{"id":3043,"date":"2014-07-01T17:23:22","date_gmt":"2014-07-01T19:23:22","guid":{"rendered":"http:\/\/jurjotorres.com\/?p=3043"},"modified":"2017-04-16T17:24:14","modified_gmt":"2017-04-16T15:24:14","slug":"a-rigidez-do-modelo-educativo-e-uma-rigidez-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jurjotorres.com\/?p=3043","title":{"rendered":"\u00abA rigidez do modelo educativo \u00e9 uma rigidez militar\u00bb"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">\u00abA rigidez do modelo educativo \u00e9 uma rigidez militar\u00bb<\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Entrevista com Jurjo Torres Santom\u00e9<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800080;\"><strong>Jornal da Escola<\/strong><\/span>. Abril 2011<\/h3>\n<p style=\"text-align: right;\"><b><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3045\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/logo_belourinha.png\" alt=\"logo_belourinha\" width=\"192\" height=\"85\" \/><span style=\"color: #3366ff;\">www.belourinha.com<\/span><\/b><\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3046\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/logo_cfv.png\" alt=\"logo_cfv\" width=\"210\" height=\"73\" \/><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrevista dada no \u00e2mbito da Con<span style=\"color: #000000;\">fer\u00eancia <\/span><em><strong>O QUE MUDAR NA ESCOLA\u00a0<\/strong><\/em><span style=\"color: #171717;\"><em><strong>P\u00daBLICA?<\/strong><\/em>, <\/span>promovida pelo <strong>Sindicato de Professores da Grande Lisboa<\/strong>. Jurjo Torres \u00e9 professor catedr\u00e1tico de Did\u00e1ctica e Organiza\u00e7\u00e3o Escolar na Universidade de A\u00a0Coru\u00f1a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00ab<em>O que mudar na escola p\u00fablica<\/em>\u00bb\u00a0foi o tema desta confer\u00eancia. O\u00a0que remete para as pr\u00f3prias\u00a0mudan\u00e7as a sociedade, nomeadamente ao n\u00edvel da informa\u00e7\u00e3o\u00a0globalizada e da diversidade de\u00a0origens culturais e nacionais. Na\u00a0sua perspectiva, o que \u00e9 mais\u00a0importante mudar, tendo em\u00a0conta essas altera\u00e7\u00f5es na socie<\/strong><b>dade?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sistemas educativos actualmente\u00a0dominantes na escola p\u00fablica t\u00eam\u00a0uma origem, que \u00e9 importante lembrar: um Estado que pretende formar para a cidadania. Mas numa perspectiva estritamente nacional.\u00a0No caso de Portugal, de tornar os jovens conscientes de que s\u00e3o portugueses. Isso fez\u2010se com um curr\u00edculo muito redutor, em que se diz: n\u00f3s somos os melhores, temos uma hist\u00f3ria &#8211; que o sistema educativo vai reler e refazer &#8211; bel\u00edssima. E o mesmo nas outras mat\u00e9rias \u2010 como\u00a0geografia, matem\u00e1tica, literatura \u2010 a ideia que se transmite \u00e9 sempre que\u00a0n\u00f3s somos seres fant\u00e1sticos. Uma abordagem que s\u00f3 permite uma\u00a0\u00fanica leitura da realidade. \u00c9 a cultura dos manuais escolares. Os manuais escolares s\u00e3o uma fonte\u00a0informativa exclusiva onde est\u00e1 a verdade oficial. O que implica que todos estamos de acordo em que a\u00a0hist\u00f3ria \u00e9 esta, a geografia \u00e9 esta, a ci\u00eancia \u00e9 esta e as explica\u00e7\u00f5es dadas s\u00e3o todas correctas. Tal como na B\u00edblia &#8230; E tende a converter-nos\u00a0em\u00a0pessoas dogm\u00e1ticas. Porque n\u00e3o h\u00e1\u00a0lugar ao debate, \u00e0 d\u00favida, ao reconhecimento de que haja interesses,\u00a0preconceitos. Pode\u2010se admitir que\u00a0um estudante entre em contacto\u00a0com o conhecimento cultural servindo\u2010se \u00fanica e exclusivamente de\u00a0uma fonte informativa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3067\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Ricardo-Ponce.jpg\" alt=\"Ricardo Ponce\" width=\"336\" height=\"274\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Ricardo-Ponce.jpg 482w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Ricardo-Ponce-300x244.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/>Ora este conhecimento \u00e9 constru\u00eddo por seres humanos. Que t\u00eam o seu\u00a0ego, interesses, preconceitos. E as\u00a0mulheres sabem bem disso. Porque\u00a0todo o conhecimento, nas diversas\u00a0\u00e1reas disciplinares, era centrado no\u00a0homem. E para a sua liberta\u00e7\u00e3o e\u00a0conquista da igualdade, as mulheres\u00a0tiveram que demonstrar como a\u00a0perspectiva masculina afectava a\u00a0interpreta\u00e7\u00e3o dos factos. No mundo\u00a0em que vivemos, o mundo em que a\u00a0crian\u00e7a vive, deparamo\u2010nos com\u00a0uma quantidade de fontes culturais,\u00a0uma sobreabund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00e3o. Estou a falar desde a r\u00e1dio \u00e0\u00a0internet, TV, revistas cient\u00edficas.\u00a0Uma escola que prepara para um\u00a0mundo que chamamos de informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode basear numa \u00fanica\u00a0fonte informativa. O que haver\u00e1 que\u00a0ter \u00e9 muitas, diferentes, em todos os\u00a0sentidos \u2010 de tal forma que a pessoa\u00a0aprenda a mover\u2010se no mundo e,\u00a0portanto, aprenda a ser cr\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o se aprende a ser cr\u00edtico manejando uma \u00fanica fonte informativa,\u00a0mas v\u00e1rias e muito diferentes.\u00a0Ent\u00e3o vamo\u2010nos dando conta de\u00a0como h\u00e1 interesses ocultos ou interesses expl\u00edcitos, distor\u00e7\u00f5es, preconceitos. Para mim essa \u00e9 uma\u00a0fun\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel de uma institui\u00e7\u00e3o escolar no mundo de hoje.\u00a0Que \u00e9 diverso, multicultural. Palavras com que todos concordamos,\u00a0mas que muitas vezes n\u00e3o passam\u00a0de puros slogans e n\u00e3o se concretizam nas pr\u00e1ticas. Na pr\u00f3pria sala\u00a0aula, temos hoje estudantes de\u00a0v\u00e1rias origens, como antes n\u00e3o\u00a0t\u00ednhamos. E a escola n\u00e3o pode ter o\u00a0mesmo discurso, veicular as mesmas imagens, como se estes novos\u00a0alunos e os seus povos n\u00e3o existissem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Coloca-se ent\u00e3o aqui a quest\u00e3o\u00a0<\/b><b>dos pr\u00f3prios conte\u00fados e do\u00a0<\/b><b>modo de ensinar.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das grandes quest\u00f5es que se\u00a0coloca ao sistema educativo \u00e9 a\u00a0revis\u00e3o dos conte\u00fados com que se\u00a0est\u00e1 trabalhar, que n\u00e3o correspondem ao mundo de hoje. No mundo\u00a0adulto estudamos as coisas de uma\u00a0forma mais interdisciplinar. \u00c9 uma\u00a0organiza\u00e7\u00e3o do pensamento muito\u00a0mais interdisciplinar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ensino, continuamos a manter\u00a0estruturas e formas de organiza\u00e7\u00e3o\u00a0medievais. Onde \u00e9 que est\u00e1 a certeza, a seguran\u00e7a emp\u00edrica de que as\u00a0crian\u00e7as aprendam melhor estudando l\u00edngua, literatura, matem\u00e1ticas e hist\u00f3ria, separadamente? N\u00e3o seria\u00a0poss\u00edvel que estudassem antes por\u00a0grandes temas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo &#8211; direitos humanos, o\u00a0mundo da pobreza, a vida nas cidades, a vida no mundo rural, o mundo da internet. Seria muito mais\u00a0adequado ao mundo de hoje. Claro\u00a0que nos primeiros anos de escolaridade haveria que apostar em determinadas tarefas muito elementares &#8211;\u00a0a leitura, a escrita, algumas opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas. Fora disso, nada\u00a0indica que uma pessoa, para saber\u00a0hist\u00f3ria, deva come\u00e7ar por saber\u00a0muit\u00edssimo da pr\u00e9-hist\u00f3ria e, progredindo, chegar ao s\u00e9culo XX (ou\u00a0n\u00e3o, porque n\u00e3o h\u00e1 tempo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o actual sistema educativo,\u00a0nada se aprende sobre quest\u00f5es t\u00e3o\u00a0importantes como: os movimentos\u00a0art\u00edsticos do s\u00e9culo XX; ou o cinema; ou acontecimentos fundamentais da hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX, como,\u00a0por exemplo, a guerra do Vietname.\u00a0J\u00e1 nem falo da guerra do Golfo, que\u00a0entrar\u00e1 no sistema educativo dentro de 40 &#8211; 60 anos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que esse tipo de debate falta.\u00a0Estamos no s\u00e9culo XX. N\u00e3o estamos\u00a0no s\u00e9culo XVIII. Importa debater e\u00a0rever, na escola, o mundo dos conte\u00fados e o mundo dos recursos\u00a0did\u00e1cticos. Seguidamente, ver que\u00a0forma\u00e7\u00e3o deveremos dar aos professores para trabalhar deste outro\u00a0modo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quais as estrat\u00e9gias para ensinar as\u00a0aprendizagens. E, por \u00faltimo, que\u00a0modalidades de avalia\u00e7\u00e3o. O que se\u00a0est\u00e1 a fazer \u00e9 o contr\u00e1rio. \u00c9 a obsess\u00e3o de como avaliar. A press\u00e3o do\u00a0Estado no sentido de avaliar. Comece\u2010se por diagnosticar, investigar.\u00a0Fa\u00e7a\u2010se pesquisa. E quando tivermos evid\u00eancias, definam\u2010se os\u00a0modos de trabalhar, os modelos\u00a0organizativos para a escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rigidez do modelo educativo \u00e9 uma rigidez militar. Parte\u2010se do\u00a0princ\u00edpio que todos os estudantes\u00a0s\u00e3o iguais. Portanto, entram \u00e0\u00a0mesma hora, saem \u00e0 mesma hora,\u00a0t\u00eam os mesmos recursos did\u00e1cticos. O manual escolar pressup\u00f5e\u00a0que todos sabem o mesmo, todos\u00a0t\u00eam os mesmos interesses e as\u00a0mesmas motiva\u00e7\u00f5es. Por isso\u00a0damos\u2010lhes os mesmos exemplos,\u00a0as mesmas ilustra\u00e7\u00f5es. Tudo\u00a0igual. E a manifesta\u00e7\u00e3o deste\u00a0saber manifesta\u2010se exclusivamente na resposta \u00e0s perguntas. Este\u00a0tipo de quest\u00f5es s\u00e3o decisivas,\u00a0s\u00e3o urgentes. E pressup\u00f5em que\u00a0se abra um debate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sou um cr\u00edtico. Penso que a\u00a0cr\u00edtica \u00e9 uma dimens\u00e3o incontorn\u00e1vel. \u00c9 fundamental aprender a\u00a0ler criticamente. Uma aprendizagem que come\u00e7a em crian\u00e7a e s\u00f3\u00a0termina no dia em que se morre.\u00a0Entretanto, \u00e9 sempre poss\u00edvel\u00a0melhorar esta capacidade cr\u00edtica.\u00a0O que pressup\u00f5e um esfor\u00e7o, que\u00a0se tome consci\u00eancia disso e se\u00a0trabalhe para tal. Penso que nos\u00a0falta esse tipo de questionamento. Rever os modelos organizativos. S\u00e3o modelos muito militares.\u00a0Normalizadores.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3063\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/James-W.-Johnson.jpg\" alt=\"James W. Johnson\" width=\"291\" height=\"435\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/James-W.-Johnson.jpg 603w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/James-W.-Johnson-201x300.jpg 201w\" sizes=\"auto, (max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Educar para o optimismo \u00e9 um\u00a0<\/b><b>dos princ\u00edpios que defende. Em\u00a0<\/b><b>termos pr\u00e1ticos &#8211; como?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma forma de informa\u00e7\u00e3o em\u00a0que se trabalha, se diagnostica o\u00a0problema e se fala da realidade\u00a0como \u00e9, de dura e injusta como \u00e9\u00a0ou foi. Mas, ao mesmo tempo, se\u00a0procuram caminhos de sa\u00edda.\u00a0Penso que \u00e9 esse o caminho. S\u00e3o\u00a0tr\u00eas os grandes temas que, na\u00a0minha opini\u00e3o, se fossem abordados pelo sistema educativo,\u00a0fariam com que tiv\u00e9ssemos a\u00a0gera\u00e7\u00e3o de adultos mais optimistas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes do mais, a escravatura.\u00a0Ensinar que houve uma \u00e9poca em\u00a0que existiu a escravatura. E que\u00a0todos os fil\u00f3sofos, as pessoas\u00a0mais s\u00e1bias do mundo, a justificavam: uns nasceram para escravos e outros nasceram para cidad\u00e3os. Que fizeram os escravos e\u00a0algumas pessoas que n\u00e3o eram\u00a0escravos, mas que se foram dando conta do que se passava, para ir\u00a0modificando esta situa\u00e7\u00e3o? E como \u00e9\u00a0que se situaram, nesse processo, os\u00a0grandes fil\u00f3sofos e pensadores?\u00a0Entretanto, a escravatura passou a\u00a0ser considerada um delito. E a ONU\u00a0estabeleceu, com todos os pa\u00edses do\u00a0mundo, que a escravatura \u00e9 ilegal. \u00c9\u00a0verdade que hoje tamb\u00e9m pode\u00a0haver situa\u00e7\u00f5es de escravatura. Mas \u00e9\u00a0ilegal. N\u00e3o h\u00e1 nenhum argumento\u00a0cient\u00edfico, nenhuma teoria, nada que a\u00a0defenda. \u00c9 um delito, per si. O que \u00e9\u00a0que aconteceu? Como foi poss\u00edvel esta\u00a0evolu\u00e7\u00e3o? Se conseguimos isso, que\u00a0pode haver hoje no mundo mais dif\u00edcil do que foi ent\u00e3o lutar contra a\u00a0escravatura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro tema: o nazismo.\u00a0Como \u00e9 que um dos povos mais cultos\u00a0do mundo, os alem\u00e3es, elege democraticamente algu\u00e9m como Hitler? E\u00a0comete as barbaridades que sabemos? Como \u00e9 que as universidades e\u00a0os diferentes campos de conhecimento trabalharam no sentido de construir um conhecimento racista e nazi?\u00a0E como se desmontou tudo isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma\u00a0outra \u00e1rea, que permite um grande\u00a0optimismo: a hist\u00f3ria das mulheres.\u00a0Num determinado per\u00edodo da hist\u00f3ria\u00a0p\u00f4s\u2010se mesmo em causa se seriam\u00a0seres racionais. Nos anos 70, toda a\u00a0ci\u00eancia e a psicologia, diziam: as\u00a0mulheres n\u00e3o s\u00e3o iguais aos homens.\u00a0O seu pensamento l\u00f3gico, matem\u00e1tico, \u00e9 muito deficit\u00e1rio. S\u00f3 s\u00e3o iguais\u00a0aos homens nas capacidades lingu\u00edsticas. Os s\u00e1bios antigos, como Arist\u00f3teles ou Dem\u00f3crito, defendiam que s\u00f3\u00a0os homens deveriam votar (n\u00e3o as\u00a0mulheres). Que aconteceu ao longo\u00a0destes s\u00e9culos, que tipo de ideias se\u00a0desenvolveram, que linhas de interven\u00e7\u00e3o se implementaram para que,\u00a0hoje, o simples enunciado de tais afirma\u00e7\u00f5es seja delito? Como se reviu\u00a0todo o conhecimento? Que \u00e9 que foi\u00a0feito? O curr\u00edculo optimista desenvolve estas ideias. O curr\u00edculo optimista\u00a0n\u00e3o \u00e9, nem pouco mais ou menos,\u00a0infantiliza\u00e7\u00e3o. Infantiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 evitar\u00a0falar \u00e0s crian\u00e7as de como os adultos\u00a0podem tamb\u00e9m ser maus e a humanidade injusta. \u00c9 mant\u00ea\u2010las numa esp\u00e9cie de Disneyl\u00e2ndia. O problema \u00e9:\u00a0quando essa mesma crian\u00e7a sai da\u00a0escola e regressa a casa vai deparar\u00a0com um pai que est\u00e1 desempregado,\u00a0uma m\u00e3e que est\u00e1 desempregada,\u00a0uma casa em que se passa fome, uma casa degradada, um bairro em que\u00a0muitas vezes n\u00e3o h\u00e1 arruamentos. E\u00a0vai querer explica\u00e7\u00f5es. E a crian\u00e7a\u00a0precisa dessas explica\u00e7\u00f5es. Se a escola\u00a0n\u00e3o ajuda, cada um ir\u00e1 procur\u00e1\u2010las,\u00a0por si. Mas poder\u00e3o encontrar\u2010se\u00a0explica\u00e7\u00f5es falsas e pode\u2010se acabar a\u00a0odiar os pr\u00f3prios pais. E a ocultar, a\u00a0mentir sobre quem se \u00e9. H\u00e1 muitas\u00a0crian\u00e7as que mentem sobre quem\u00a0s\u00e3o os seus pais e envergonham\u2010se\u00a0deles e n\u00e3o querem que os venham\u00a0buscar \u00e0 escola, porque n\u00e3o s\u00e3o como\u00a0eles gostariam. E n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que\u00a0lhes diga: que sorte que tens por ter\u00a0tais pais, porque, apesar de viverem\u00a0t\u00e3o mal, te d\u00e3o tudo o que lhes \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sistema educativo deveria explicar\u00a0estas realidades. E poderia explic\u00e1\u2010lo\u00a0optimisticamente. Dizer que t\u00eam que\u00a0ser corrigidas as injusti\u00e7as e que por\u00a0isso devemos lutar e estamos lutando\u00a0na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Que import\u00e2ncia \u00e9 que podem\u00a0<\/b><b>assumir, neste contexto, as expe<\/b><b>ri\u00eancias e projectos inovadores,\u00a0<\/b><b>alternativos, que s\u00e3o implementa<\/b><b>dos em escolas por iniciativa de\u00a0<\/b><b>professores?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mim parece\u2010me maravilhoso. A\u00a0escola tem que atender a realidades\u00a0peculiares e \u00e9 l\u00f3gico que os profissionais a adaptem a essas realidades.\u00a0Mas, claro que o profissional tem que\u00a0explicar o que est\u00e1 a fazer e porqu\u00ea.\u00a0Essas inova\u00e7\u00f5es, h\u00e1 que as justificar e\u00a0explicar bem. Todo o projecto educativo que se implementa tem que estar\u00a0muito bem justificado, muito bem\u00a0argumentado. Porque \u00e9 que vamos\u00a0fazer isto, porque \u00e9 que esta op\u00e7\u00e3o \u00e9\u00a0melhor que a outra. E depois dar\u2010lhe\u00a0seguimento e implicar o maior n\u00famero de pessoas nesse projecto. Mas\u00a0sempre explicando o que se est\u00e1 a\u00a0fazer e porqu\u00ea. O importante \u00e9 que o\u00a0colectivo de professores ou professoras que introduz inova\u00e7\u00f5es, procure e\u00a0tenha explica\u00e7\u00f5es para isso. Contribuindo assim, com o seu conhecimento, para outras experi\u00eancias id\u00eanticas.\u00a0Para a teoria educativa essas coisas\u00a0s\u00e3o importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-3059\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Ana-Sanchez-Marin-Arboleda-1024x750.jpg\" alt=\"Ana Sanchez Marin - Arboleda\" width=\"538\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Ana-Sanchez-Marin-Arboleda-1024x750.jpg 1024w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Ana-Sanchez-Marin-Arboleda-300x219.jpg 300w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Ana-Sanchez-Marin-Arboleda.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 538px) 100vw, 538px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ana S\u00e1nchez Mar\u00edn &#8211; <em>Arboleda<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abA rigidez do modelo educativo \u00e9 uma rigidez militar\u00bb . Entrevista com Jurjo Torres Santom\u00e9 . Jornal da Escola. Abril 2011 www.belourinha.com \u00a0 &nbsp; &nbsp; &nbsp; Entrevista dada no \u00e2mbito da Confer\u00eancia O QUE MUDAR NA ESCOLA\u00a0P\u00daBLICA?, promovida pelo Sindicato de Professores da Grande Lisboa. Jurjo Torres \u00e9 professor catedr\u00e1tico de Did\u00e1ctica e Organiza\u00e7\u00e3o Escolar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[73,100,81,54],"class_list":["post-3043","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacion","tag-curriculum-escolar","tag-politicas-educativas","tag-proyecto-curricular","tag-reformas-educativas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3043","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3043"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3043\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3071,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3043\/revisions\/3071"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3043"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3043"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3043"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}