se encontram\u00a0arredadas do controle do poder. Boaventura Sousa Santos na sua obra \u201cA cr\u00edtica da\u00a0raz\u00e3o indolente; contra o desperd\u00edcio da experi\u00eancia\u201d contesta a no\u00e7\u00e3o de\u00a0consensualidade inerente ao fen\u00f4meno hegem\u00f4nico e avan\u00e7a com o conceito de\u00a0resigna\u00e7\u00e3o, o que de modo algum colide na sua an\u00e1lise com a no\u00e7\u00e3o de ag\u00eancia\u00a0humana. Dado o momento atual, onde as pol\u00edticas sociais conservadoras t\u00eam deixado\u00a0um rasto de multiplica\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e de segrega\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cultural gritante\u00a0estaremos a viver um momento de resigna\u00e7\u00e3o ou, pelo contr\u00e1rio, mant\u00e9m que\u00a0assistimos a uma estrat\u00e9gia de gera\u00e7\u00e3o de consenso?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Na minha perspectiva penso que ambas as coisas podem\u00a0compatibilizar-se como explica\u00e7\u00e3o. As escolas, em conjunto com os meios de comunica\u00e7\u00e3o\u00a0de massa est\u00e3o a desempenhar um papel importante na constru\u00e7\u00e3o do consenso. Ao\u00a0censurar montanhas de informa\u00e7\u00e3o e s\u00f3 apresentar e insistir com teimosia em determinados\u00a0discursos explicativos e justificativos da realidade, conseguem que muitas pessoas\u00a0acreditem nessa explica\u00e7\u00e3o e acomodem a ela os seus comportamentos e expectativas\u00a0vitais. No meu livro \u201cEducaci\u00f3n en tiempos de rico liberalismo\u201d (2001) dedico um cap\u00edtulo\u00a0inteiro ao que dou o nome de o processo de naturaliza\u00e7\u00e3o das condutas individuais\u00a0recorrendo a explica\u00e7\u00f5es inatas. Os discursos hegem\u00f4nicos neste momento hist\u00f3rico em\u00a0que os meios de comunica\u00e7\u00e3o cada vez s\u00e3o menos independentes, dado que as grandes\u00a0empresas t\u00eam consci\u00eancia da sua import\u00e2ncia e, por isso, se apropriaram deles, jogam um\u00a0papel muito importante na constru\u00e7\u00e3o do consenso especialmente na medida que empregam\u00a0grandes esfor\u00e7os a \u201cnaturalizar\u201d as situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a. Assim, quando se fala do fracasso\u00a0do \u00eaxito escolar, de problemas disciplinares nas aulas, do que conhece ou desconhece o\u00a0aluno, a unidade de an\u00e1lise costuma ser a pessoa individualmente considerada e o discurso\u00a0utilizado tamb\u00e9m tratar\u00e1 de deixar clara exclusivamente as responsabilidades pessoais. O\u00a0\u00eaxito e as possibilidades de promo\u00e7\u00e3o s\u00e3o vistas como atos de competitividade entre\u00a0pessoas que mediante o esfor\u00e7o individual e as suas capacidades naturais inatas, conseguem\u00a0m\u00e9ritos com os quais podem competir e concorrer ao acesso a privil\u00e9gios sociais de forma\u00a0igualmente individual.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-4216\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Laxeiro.jpg\" alt=\"Laxeiro\" width=\"324\" height=\"424\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Laxeiro.jpg 540w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Laxeiro-229x300.jpg 229w\" sizes=\"auto, (max-width: 324px) 100vw, 324px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em geral, podemos dizer que recuperam valor as posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e pol\u00edticas que\u00a0defendem a primazia das elei\u00e7\u00f5es pessoais e da mobilidade social individual, n\u00e3o\u00a0considerando as condi\u00e7\u00f5es estruturais que levam ao fracasso social e logicamente, escolar,\u00a0aos grupos sociais mais afastados do poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde as inst\u00e2ncias oficiais, n\u00e3o se promoveram an\u00e1lises que tenham em considera\u00e7\u00e3o\u00a0mais perspectivas e interesses sociais comunit\u00e1rios. A sociedade v\u00ea-se como reificada, com\u00a0uma roupagem de despolitiza\u00e7\u00e3o e neutralidade, n\u00e3o d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o aos problemas de\u00a0desigualdade pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social de car\u00e1ter estrutural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logicamente, o atual marco econ\u00f4mico, pol\u00edtico, cultural e social dominado pelas\u00a0pol\u00edticas de mercado e de fragmenta\u00e7\u00e3o social precisa de discursos que confluam na\u00a0constru\u00e7\u00e3o da conforma\u00e7\u00e3o do consenso da cidadania sobre a inevitabilidade das\u00a0concep\u00e7\u00f5es dominantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As teorias acerca do individualismo ser\u00e3o um dos pretextos mais recorrentes para\u00a0manter e justificar o atual estado das coisas, o mundo em que vivemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se as pessoas se sentem s\u00f3s e pensam ser as \u00fanicas respons\u00e1veis pelo seu destino, sem\u00a0que as estruturas sociais, a distribui\u00e7\u00e3o dos recursos e o poder condicionem as suas\u00a0escolhas, a sua vida como indiv\u00edduos, torna-se muito f\u00e1cil cair na resigna\u00e7\u00e3o. A resigna\u00e7\u00e3o,\u00a0no meu ponto de vista, \u00e9 a aus\u00eancia de alternativas, inclusivamente incapacidade sobre a\u00a0possibilidade de as imaginar. Imaginem, por exemplo, o papel que desempenham as teorias\u00a0do fim da hist\u00f3ria desenvolvidas por Francis Fukuyama. Estamos diante de discursos com\u00a0os quais se pretende construir um tipo de pessoas que aceitem como inevit\u00e1vel as suas\u00a0realidades: pessoas que normalmente s\u00e3o limitadas nas suas aspira\u00e7\u00f5es pessoais, ao assumir\u00a0que o melhor \u00e9 \u201cdeixar-me estar como estou\u201d, pois como diriam algumas das leis de\u00a0Murphy que circulam entre as pessoas, \u201ctudo o que pode piorar acabar\u00e1 por acontecer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com linhas de discurso semelhantes \u00e0s de Fukuyama, pretende-se que as pessoas n\u00e3o\u00a0cheguem a pensar nas enormes disfun\u00e7\u00f5es que as atuais formas de economia capitalista\u00a0neoliberal est\u00e3o a provocar, nem se procurem imaginar outras alternativas. N\u00e3o ser\u00e1 de\u00a0estranhar que desde os c\u00edrculos do poder e meios de comunica\u00e7\u00e3o com que s\u00e3o\u00a0bombardeados os cidad\u00e3os, se consiga desvirtuar tamb\u00e9m os discursos sobre o significado e\u00a0formas de democracia e se discuta sobre os Direitos Humanos como algo abstrato, sem\u00a0qualquer liga\u00e7\u00e3o \u00e0 vida quotidiana de cada ser humano ou de cada povo. \u00c9 desta forma que\u00a0quem ocupa postos de responsabilidade na defesa do poder estabelecido trava a conflito das\u00a0crises nos mercados, procura convencer a popula\u00e7\u00e3o de que o desemprego originado pelo\u00a0capitalismo atual, as injusti\u00e7as e a pobreza deste momento hist\u00f3rico s\u00e3o coisas normais, no\u00a0entanto, passageiras que se atravessam num caminho futuro de grande prosperidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 curioso como, entre as teorias preferidas pelas op\u00e7\u00f5es mais conservadoras e\u00a0fundamentalistas, que de uma maneira insistente aparecem e reaparecem ao longo do s\u00e9culo\u00a0XX, deve-se distinguir as que v\u00e3o ligar os comportamentos a condicionamentos biol\u00f3gicos\u00a0das pessoas, a sua estrutura gen\u00e9tica, \u00e0 conformidade dos seus c\u00e9rebros ou a n\u00edveis\u00a0hormonais. Caso se consiga convencer cada pessoa que o seu destino social est\u00e1\u00a0programado no seu c\u00f3digo gen\u00e9tico, a partir desse momento n\u00e3o ter\u00e1 outra sa\u00edda sen\u00e3o\u00a0\u201csuportar\u201d o mundo, n\u00e3o se lembrar\u00e1 de lutar para que se transforme, pois como se pode\u00a0lutar contra o que est\u00e1 decidido no c\u00f3digo gen\u00e9tico. Um pensamento id\u00eantico leva-nos a\u00a0pensar em imagens de \u00e9pocas anteriores quando o ser humano era uma marionete das\u00a0divindades que lhe negavam a liberdade para poder decidir e participar na constru\u00e7\u00e3o do\u00a0mundo. Penso que \u00e9 urgente lutar contra este pessimismo e que s\u00e3o muitas as pessoas que\u00a0ambicionam faz\u00ea-lo. Estou convencido que se nos dedicarmos a salientar as possibilidades\u00a0a que temos acesso na atualidade para melhorar o estado das coisas, a p\u00f4r diante dos olhos\u00a0dos nossos alunos exemplos positivos de como muitos grupos sociais lutaram com \u00eaxito\u00a0pelos seus direitos, como conseguiram melhorar as suas condi\u00e7\u00f5es de vida coletiva,\u00a0estaremos a educar pessoas com confian\u00e7a no futuro e n\u00e3o pessoas resignadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura da comunidade foi promovida por pessoas que se sentiam mais perto das\u00a0restantes, mas que estavam, sobretudo, convencidas de que era poss\u00edvel alterar o rumo da\u00a0hist\u00f3ria: existiam projetos de sociedade que eram vistos como vi\u00e1veis se atuassem em\u00a0coordena\u00e7\u00e3o com os restantes vizinhos. Nestes momentos, o pensamento neoliberal\u00a0esfor\u00e7a-se por abrir caminho a esses ideais de transforma\u00e7\u00e3o, tentando convencer as\u00a0pessoas de que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel idealizar outro tipo de sociedade. A esquerda pol\u00edtica\u00a0desanimou-se devido aos fracassos dos modelos comunistas e, na atualidade, a direita \u00e9\u00a0mais conservadora, especialmente na m\u00e3o dos movimentos religiosos mais\u00a0fundamentalistas, que est\u00e3o a tentar realizar projetos comunit\u00e1rios em grupos que n\u00e3o\u00a0teriam outra sa\u00edda sen\u00e3o a resigna\u00e7\u00e3o. De qualquer forma, \u00e9 tal o n\u00edvel de frustra\u00e7\u00e3o que as\u00a0formas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho capitalista originam em cada vez mais camadas da\u00a0popula\u00e7\u00e3o que voltam a observar-se s\u00e9rias inten\u00e7\u00f5es de resposta da esquerda. Movimentos\u00a0sociais populares como o \u201cMovimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra\u201d (MST) no\u00a0Brasil, dos grupos anti-globaliza\u00e7\u00e3o, ecologistas, feministas, etc., \u00e9 importante dar-lhes\u00a0cada vez mais visibilidade para provar que nem tudo est\u00e1 perdido. Qui\u00e7\u00e1, j\u00e1 possamos\u00a0come\u00e7ar a afirmar que come\u00e7a a dar-se uma transforma\u00e7\u00e3o no significado de comunidade,\u00a0n\u00e3o a sua elimina\u00e7\u00e3o: surgem novos tipos de associa\u00e7\u00e3o diferentes das mais tradicionais:\u00a0partidos pol\u00edticos e sindicatos. No entanto, pode ser que estes novos tipos de associa\u00e7\u00e3o\u00a0cheguem a ser pol\u00edtica e socialmente mais eficazes, que facilitem uma melhor coes\u00e3o social\u00a0que as anteriores, cujas estruturas, fortemente burocratizadas e profissionalizadas, n\u00e3o\u00a0ajudam os cidad\u00e3os a v\u00ea-las como parte de um projeto que diga respeito a todos os\u00a0membros da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>Sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013<em> No seu livro \u201cGlobaliza\u00e7\u00e3o e interdisciplinaridade\u201d, voc\u00ea,\u00a0entre outras quest\u00f5es, salienta a necessidade de um curr\u00edculo globalizado, com\u00a0integra\u00e7\u00e3o das \u00e1reas do conhecimento, n\u00e3o fragmentado em disciplinas estanques,\u00a0compat\u00edvel com a realidade. Na verdade, isto, em ess\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o muito\u00a0diferente da que foi colocada em pr\u00e1tica por Dewey, na sua Escola Laborat\u00f3rio em\u00a0Chicago. Gostar\u00edamos aqui de colocar duas quest\u00f5es. Em primeiro lugar, como\u00a0transformar a globaliza\u00e7\u00e3o por via da educa\u00e7\u00e3o, em geral, e do curr\u00edculo, em\u00a0particular, num fen\u00f4meno de plena justi\u00e7a e equidade social. Em segundo lugar, por\u00a0que raz\u00e3o, muitos educadores e demais curriculistas [mesmo situados na esquerda\u00a0pol\u00edtica] persistem em negligenciar nas suas an\u00e1lises o pensamento de Dewey? Ser\u00e1\u00a0por ter sido um personagem controverso politicamente?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Quando utilizo o termo globaliza\u00e7\u00e3o neste livro fa\u00e7o-o num\u00a0sentido diferente daquele que a palavra tem na atualidade. Na Espanha o termo\u00a0globaliza\u00e7\u00e3o, aparece, curiosamente, pela primeira vez no mundo da educa\u00e7\u00e3o, como uma\u00a0metodologia did\u00e1tica coerente com o modo em que a psicologia evolutiva nos indicava que\u00a0se fomenta o desenvolvimento e a aprendizagem humana. Foi uma metodologia muito\u00a0divulgada na d\u00e9cada de setenta, apoiando-se num primeiro momento nas investiga\u00e7\u00f5es da\u00a0psicologia da Gestalt e, posteriormente, na cria\u00e7\u00e3o da psicologia gen\u00e9tica da escola de\u00a0Piaget. \u00c9 uma perspectiva em que o centro do discurso justificativo se situa na pessoa,\u00a0individualmente considerada. A quest\u00e3o fundamental \u00e9: como \u00e9 que as pessoas\u00a0compreendem a realidade e como aprendem? A psicologia de Piaget e, em concreto, as\u00a0investiga\u00e7\u00f5es de Ausubel sobre a aprendizagem significativa, junto com os trabalhos de\u00a0Ovide Decroly e a sua metodologia dos centros de interesse, s\u00e3o os motores de arranque,\u00a0desenvolvimento e inova\u00e7\u00e3o curricular que denomin\u00e1vamos como \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Nesse\u00a0livro, argumento que o programa integrado se justifica de um modo muito contundente\u00a0recorrendo a tr\u00eas grandes linhas de argumenta\u00e7\u00e3o: 1) o discurso da globaliza\u00e7\u00e3o (ou a\u00a0melhor forma de promover a aprendizagem individual), 2) o da interdisciplinaridade e 3) da\u00a0mundializa\u00e7\u00e3o. Estes dois \u00faltimos discursos centram a nossa aten\u00e7\u00e3o, por um lado, nas\u00a0perversidades que se produzem quando se interv\u00e9m na realidade de um modo disciplinar,\u00a0como comentei anteriormente, e, por outro lado, a necessidade de alargar os nossos\u00a0horizontes a realidades mais distantes quando se contemplam os resultados das nossa a\u00e7\u00f5es.\u00a0Esta \u00faltima linha discursiva \u00e9 a que hoje em dia se tem vindo a denominar de\u00a0\u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d ou em terminologia mais franc\u00f3fona, \u201cmundializa\u00e7\u00e3o\u201d. Em concreto, no\u00a0livro sobre o Programa Integrado, servi-me da palavra mundializa\u00e7\u00e3o, pois no meu pa\u00eds\u00a0naqueles anos no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o o conceito globaliza\u00e7\u00e3o era usado como metodologia\u00a0para trabalhar nas aulas. De fato, a LOGSE, a lei da educa\u00e7\u00e3o que acaba de ser abolida,\u00a0especificava claramente que as metodologias com que devia trabalhar nas aulas de\u00a0Educa\u00e7\u00e3o Infantil deviam ser \u201cglobalizadas\u201d. Imagina que tem sido muito falado um livro\u00a0que escrevi no in\u00edcio dos anos noventa, mas, no entanto, h\u00e1 mais de d\u00e9cada que se\u00a0publicavam trabalhos sobre essa metodologia did\u00e1tica mais integrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada vez estou mais convicto da urg\u00eancia de avan\u00e7ar para teorias mais integradas se\u00a0realmente queremos educar e facilitar o acesso reflexivo \u00e0 informa\u00e7\u00e3o dos alunos. Um\u00a0compromisso com a justi\u00e7a no \u00e2mbito educativo obriga a termos presente a possibilidade de\u00a0se incorrer continuamente numa enorme injusti\u00e7a curricular, dado que \u00e9 muito prov\u00e1vel que\u00a0tanto os conte\u00fados dos programas escolares como as tarefas de cultivar o aluno para que\u00a0aprenda estejam mais relacionados aos interesses dos grupos sociais mais favorecidos.\u00a0Quando alguns grupos sociais observam que as suas propostas s\u00e3o mais consideradas nas\u00a0aulas que outras, isso significa que com os mais desatentos estamos a criar situa\u00e7\u00f5es de\u00a0injusti\u00e7a curricular. Estas situa\u00e7\u00f5es injustas s\u00e3o mais agravadas dado que as crian\u00e7as\u00a0pertencentes a grupos sociais mais desfavorecidos costumam aprender em escolas mal\u00a0dotadas, sem bibliotecas, sem laborat\u00f3rios, com poucos professores; escolas que tamb\u00e9m\u00a0t\u00eam falta de profissionais para ajudar: orientadores educacionais, assistentes sociais,\u00a0bibliotec\u00e1rios, professores de apoio, etc. Uma escola mal dotada \u00e9 um sinal claro de\u00a0injusti\u00e7a curricular e social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-4220\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Luis-Seoane.jpg\" alt=\"Luis Seoane\" width=\"334\" height=\"538\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Luis-Seoane.jpg 446w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Luis-Seoane-186x300.jpg 186w\" sizes=\"auto, (max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/>Mas, voltando a centrar-me apenas na tua pergunta, existe um fen\u00f4meno que penso\u00a0deve merecer uma aten\u00e7\u00e3o muito especial, o da mundializa\u00e7\u00e3o ou globaliza\u00e7\u00e3o\u00a0sociopol\u00edtica. Obviamente, a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal que se promove em todo o mundo \u00e9\u00a0algo verdadeiramente perverso, porque s\u00f3 favorece as grandes empresas multinacionais a\u00a0fazer neg\u00f3cios ainda mais rent\u00e1veis, sob a amea\u00e7a aos Estados de encerrar empresas para as\u00a0ir abrir noutros pa\u00edses que ofere\u00e7am condi\u00e7\u00f5es mais vantajosas, ou seja, a Estados com\u00a0sindicatos muito fracos, inclusive a pa\u00edses sem democracia e sindicatos, como tal, com\u00a0trabalhadores sem qualquer prote\u00e7\u00e3o e for\u00e7ados a trabalhar em situa\u00e7\u00f5es de semiescravid\u00e3o\u00a0ou escravid\u00e3o total. \u00c9 necess\u00e1rio fazer frente a este tipo de globaliza\u00e7\u00e3o\u00a0recorrendo a movimentos sociais, \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o dos direitos de cidadania. Penso que as\u00a0institui\u00e7\u00f5es escolares desempenham um papel fundamental na tentativa de se conseguir\u00a0estes direitos humanos em n\u00edvel mundial. A escola deve ser um espa\u00e7o onde aprendemos a\u00a0ver-nos como seres humanos interdependentes, como pessoas que cada vez que tomamos\u00a0alguma decis\u00e3o saibamos que teremos de ter em considera\u00e7\u00e3o quais as repercuss\u00f5es em\u00a0temas que est\u00e3o mais afastados de n\u00f3s. A cria\u00e7\u00e3o de uma mentalidade solid\u00e1ria em n\u00edvel\u00a0mundial tem de ser um objetivo de trabalho de todos os professores. Uma mentalidade\u00a0semelhante obrigaria a cada cidad\u00e3o pensar de uma forma mais internacional, ou seja, por\u00a0exemplo, quando compramos uma camisa numa loja n\u00e3o s\u00f3 olhamos para o pre\u00e7o dessa\u00a0pe\u00e7a de roupa, se \u00e9 barata, mas tamb\u00e9m prestamos aten\u00e7\u00e3o a: onde \u00e9 fabricada?, em que\u00a0condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o as pessoas que a fabricaram?, existem crian\u00e7as a trabalhar nessas\u00a0empresas?, os sal\u00e1rios desses trabalhadores s\u00e3o justos?, as mat\u00e9rias primas foram obtidas e\u00a0pagas de uma forma justa?, etc. Uma \u201cescola globalizada\u201d \u00e9 tamb\u00e9m aquela em que o aluno\u00a0mant\u00e9m uma comunica\u00e7\u00e3o fluida com outras institui\u00e7\u00f5es escolares mais afastadas, em que\u00a0se informa dos problemas dessas crian\u00e7as e, inclusive, tenta arranjar formas para tentar\u00a0ajudar a resolver esses problemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se para a manuten\u00e7\u00e3o de qualquer democracia \u00e9 necess\u00e1rio existir uma cidadania\u00a0educada e informada, a luta por um mundo global mais democr\u00e1tico e justo precisa dessa\u00a0cidadania, mas com uma consci\u00eancia claramente planet\u00e1ria, acostumada a ter uma vis\u00e3o\u00a0solid\u00e1ria e respons\u00e1vel para l\u00e1 dos limites do seu bairro, cidade ou pa\u00eds. A nossa escola tem\u00a0uma grande tarefa a planear, a colabora\u00e7\u00e3o na mundializa\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o, mas mais urgente \u00e9\u00a0a preocupa\u00e7\u00e3o com a pobreza, as necessidades e as injusti\u00e7as. A preocupa\u00e7\u00e3o com as\u00a0realidades internacionais mais in\u00fateis e classicistas, \u00e9 algo que infelizmente muitos grupos\u00a0t\u00eam vindo a promover, em especial, os meios de comunica\u00e7\u00e3o em massa. N\u00e3o devemos\u00a0permitir que a globaliza\u00e7\u00e3o apenas ocorra com os an\u00fancios da Coca-Cola, com os\u00a0restaurantes da MacDonald\u2019s ou da Pizza Hut, devemos trabalhar no sentido de tornar\u00a0vis\u00edvel as grandes urg\u00eancias de muitos pa\u00edses, as enormes injusti\u00e7as suportadas por\u00a0in\u00fameros povos e, conseq\u00fcentemente, mobilizar a cidadania para a cria\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias\u00a0para solucionar estes problemas. O ensino da matem\u00e1tica, da hist\u00f3ria, da literatura, das\u00a0ci\u00eancias, da l\u00edngua, &#8230; A matem\u00e1tica tem de servir para que as novas gera\u00e7\u00f5es aprendam \u00a0a\u00a0medir e quantificar as injusti\u00e7as suportadas por muitos milh\u00f5es de crian\u00e7as; as aulas de\u00a0hist\u00f3ria devem contribuir para explicar como se geraram noutros momentos de hist\u00f3ria\u00a0conflitos que atualmente ainda continuam por se resolver; a literatura tem de servir para que\u00a0as crian\u00e7as possam entrar em contato com outras id\u00e9ias mais afastadas, com realidades,\u00a0sonhos e aspira\u00e7\u00f5es que s\u00e3o narradas por pessoas que vivem fisicamente mais afastadas de\u00a0n\u00f3s e, al\u00e9m disso, para que se expressem atrav\u00e9s de uma linguagem muito rica e elaborada\u00a0e noutros idiomas n\u00e3o hegem\u00f4nicos, mas que s\u00e3o utilizados por muitas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao que me \u00e9 dado a entender sobre o esquecimento de John Dewey, penso que se deve\u00a0fundamentalmente ao fato de vivermos numa sociedade majoritariamente consumista que\u00a0considera \u201cfora de moda\u201d e que j\u00e1 n\u00e3o vale a pena tudo o que n\u00e3o se produziu ou escreveu\u00a0nestes \u00faltimos dois meses. Estou convencido de que uma imensa maioria de pessoas que\u00a0trabalho na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o nunca sequer leram um livro escrito por Dewey. Parece-me\u00a0uma grande injusti\u00e7a, pois acredito que \u00e9 dos poucos autores do s\u00e9culo XX que deveriam\u00a0ser considerados de leitura obrigat\u00f3ria. Preocupa-me o esquecimento enorme de obras que\u00a0continuam a ter uma import\u00e2ncia fundamental e que poderiam servir para abrir novos\u00a0horizontes neste mundo que alguns consideram n\u00e3o ter futuro. Surpreende-me de forma\u00a0dolorosa ver que a maioria dos estudantes que fazem doutoramento ou inclusive professores\u00a0no ativo que desconhecem a obra de autores como Celestin Freinet, Giner de los Rios,\u00a0Mario Lodi, Condorcet, Emile Durkheim e a pedagogia institucional francesa, etc. N\u00e3o\u00a0acredito que na maioria dos casos seja devido a censuras expl\u00edcitas por parte dos\u00a0professores que est\u00e3o a formar as novas gera\u00e7\u00f5es de professores, mas sim ao fato de nesta\u00a0sociedade consumista termos a tend\u00eancia a ver apenas o \u00faltimo livro que acabou de ser\u00a0publicado e a considerar como defasado tudo o que foi publicado no ano anterior. Isto \u00e9 um\u00a0enorme erro ao qual temos de fazer frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>Sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013 <em>No seu mais recente trabalho \u201cEduca\u00e7\u00e3o em tempos de neoliberalismo\u201d,\u00a0voc\u00ea desafia o pensamento \u00fanico, defende a recupera\u00e7\u00e3o da utopia\u00a0como um dos motores da transforma\u00e7\u00e3o social, op\u00f5e-se \u00e0 l\u00f3gica de que n\u00e3o existem\u00a0alternativas \u00e0 \u201ccruzada\u201d neo-liberal e denuncia [tal como Gimeno] o mercado como\u00a0uma met\u00e1fora inadequada para a educa\u00e7\u00e3o. Se houve orat\u00f3ria e pr\u00e1tica pol\u00edtica que\u00a0mais tumultos criou no tecido educativo foi, sem sombra de d\u00favida, o neoliberalismo.\u00a0Trazendo mais uma vez Dewey \u00e0 cola\u00e7\u00e3o, quais os grandes desafios que\u00a0enfrentam agora os educadores perante o cerco cada vez mais apertado das pol\u00edticas\u00a0neoliberais?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Penso que o maior perigo tem a ver com a destrui\u00e7\u00e3o do Estado\u00a0de Bem-estar e em concreto do Ensino P\u00fablico. A educa\u00e7\u00e3o para os governos\u00a0conservadores e grupos neoliberais j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 considerada como um servi\u00e7o p\u00fablico, mas sim\u00a0como ume rede de centros que s\u00e3o colocados \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias de forma a escolher\u00a0para onde v\u00e3o estudar as crian\u00e7as. Por sua vez, as fam\u00edlias observam atentamente os\u00a0col\u00e9gios como um local onde os seus filhos aprendem algo que servir\u00e1 amanh\u00e3 para terem\u00a0um sal\u00e1rio e prest\u00edgio social. A filosofia de mercado est\u00e1 a apoderar-se do pensamento, das\u00a0pr\u00e1ticas e das institui\u00e7\u00f5es escolares. Os compromissos principais que vinham orientando o\u00a0pensamento e as diretrizes dos que trabalharam para e nas escolas p\u00fablicas, est\u00e3o a ser\u00a0esquecidos no que diz respeito aos processos de privatiza\u00e7\u00e3o que afetam a educa\u00e7\u00e3o.\u00a0Vejamos, a t\u00edtulo de exemplo, no dif\u00edcil momento que nos encontramos em centros escolares\u00a0organizados com base em argumentos que, at\u00e9 recentemente, serviam para organizar o\u00a0trabalho educativo, tal como: a igualdade de oportunidades, a educa\u00e7\u00e3o centrada no aluno, a\u00a0integra\u00e7\u00e3o das pessoas menos capacitadas, o anti-racismo, o anti-sexismo, o anticlassicismo,\u00a0a democratiza\u00e7\u00e3o dos centros, a escola ao servi\u00e7o da comunidade, o multiculturalismo,\u00a0a educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, a educa\u00e7\u00e3o compreensiva&#8230; Discursos e opini\u00f5es sobre a\u00a0educa\u00e7\u00e3o que atualmente est\u00e3o sendo atacados frontalmente por parte dos defensores do\u00a0mercado e das ideologias conservadoras, se bem que \u00e9 de ressalvar que ainda existe um\u00a0grande n\u00famero de professores que continuam a ter estes objetivos ou semelhantes como\u00a0motor das suas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao admitir-se a compara\u00e7\u00e3o dos col\u00e9gios com as empresas teremos de admitir tamb\u00e9m\u00a0que a procura de benef\u00edcios econ\u00f4micos privados \u00e9 um dos seus principais objetivos. No\u00a0entanto, conv\u00e9m n\u00e3o esquecer que, enquanto os neg\u00f3cios privados tentam conseguir lucros\u00a0para os seus propriet\u00e1rios e acionistas, as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas regem-se pela procura e\u00a0ganhos de bens p\u00fablicos, de presta\u00e7\u00f5es destinadas a toda a popula\u00e7\u00e3o, dando maior aten\u00e7\u00e3o\u00a0aos que mais dela precisam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 conveniente comprovar se a possibilidade de se obterem benef\u00edcios econ\u00f4micos por\u00a0parte da iniciativa privada podem levar a perdas sociais; em determinadas circunstancias \u00e9\u00a0prov\u00e1vel que a obten\u00e7\u00e3o de lucros se d\u00ea \u00e0 custa de interesses sociais. Um exemplo destas\u00a0perdas sociais \u00e9 o caso das empresas poluentes que para obterem maiores benef\u00edcios\u00a0econ\u00f4micos n\u00e3o t\u00eam quaisquer problemas em gerar maior polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica ou\u00a0mar\u00edtima, de destruir determinadas \u00e1reas naturais ou explorar determinados minerais e\u00a0plantas. No caso em quest\u00e3o, as perdas sociais s\u00e3o resultado da potencia\u00e7\u00e3o de uma rede de\u00a0centros privados que continuam a favorecer a desorganiza\u00e7\u00e3o social; conseguindo que\u00a0determinados grupos sociais menos favorecidos acabem por ficar limitados a escolas\u00a0p\u00fablicas tipo \u201capartheid\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o nos passar\u00e1 despercebido que defende uma economia de mercado neoliberal n\u00e3o\u00a0se questiona sobre se s\u00e3o necess\u00e1rios alguns limites. Que n\u00e3o torne mais clara a diferen\u00e7a\u00a0entre bens p\u00fablicos e privados. Os bens privados, como o pr\u00f3prio nome indica s\u00e3o aqueles\u00a0que s\u00e3o adquiridos e desfrutados pelas pessoas individualmente e que n\u00e3o afetam as\u00a0restantes pessoas; o que acontece, por exemplo, com a aquisi\u00e7\u00e3o de uma mesa ou de uma\u00a0guitarra. Por oposi\u00e7\u00e3o, os bens p\u00fablicos s\u00e3o aqueles a que todas as pessoas t\u00eam acesso e\u00a0que podem ser desfrutados por todos. Assim, a sa\u00fade \u00e9 algo a que todos devem ter acesso,\u00a0ao mesmo n\u00edvel da educa\u00e7\u00e3o, ou viver num meio ambiente sem polui\u00e7\u00e3o, visto que a sa\u00fade,\u00a0a cultura ou uma boa qualidade do ar que respiramos, a \u00e1gua, as plantas e os minerais,\u00a0contribuem de forma decisiva \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da vida no planeta. Limitando-nos mais \u00e0 \u00e1rea\u00a0da educa\u00e7\u00e3o, considerada como um bem p\u00fablico significa um compromisso para com o\u00a0desenvolvimento de todos os seres humanos, n\u00e3o sendo exclusivamente para aqueles que s\u00f3\u00a0porque nasceram no seio de determinada fam\u00edlia t\u00eam recursos para ela. Tenhamos presente,\u00a0para, al\u00e9m disso, que se todas as pessoas tiverem acesso a uma educa\u00e7\u00e3o, a vida de toda a\u00a0popula\u00e7\u00e3o ser\u00e1 muito melhor, pois todos ser\u00e3o beneficiados com a contribui\u00e7\u00e3o dos outros.\u00a0A viol\u00eancia, no sentido mais alargado da palavra, a mortalidade, as altas taxas de\u00a0reprodu\u00e7\u00e3o, as doen\u00e7as e pragas que geram pobreza, a ignor\u00e2ncia e a marginalidade ser\u00e3o\u00a0obviamente reduzidas, o que ser\u00e1 ben\u00e9fico para toda a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Estado Espanhol, a pol\u00edtica educativa neoliberal que vem sendo desenvolvida pelo\u00a0Partido Popular (PP) tem como um dos principais objetivos, a liberdade de sele\u00e7\u00e3o de\u00a0centros, mas com o sentido de aumentar a privatiza\u00e7\u00e3o do ensino. Um bom exemplo \u00e9 o\u00a0livro \u201cLa libertad de elecci\u00f3n en educaci\u00f3n\u201d (1995), publicado por Francisco L\u00f3pez\u00a0Rup\u00e9rez, Director Geral dos \u201cCentros Educativos del Ministerio de Educaci\u00f3n y Cultura\u201d\u00a0do Governo do Partido Popular (PP); obra editada pela Fundaci\u00f3n para el An\u00e1lisis y los\u00a0Estudios Sociales, de que \u00e9 presidente Jos\u00e9 Maria Aznar L\u00f3pez, o Primeiro Ministro do\u00a0Governo Espanhol. Nesta publica\u00e7\u00e3o, o autor, tamb\u00e9m ele ide\u00f3logo do PP, utiliza os seus\u00a0esfor\u00e7os na tentativa de convencer as pessoas das vantagens da livre escolha, fazendo com\u00a0que desapare\u00e7am os \u201cclientes cativos\u201d dos centros p\u00fablicos. Este ide\u00f3logo conservador e\u00a0neoliberal considera que as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas bem corno os funcion\u00e1rios que nelas\u00a0trabalham s\u00e3o seres perversos, os quais t\u00eam de ser afastados das crian\u00e7as, dado que segundo\u00a0ele, estamos perante \u201cum monop\u00f3lio bilateral formado, por um lado, pelo governo e por\u00a0outro pelos professores sindicalizados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Torna-se chamativa a forma como este autor se esquece de considerar a diferen\u00e7a\u00a0radical que deve existir no comportamento do governo num regime ditatorial e num regime\u00a0democr\u00e1tico. No primeiro caso \u00e9 t\u00edpica a tirania das decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es, no entanto, numa\u00a0democracia um comportamento como o que denuncia este Diretor Geral tornar-se-ia\u00a0inconceb\u00edvel, seria o maior sintoma da falsidade de uma situa\u00e7\u00e3o que se denomina\u00a0democr\u00e1tica. Uma frase como a anteriormente citada deixa transparecer a sua escass\u00edssima\u00a0f\u00e9 nos mecanismos democr\u00e1ticos, a par da sua total antipatia com os Sindicatos, uma das\u00a0institui\u00e7\u00f5es fundamentais das sociedades democr\u00e1ticas.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-4189\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Vasily-Kandinsky.jpg\" alt=\"Vasily Kandinsky\" width=\"534\" height=\"444\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Vasily-Kandinsky.jpg 902w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Vasily-Kandinsky-300x249.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 534px) 100vw, 534px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o Estado se retira ou n\u00e3o interv\u00e9m, equivale a deixar desprotegidos os grupos\u00a0mais fracos. Estas crian\u00e7as s\u00e3o as que estudam nos col\u00e9gios piores, e com professores\u00a0abandonados \u00e0 sua sorte, sem ajuda para resolver os problemas que surjam. Eu estou\u00a0habituado a dizer e \u00e9 algo que desenvolvo neste livro a que fazem refer\u00eancia, \u201cEducaci\u00f3n\u00a0en tiempos de Neoliberalismo\u201d, que as escolas n\u00e3o podem ser clubes. As primeiras dizem\u00a0respeito aos interesses de toda a cidadania, ao bem p\u00fablico, os clubes, pelo contr\u00e1rio, s\u00f3 se\u00a0preocupam com os seus s\u00f3cios. Penso que este \u00e9 o grande desafio dos pr\u00f3ximos anos:\u00a0impedir que as escolas se transformem em clubes privados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A privatiza\u00e7\u00e3o come\u00e7a pela privatiza\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es, mas continua com a\u00a0privatiza\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados que se trabalham nas aulas. Se s\u00f3 preocupam os interesses\u00a0privados dos alunos de cada clube, \u00e9 previs\u00edvel pensar que tamb\u00e9m se acabe por oferecer\u00a0somente aquelas assinaturas [disciplinas] que interessem a esse grupo de fam\u00edlias\u00a0\u201cpropriet\u00e1rias\u201d do clube e, por hip\u00f3tese, somente \u00e0s perspectivas ideol\u00f3gicas que elas\u00a0defendem. \u00c9 a forma de construir sociedades dualizadas, fragmentadas, em que cada\u00a0coletivo social v\u00ea os outros como rivais ou perigosos para iludir e eliminar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A educa\u00e7\u00e3o do futuro, tal como chamou a aten\u00e7\u00e3o a comiss\u00e3o presidida por Jacques\u00a0Delors, tem entre os seus desafios trabalhar para que nas aulas as novas gera\u00e7\u00f5es aprendam\u00a0a viver em comunidade. O neoliberalismo caminha na dire\u00e7\u00e3o oposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Curr\u00edculo <em>sem<\/em> Fronteiras<\/strong> \u2013 <em>Voc\u00ea n\u00e3o esconde, de forma alguma, a sua identidade galega.\u00a0Tem inclusivamente vinculado a sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de uma forma muito expl\u00edcita,\u00a0\u00e0 causa galega, como demonstra o Manifesto 15D, emitido em Santiago de\u00a0Compostela a 15 de Dezembro de 2001. Pode-nos explicar qual o grande prop\u00f3sito\u00a0pol\u00edtico do Movimento Reintegracionista Galego?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong> \u2013 Considero-me um nacionalista galego de esquerda. Algo que nos\u00a0tempos de conservadorismo que correm pode ser considerado chocante, pelo menos para as\u00a0pessoas que n\u00e3o vivem no que n\u00f3s denominamos \u201cuma na\u00e7\u00e3o sem Estado\u201d. A Gal\u00edcia \u00e9\u00a0uma prov\u00edncia dentro do Estado Espanhol que fruto das lutas sociais que t\u00eam sido levadas a\u00a0cabo desde os finais do s\u00e9culo XIX foi atingindo n\u00edveis importantes de autonomia, mas\u00a0presentemente s\u00e3o insuficientes e da\u00ed que neste momento em prov\u00edncias como o Pa\u00eds Basco,\u00a0Catalunha e Gal\u00edcia se est\u00e3o a exigir uma maior dimens\u00e3o nos Estatutos de Autonomia que\u00a0nos governam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A finalidade do Manifesto do 15 de Dezembro de 2001, divulgado em Santiago de\u00a0Compostela, era de protestar pela pol\u00edtica ling\u00fc\u00edstica que tem vindo a ser promovida pelo\u00a0Governo galego, do Partido Popular, do mesmo partido que Governa o Estado Espanhol.\u00a0Na Gal\u00edcia a l\u00edngua que falamos \u00e9 o galego, tamb\u00e9m o espanhol, mas a l\u00edngua pr\u00f3pria, \u00e9 o\u00a0galego. Esta l\u00edngua \u00e9 uma variante do portugu\u00eas, mas a pol\u00edtica oficial, num primeiro\u00a0momento tratou de a proibir. De fato durante a minha inf\u00e2ncia na escola castigavam-nos se\u00a0fal\u00e1vamos em galego. Era a l\u00edngua da incultura, diziam, e proibiam-nos de falar e, claro,\u00a0estudar. Com a chegada da democracia e, em concreto, com a aprova\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0Espanhola de 1978, reconheceu-se a Gal\u00edcia como uma Nacionalidade hist\u00f3rica e o\u00a0\u201cdireito\u201d a falar-se em galego, mas n\u00e3o a \u201cobriga\u00e7\u00e3o\u201d de falar em galego. A pol\u00edtica\u00a0conservadora desde esse momento j\u00e1 n\u00e3o se op\u00f4s \u201coficialmente\u201d \u00e0 l\u00edngua, mudou somente\u00a0de estrat\u00e9gia: tentar dialetizar a l\u00edngua galega, at\u00e9 se transformar numa variante do\u00a0espanhol. Por ter sido tanto tempo proibida, a l\u00edngua galega conservou-se\u00a0fundamentalmente gra\u00e7as aos grupos mais populares, os que nunca tinham estudado ou\u00a0tinham estudado pouco tempo. A l\u00edngua ao ser estudada foi-se misturando com vocabul\u00e1rio\u00a0e at\u00e9 com determinadas estruturas gramaticais pr\u00f3prias do espanhol. A estrat\u00e9gia de\u00a0dialetiza\u00e7\u00e3o passava por legitimar essas influ\u00eancias e inclusivamente promover outras\u00a0novas, at\u00e9 a l\u00edngua galega ficar descaracterizada, confundindo-se com o espanhol. O\u00a0movimento nacionalista apostou no reintegracionismo e a nossa estrat\u00e9gia e o nosso\u00a0trabalho \u00e9 recuperar a l\u00edngua e devolv\u00ea-la ao in\u00edcio, o galego-portugu\u00eas. \u00c9 algo \u00f3bvio para\u00a0qualquer Portugu\u00eas, Brasileiro ou Galego, que v\u00ea como se entendem e utilizam o mesmo\u00a0vocabul\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser nacionalista de esquerda n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de um reacion\u00e1rio e muito menos uma\u00a0pessoa que quer abrir novas frentes para separar e expulsar aos n\u00e3o galegos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a imagem que a direita e alguma esquerda estatal est\u00e3o a divulgar para confundir\u00a0a popula\u00e7\u00e3o e refrear o avan\u00e7o do nacionalismo progressista. Nunca o nacionalismo galego\u00a0falou de expuls\u00e3o, mas sim de integra\u00e7\u00e3o. Principalmente quando somos um dos povos do\u00a0mundo que sofreu com mais crueldade o fen\u00f4meno da emigra\u00e7\u00e3o. Nunca desde o\u00a0nacionalismo se falou de refrear a chegada de imigrantes, algo que tanto o Partido Popular\u00a0como o Partido Socialista Trabalhista Espanhol falam e legislam. Na realidade essa pol\u00edtica\u00a0de exclus\u00e3o nacionalista \u00e9 a que eles praticam, s\u00f3 que o que fazem \u00e9 tra\u00e7ar outras fronteiras.\u00a0Todos os dias as fronteiras espanholas expulsam centenas de cidad\u00e3os por n\u00e3o terem\u00a0nascido na Espanha. Os nacionalistas galegos est\u00e3o contra as leis de estrangeiros aprovadas\u00a0no Parlamento Espanhol e contra elas votaram os Deputados do Bloco Nacionalista Galego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento nacionalista de esquerda pretende que a Gal\u00edcia amplie o seu Estatuto de\u00a0Autonomia para poder desenvolver as suas potencialidades econ\u00f4micas, culturais e sociais,\u00a0mas tendo ciente que a internacionaliza\u00e7\u00e3o e o universalismo s\u00e3o as chaves que devem\u00a0impregnar e construir todas as nossas a\u00e7\u00f5es. Aquilo que n\u00f3s sempre afirmamos \u00e9 que o\u00a0galego \u00e9 todo o indiv\u00edduo que vive na Gal\u00edcia e o que pretendemos \u00e9 aproximar muito mais\u00a0a cidadania \u00e0s possibilidades de participar ativamente no projeto do que deve ser esta na\u00e7\u00e3o. De fato, uma das id\u00e9ias que guiam os grupos nacionalistas \u00e9 caminhar para uma\u00a0Europa dos Povos, n\u00e3o dos Estados, pois acreditamos que desta forma cada uma das\u00a0Na\u00e7\u00f5es que a comp\u00f5em ter\u00e3o mais possibilidades de participar e agrupar. \u00c9 a forma que\u00a0considero para harmonizar uma Europa verdadeiramente democr\u00e1tica, sem \u201ccol\u00f4nias\u00a0interiores\u201d, sem povos inteiros marginalizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Notas<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1\u00a0 Chumbar \u00e9 uma express\u00e3o utilizada em Portugal para significar reprova\u00e7\u00e3o na escola. O mesmo que \u201ctomar\u00a0bomba\u201d ou \u201crodar\u201d no Brasil. [Nota dos editores]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-4184\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/David-Hockney-1024x385.jpg\" alt=\"David Hockney\" width=\"559\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/David-Hockney-1024x385.jpg 1024w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/David-Hockney-300x113.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 559px) 100vw, 559px\" \/><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span>David Hockney &#8211; \u00ab<em>Autumn Leaves<\/em>\u00ab<\/h4>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imperiosa necessidade de uma teoria e pr\u00e1tica pedag\u00f3gica radical cr\u00edtica:\u00a0 . Di\u00e1logo com Jurjo Torres Santom\u00e9 . Jo\u00e3o M. Paraskeva.\u00a0Universidade do Minho,\u00a0Braga, Portugal Lu\u00eds Armando Gandin.\u00a0Universidade Federal do Rio Grande do Sul,\u00a0Porto Alegre, Brasil \u00c1lvaro Moreira Hypolito.\u00a0Universidade Federal de\u00a0Pelotas, UFPel . . . Curriculo sem Fronteiras Vol. 4, n\u00ba 2, pp. 5 &#8211; 32, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[62,61,100,54],"class_list":["post-4138","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacion","tag-educacion-publica","tag-pedagogia-critica","tag-politicas-educativas","tag-reformas-educativas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4138","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4138"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4138\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4223,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4138\/revisions\/4223"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}