{"id":2969,"date":"2014-06-27T08:50:44","date_gmt":"2014-06-27T10:50:44","guid":{"rendered":"http:\/\/jurjotorres.com\/?p=2969"},"modified":"2017-04-16T16:51:18","modified_gmt":"2017-04-16T14:51:18","slug":"a-instituicao-escolar-em-tempos-de-intolerancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jurjotorres.com\/?p=2969","title":{"rendered":"A institui\u00e7\u00e3o escolar em tempos de intoler\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">A institui\u00e7\u00e3o escolar em tempos de intoler\u00e2ncia<\/span><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Jurjo Torres Santom\u00e9<\/span><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: right;\">TEIAS, Ano 2, N\u00ba 3 (Janeiro\/Junho, 2001),\u00a0p\u00e1gs. 77 &#8211; 95<\/h3>\n<div class=\"page\" title=\"Page 1\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #993366;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2979\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Teias.jpg\" alt=\"Teias\" width=\"186\" height=\"247\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #993366;\">O atual avan\u00e7o do neoliberalismo est\u00e1 afetando todos os \u00e2mbitos da sociedade, e n\u00e3o somente o mundo da economia. Conseq\u00fcentemente, a escola se tornou um dos principais espa\u00e7os por meio do qual os neoliberais e neoconservadores tratam de construir as novas subjetividades econ\u00f4micas, individualistas e conservadoras que ajudar\u00e3o a transformar cidad\u00e3os em consumidores. Nesta redefini\u00e7\u00e3o da sociedade, a institui\u00e7\u00e3o familiar se converte em principal institui\u00e7\u00e3o social, o que favorece a transforma\u00e7\u00e3o das escolas em clubes. N\u00e3o obstante, pode-se resistir a estas ideologias neoliberais a partir da pr\u00f3pria escola, ao estreitar sua colabora\u00e7\u00e3o com todos os coletivos sociais que tentam frear o avan\u00e7o do \u201cpensamento \u00fanico\u201d<span style=\"color: #000000;\">. (1)<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Palavras-chave: <\/span>neoliberalismo, p\u00e2nico moral, cultura de colabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 1\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A atual redefini\u00e7\u00e3o de assuntos p\u00fablicos, fun\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica e interven\u00e7\u00f5es sociais a partir das necessidades da economia e do mercado tem feito com que as pessoas, em suas an\u00e1lises e interven\u00e7\u00f5es sobre a realidade, levem em considera\u00e7\u00e3o, prioritariamente, aspectos utilitaristas de tudo aquilo que fazem e escolhem. O utilitarismo e a procura de benef\u00edcios econ\u00f4micos s\u00e3o, para grande parte da popula\u00e7\u00e3o do mundo ocidental, o principal par\u00e2metro para medir e julgar a conveni\u00eancia de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00e3o renomada mundializa\u00e7\u00e3o dos mercados pretende impor, como motor da vida, uma racionalidade econ\u00f4mica que consiste em valorizar as coisas somente \u00e0 medida que produzam benef\u00edcios econ\u00f4micos \u2013 nem sociais, nem morais. Isso explica por que a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e, o que \u00e9 mais importante, sua conceptualiza\u00e7\u00e3o enquanto servi\u00e7o p\u00fablico, passem para segundo plano. Inclusive em suas etapas obrigat\u00f3rias, a educa\u00e7\u00e3o d\u00e1 mostras de querer assumir a fun\u00e7\u00e3o de delinear uma capacita\u00e7\u00e3o profissional; trata-se de habilitar somente para encontrar empregos e, se poss\u00edvel, bem remunerados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta mercantiliza\u00e7\u00e3o progressiva da vida cotidiana explica por que se gera na sociedade, com demasiada freq\u00fc\u00eancia, um clima de hostilidade contra o professorado e a escola \u2013 quase sem- pre a p\u00fablica \u2013, quando se lan\u00e7am na esfera produtiva den\u00fancias contra as institui\u00e7\u00f5es escolares por n\u00e3o ensinarem as coisas que os propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o consideram priorit\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos momentos em que surgem crises econ\u00f4micas e de emprego, \u00e9 vis\u00edvel em qualquer comunidade um certo p\u00e2nico e, imediatamente, aparecem os discursos que procuram justific\u00e1-lo a partir de uma palavra m\u00e1gica: educa\u00e7\u00e3o. Isso explica por que todas as organiza\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas supranacionais, como o Banco Mundial, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, a OCDE etc., dedicam numerosas p\u00e1ginas em seus informes a ressaltar a imperiosa necessidade de se reformarem os sistemas educativos, para adequ\u00e1-los \u00e0s novas necessidades da economia de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 2\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tais circunst\u00e2ncias, os grupos econ\u00f4micos com maior poder e acesso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o se p\u00f5em a propagar que a pol\u00edtica e, principalmente, os servi\u00e7os p\u00fablicos, s\u00e3o sempre ineficazes em termos de produ\u00e7\u00e3o. Sua aposta em uma maior mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida produtiva \u00e9 aparelhada por um discurso que enaltece a privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos. O liberalismo econ\u00f4mico \u00e9 apresentado como resultado da luta pelas liberdades pol\u00edticas, manifestando, expl\u00edcita ou implicitamente, que as alternativas restantes \u2013 embandeiradas por outros, aludindo aos dem\u00f4nios constru\u00eddos no passado, possivelmente identificados com o comunismo \u2013 n\u00e3o funcionam e, o que \u00e9 pior, s\u00e3o equipar\u00e1veis \u00e0s mais cru\u00e9is ditaduras. Um not\u00e1vel dom\u00ednio da manipula\u00e7\u00e3o dos discursos os leva a associar mecanismos de interven\u00e7\u00e3o do Estado a \u201ctotalitarismo\u201d, a equiparar sovietismo a socialismo e, qui\u00e7\u00e1 a confus\u00e3o mais bem-sucedida, a vincular efic\u00e1cia e modernidade \u00e0 empresa privada, contrapondo-a \u00e0 imagem de servi\u00e7os p\u00fablicos arcaicos e ineficazes (Bourdieu, 1999, p. 162). O \u00eaxito de suas argumenta\u00e7\u00f5es \u00e9 vis\u00edvel quando amplos setores sociais aceitam ou n\u00e3o se op\u00f5em \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es que os governos neoliberais est\u00e3o levando a cabo nos servi\u00e7os p\u00fablicos mais necess\u00e1rios em uma sociedade que aposta na igualdade de oportunidades: em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, correios e telecomunica\u00e7\u00f5es, transporte a\u00e9reo e ferrovi\u00e1rio etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com este plano ao fundo, os organismos p\u00fablicos se arriscam a se converter em organismos empresariais, regidos exclusivamente por leis de invers\u00f5es\/benef\u00edcios; seus usu\u00e1rios, em consumidores, que escolhem e tomam decis\u00f5es de modo unicamente individualista e privado, sem levarem em conta interesses mais coletivos. Em conseq\u00fc\u00eancia, tamb\u00e9m mudar\u00e3o os crit\u00e9rios empregados para se avaliar o funcionamento desses organismos p\u00fablicos; demandar-se-\u00e3o sinais tang\u00edveis, indicadores, que permitam constatar matematicamente a qualidade de seus servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerado a partir de pressupostos neoliberais, o Estado de bem-estar \u00e9 visto como algo fora de moda, pois se pretende que tudo na sociedade acabe reduzido a servi\u00e7os e produtos que os cidad\u00e3os \u2013 em fun\u00e7\u00e3o de seus recursos econ\u00f4micos \u2013 tenham possibilidade de adquirir ou consumir. O Estado teria como tarefa principal proporcionar condi\u00e7\u00f5es para estimular o consumo. Quaisquer outras fun\u00e7\u00f5es acabar\u00e3o sendo apontadas, por aqueles que controlam o mercado, como interventivas \u2013 res\u00edduos de utopias fracassadas, modos ultrapassados de governar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3012\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/El-Roto-899x1024.jpg\" alt=\"El Roto\" width=\"304\" height=\"346\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/El-Roto-899x1024.jpg 899w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/El-Roto-263x300.jpg 263w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/El-Roto.jpg 913w\" sizes=\"auto, (max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Estado social, mais preocupado com os grupos sociais menos privilegiados ou com a garantia de qualidade de vida satisfat\u00f3ria para todos os cidad\u00e3os, \u00e9 demonizado. Os propagandistas do neoliberalismo acabar\u00e3o por apresent\u00e1-lo como a principal amea\u00e7a \u00e0s liberdades individuais, ao mesmo tempo que procurar\u00e3o ocultar o fato de os atuais governos conservadores dos principais pa\u00edses do denominado \u201cmundo desenvolvido\u201d estarem subjugados a interesses particulares, favorecendo descaradamente determinadas empresas privadas, com as quais se unem em torno de interesses ideol\u00f3gicos ou econ\u00f4micos. N\u00e3o esque\u00e7amos a origem de muitas doa\u00e7\u00f5es aos partidos conservadores, tampouco a facilidade com que estes t\u00eam acesso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa que tais corpora\u00e7\u00f5es privadas controlam etc. Recordemos tamb\u00e9m as cr\u00edticas que governos conservadores, como o espanhol, receberam, ao final dos anos 90, por beneficiarem grupos capitalistas ideologicamente afins, no processo de privatiza\u00e7\u00e3o das empresas p\u00fablicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sistema educativo, bem o sabem aqueles que apostam no neoliberalismo, pode desempenhar um papel importante na atual reestrutura\u00e7\u00e3o do capitalismo, mas n\u00e3o \u00e9 nisso que seus olhares se centram com maior freq\u00fc\u00eancia. As institui\u00e7\u00f5es escolares s\u00e3o um dos espa\u00e7os privilegiados para a constru\u00e7\u00e3o de novas subjetividades economistas, (2) para a forma\u00e7\u00e3o de seres humanos com destreza mec\u00e2nica e t\u00e9cnica, por\u00e9m, ao mesmo tempo, com uma not\u00e1vel incapacidade de ir al\u00e9m na imagina\u00e7\u00e3o e experimentar novas formas de vida, modelos sociais e produtivos alternativos aos existentes. \u00c9 \u00f3bvio que, do ponto de vista dos sentinelas das empresas multinacionais, a perspectiva social cr\u00edtica e criativa n\u00e3o \u00e9 desejada, pois sua principal preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de contratar pessoas que saibam trabalhar sob contratos pouco dispendiosos e, acima de tudo, que n\u00e3o se ponham a fazer grandes questionamentos acerca dos modelos produtivos vigentes.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O que mais freq\u00fcentemente deve interessar aos grandes empres\u00e1rios \u00e9 que os governos, a partir de outros minist\u00e9rios que n\u00e3o o da educa\u00e7\u00e3o, possam gerar mecanismos que facilitem o processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital. Aqueles que os governos j\u00e1 conseguiram criar para facilitar a mobilidade e circula\u00e7\u00e3o dos capitais entre os diversos mercados colaboraram para o barateamento da m\u00e3o-de-obra, tanto qualificada como a que requer apenas prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. A constante amea\u00e7a de paralisa\u00e7\u00e3o ou fal\u00eancia das empresas \u2013 que caracteriza as sociedades contempor\u00e2neas \u2013 funciona como reguladora das demandas salariais, criando um mercado de postos de trabalho cujas caracter\u00edsticas mais comuns s\u00e3o a precariedade e a inseguran\u00e7a. As novas tecnologias substituem um bom n\u00famero de trabalhadores, ao passo que, aos que permanecem empregados, imp\u00f5e-se o aprendizado de t\u00e9cnicas pelas quais n\u00e3o se costuma remunerar de modo justo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante de tal panorama, a sociedade corre o risco de ver as institui\u00e7\u00f5es docentes como necess\u00e1rias e valiosas unicamente \u00e0 medida que ofere\u00e7am uma forma\u00e7\u00e3o com boa probabilidade de ser demandada por este novo mercado e que possibilitem a obten\u00e7\u00e3o de um posto de trabalho no setor privado. Dessa maneira, algumas institui\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter p\u00fablico e, portanto, com interesses p\u00fablicos \u2013 como s\u00e3o os centros de ensino \u2013 acabam sugadas por servi\u00e7os privados e convertidas em ap\u00eandices de empresas, para as quais preparam m\u00e3o-de-obra de forma gratuita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conceituar a educa\u00e7\u00e3o como bem de consumo ajuda a promover uma mentalidade consumista em seus usu\u00e1rios, professorado e alunado; estimula-os a abra\u00e7arem o trabalho escolar e as ofertas de forma\u00e7\u00e3o pensando como consumidores, ou seja, em seu valor de interc\u00e2mbio com o mercado ou nos benef\u00edcios que podem auferir ao cursarem uma disciplina, especialidade ou titula\u00e7\u00e3o. A institui\u00e7\u00e3o escolar aparece como imprescind\u00edvel somente enquanto proporcionadora de recursos para se obterem, no dia de amanh\u00e3, benef\u00edcios estritamente privados, visando ao enriquecimento a t\u00edtulo individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, ao mesmo tempo que se produz esta aposta na mercantiliza\u00e7\u00e3o do sistema educativo, surgem diagn\u00f3sticos acerca da degrada\u00e7\u00e3o das sociedades atuais, da decad\u00eancia moral, viol\u00eancia e ego\u00edsmo das pessoas que habitam os pa\u00edses desenvolvidos. Vivemos uma \u00e9poca que algumas pessoas, bem como grupos sociais, definem como de p\u00e2nico moral (Thompson, 1998); para alguns grupos, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel por tudo e, ao mesmo tempo, quase todo mundo a considera t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o capaz de nos conduzir a um futuro social diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma popula\u00e7\u00e3o atemorizada, que vive em situa\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico moral, surge da constata\u00e7\u00e3o de que aquilo que at\u00e9 determinado momento eram ideais compartilhados, estilos de vida que serviam de modelo e par\u00e2metro de avalia\u00e7\u00e3o da conviv\u00eancia e do modo de viver de uma comunidade, est\u00e1 sendo destru\u00eddo. Inseguran\u00e7a e medo do desconhecido se convertem em p\u00e2nico \u00e0 medida que alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o amplificam os delitos cometidos pelas pessoas, especialmente as de determinados grupos sociais \u2013 que s\u00e3o imediatamente rotuladas como perigosas. Assim, algumas etnias minorit\u00e1rias \u2013 como a cigana, os imigrantes marroquinos ou nigerianos, ou grupos juvenis espec\u00edficos, como os <span style=\"font-style: italic;\">punks<\/span>, cabe\u00e7as raspadas, roqueiros, <span style=\"font-style: italic;\">hooligans <\/span>etc. \u2013 acabam convertendo-se nos principais inimigos da sociedade e acusadas de toda a viol\u00eancia que existe em nosso entorno, devido \u00e0 forma como os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa relatam suas a\u00e7\u00f5es, destacando-as, normalmente, com exagero. Dessa maneira, gera-se na sociedade uma forte hostilidade contra estes grupos sociais marginalizados, vistos como amea\u00e7a \u00e0 paz social, capazes de destruir o mundo dos valores hegem\u00f4nicos e de levar os cidad\u00e3os a submergirem em um ambiente de caos e destrui\u00e7\u00e3o. Diante de a\u00e7\u00f5es qualificadas como n\u00e3o aceit\u00e1veis do ponto de vista da ortodoxia constru\u00edda pelos grupos sociais mais hegem\u00f4nicos, responde-se com mais viol\u00eancia, por\u00e9m, desta vez, mediada por institui\u00e7\u00f5es (pol\u00edcia, institui\u00e7\u00f5es judiciais ou reformat\u00f3rios); contra tal viol\u00eancia institucional, por seu turno, os grupos marginais vir\u00e3o a contestar com novos delitos, uma vez que n\u00e3o t\u00eam muito a perder \u2013 pois v\u00eaem a si mesmos como quem j\u00e1 perdeu tudo.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 4\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Com demasiada freq\u00fc\u00eancia, tamb\u00e9m costuma ser desmesurada a resposta da sociedade aos comportamentos delituosos praticados como rea\u00e7\u00e3o dos grupos marginalizados. Recordemos, por exemplo, as situa\u00e7\u00f5es em que um determinado segmento da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sente protegido pela pol\u00edcia e monta subgrupos de auto-defesa, que optam por desprezar a legalidade vigente e apostar em cruzadas baseadas no \u201colho por olho\u201d, tamb\u00e9m desmedidas, como no caso dos crimes raciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, os grupos sociais que promovem a imprensa marrom convertem-se em nova variedade de agentes sociais: a dos empres\u00e1rios da moralidade, especializados na separa\u00e7\u00e3o entre condu- tas sociais aceit\u00e1veis e inaceit\u00e1veis. Por meio de ve\u00edculos como peri\u00f3dicos, revistas, canais de televis\u00e3o e r\u00e1dios, n\u00e3o hesitam em dramatizar o que, a partir de sua perspectiva, s\u00e3o condutas desviantes. Somente eles teriam condi\u00e7\u00f5es de definir aquilo que \u00e9 socialmente v\u00e1lido e relevante, assim como o inverso. Todavia, nunca se predisp\u00f5em a trazer \u00e0 luz as ra\u00edzes estruturais destas condutas que etiquetam como anti-sociais, quais seus motivos e, por conseguinte, de que forma evit\u00e1-las. Ocultam que, por tr\u00e1s das raz\u00f5es de ser da maioria dessa juventude etiquetada como desencantada, ou dessas etnias que vivem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, est\u00e1 a reestrutura\u00e7\u00e3o de uma economia que gera in\u00fameros benef\u00edcios a um grupo social muito pequeno, ao mesmo tempo que deixa na recess\u00e3o e no desemprego um enorme contingente de rapazes e mo\u00e7as; uma economia que expolia os recursos naturais de pa\u00edses do Terceiro Mundo, for\u00e7ando cidad\u00e3os \u00e0 emigra\u00e7\u00e3o. Por tr\u00e1s disso, est\u00e1 uma sociedade dita informada, que perseguiu e segue perseguindo, inadvertidamente e sem consci\u00eancia, os filhos de grupos sociais desfavorecidos, assim como uma boa parcela da classe m\u00e9dia; est\u00e1 tamb\u00e9m um ambiente social cada vez mais desmobilizado, no qual um crescente n\u00famero de pessoas cr\u00eaem dever resignar-se ante as fatalidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A este cen\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar o choque cultural, que deriva das lutas sociais dos grupos aos quais se vinham negando possibilidades de ser e participar em assuntos p\u00fablicos e, portanto, na reparti\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o eq\u00fcitativa da riqueza. A luta de mulheres, grupos \u00e9tnicos sem poder, na\u00e7\u00f5es sem Estado, gays e l\u00e9sbicas etc. puseram em relevo o grande equ\u00edvoco na defini\u00e7\u00e3o daquilo que se vinha considerando como o conhecimento v\u00e1lido e necess\u00e1rio, a forte desigualdade de oportunidades e, portanto, as situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a a que estavam submetidas as pessoas que compunham estes grupos. Sua luta originou not\u00e1veis desestabiliza\u00e7\u00f5es no que se vinha rotulando de conhecimento, valores e condutas \u201caceit\u00e1veis\u201d, criando situa\u00e7\u00f5es de medo \u2013 quando n\u00e3o certa histeria coletiva \u2013 perante um presente e um futuro que se apresentam com excesso de novidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3019\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Oswaldo-Guayasam\u00edn.jpg\" alt=\"Oswaldo Guayasam\u00edn\" width=\"334\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Oswaldo-Guayasam\u00edn.jpg 580w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Oswaldo-Guayasam\u00edn-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/>Todos os coletivos sociais que lutam pelo reconhecimento de direitos que os grupos hegem\u00f4nicos lhes negam esbarram sempre em discursos e leis muito bem elaboradas; id\u00e9ias transmitidas por meios de comunica\u00e7\u00e3o poderosos, que funcionam como instrumentos de convencimento e acomoda\u00e7\u00e3o das pessoas submetidas a situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a social, pol\u00edtica, cultural e trabalhista. As institui\u00e7\u00f5es do poder dominante assumem, portanto, uma linha de ataque que pretende t\u00e3o-somente defender a ordem legal vigente. Deixa-se impl\u00edcito \u2013 ou com exemplos expl\u00edcitos e exagerados \u2013 que alterar o atual estado de rela\u00e7\u00f5es sociais resultaria em danos maiores.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 5\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante, \u00e9 preciso evitar cair em teorias ou posturas conspirat\u00f3rias, que nos levem a ver uma \u201cm\u00e3o negra\u201d por tr\u00e1s de qualquer fen\u00f4meno ou situa\u00e7\u00e3o por meio da qual os grupos no poder obtenham benef\u00edcios ou se coloquem em posi\u00e7\u00f5es vantajosas; m\u00e3o esta que, de maneira oculta, prejudicasse continuamente aqueles que n\u00e3o estivessem em sua mesma \u00f3rbita ideol\u00f3gica, econ\u00f4mica e de poder. Na realidade, \u00e9 preciso reconhecer que os grupos hegem\u00f4nicos se beneficiam de sua situa\u00e7\u00e3o estrutural, das institui\u00e7\u00f5es e legisla\u00e7\u00f5es j\u00e1 criadas, que refor\u00e7am e tendem a reproduzir o atual estado de coisas. Todavia, ao mesmo tempo que se beneficiam no poder, encarregam-se, com sua resist\u00eancia, de for\u00e7ar as mudan\u00e7as nessas institui\u00e7\u00f5es e legisla\u00e7\u00f5es. Tais transforma\u00e7\u00f5es seriam uma maneira de responder \u00e0s amea\u00e7as que essas resist\u00eancias trazem aos que, em dado momento, usufruem da imensa maioria dos benef\u00edcios e vantagens e, por outro lado, uma nova estrat\u00e9gia para refor\u00e7ar seu poder e ampliar os recursos de que j\u00e1 disp\u00f5em.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, a partir dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, gera-se o p\u00e2nico diante das condutas e valores que caracterizam determinados grupos sociais marginalizados, a rigor n\u00e3o podemos dizer que os propriet\u00e1rios desses meios n\u00e3o tenham como metas expl\u00edcitas assustar a popula\u00e7\u00e3o. Na realidade, este medo resulta da constata\u00e7\u00e3o de que aquilo que para a maioria instalada \u00e9 certo e vale a pena, agora aparece posto em quest\u00e3o ou est\u00e1 desaparecendo. Esse p\u00e2nico moral seria o resultado de modos de pensar e de viver distintos, que at\u00e9 o momento n\u00e3o se percebiam como alternativos, sequer pens\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta percep\u00e7\u00e3o amea\u00e7adora \u00e9 o que tamb\u00e9m explica a defini\u00e7\u00e3o que Ulrich Beck apresenta do mundo contempor\u00e2neo como \u201csociedade do risco\u201d. A sensa\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a que sofre a cidadania atual se apresenta \u201cem conex\u00e3o com determinadas etapas no desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, da integra\u00e7\u00e3o de mercados e das rela\u00e7\u00f5es de propriedade e poder\u201d (Beck, 1998, p. 57).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio, o p\u00e2nico moral e a sensa\u00e7\u00e3o de risco funcionam como est\u00edmulos para a busca de rem\u00e9dios e de culpados pela situa\u00e7\u00e3o. E quando, a partir dos meios de comunica\u00e7\u00e3o sensacionalistas, indagam-se as causas que motivam o surgimento de grupos juvenis anti-sistema, \u00e9 freq\u00fcente encontrarmos explica\u00e7\u00f5es que dirigem, com excessiva rapidez, seu olhar para as institui\u00e7\u00f5es escolares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma informa\u00e7\u00e3o assim, descontextualizada, contribui para o surgimento de rea\u00e7\u00f5es muito fortes por parte da sociedade, pois se culpar\u00e1 de maneira excessiva uma institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem a responsabilidade exclusiva quanto \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o de meninos. Disso resulta hostilidade contra a comunidade escolar e, em resposta, o professorado tamb\u00e9m reage, tratando de passar para as fam\u00edlias a responsabilidade por tudo. Na maioria das vezes, nem mesmo o professorado percebe o verdadeiro papel que o Estado e as pol\u00edticas conservadoras desempenham em tudo o que se relaciona \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando de sua cria\u00e7\u00e3o, as institui\u00e7\u00f5es escolares que conhecemos n\u00e3o tinham, entre seus objetivos, atender \u00e0s necessidades de todos os grupos sociais pelos quais t\u00eam de responder agora. Isso explica boa parte do fracasso escolar que ocorre em centros de ensino. Recordemos que at\u00e9 muito recentemente o sistema educacional destinava-se exclusivamente aos filhos de grupos sociais mais favorecidos. Somente no s\u00e9culo XX, passa-se da concep\u00e7\u00e3o de escola para as elites \u2013 que ajudava a hierarquizar a comunidade \u2013 para a de escola para toda a popula\u00e7\u00e3o; por\u00e9m, esta mudan\u00e7a se d\u00e1 sem as transforma\u00e7\u00f5es no modo de funcionar necess\u00e1rias a adequar estas institui\u00e7\u00f5es aos novos objetivos da escola de massas.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 6\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pode considerar a educa\u00e7\u00e3o culpada por algo que ela n\u00e3o originou, que \u00e9 fruto da atual reorganiza\u00e7\u00e3o de mercados, produ\u00e7\u00e3o capitalista e reapari\u00e7\u00e3o de ideologias e discursos legitimadores e promotores de concep\u00e7\u00f5es de sociedade coerentes com essa vis\u00e3o monetarista (3) e consumista da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este novo planejamento do trabalho e dos mercados explica a obsess\u00e3o por se converter o sistema educativo em algo diretamente dependente do sistema produtivo. Os crit\u00e9rios para avalia\u00e7\u00e3o de tudo o que acontece em centros de ensino seriam estabelecidos pelas sa\u00eddas profissionais que facilitam ao alunado desenvolver as destrezas e conte\u00fados culturais com possibilidades de interc\u00e2mbio no mercado de trabalho. Reaparece, assim, com muita for\u00e7a, a perspectiva profissionalizante como raz\u00e3o de ser dos sistemas educativos; outras perspectivas mais \u00e9ticas e culturais, de prepara\u00e7\u00e3o para o exerc\u00edcio como cidad\u00e3os, pessoas democr\u00e1ticas, solid\u00e1rias e respons\u00e1veis, passam a ser consideradas secund\u00e1rias, quando n\u00e3o se convertem em aspectos inoportunos para algumas fam\u00edlias e docentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, uma orienta\u00e7\u00e3o profissionalizante dos curr\u00edculos n\u00e3o condiz muito bem com uma das peculiaridades mais idiossincr\u00e1sicas das sociedades do presente: a incerteza do futuro. Se algo aprendemos nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 que as necessidades do presente n\u00e3o v\u00e3o ser as do futuro. O forte e r\u00e1pido crescimento do conhecimento e do desenvolvimento de tecnologias nos obriga a olhar com prud\u00eancia as reais possibilidades de imaginar os postos de trabalho do futuro. Por conseguinte, como assinala Halliday (1995, p. 56), \u201cparece pouco pr\u00e1tico orientar todo nosso esfor\u00e7o educacional \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o para atividades profissionais cuja exist\u00eancia \u00e9 mat\u00e9ria de especula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mercado funciona sob perspectivas a curto prazo, enquanto a educa\u00e7\u00e3o, no marco do sistema educativo, \u00e9 mais uma aposta por um modelo de futuro. Tem, entre suas motiva\u00e7\u00f5es fundamentais, preparar cidad\u00e3os para atuarem com autonomia, dotar-lhes daquelas teorias, conhecimentos, procedimentos e valores necess\u00e1rios para se integrarem como membros ativos da sociedade no dia de amanh\u00e3. Esta concep\u00e7\u00e3o obriga a que se ofere\u00e7a uma educa\u00e7\u00e3o que contribua para abrir os horizontes das pessoas, permita o maior n\u00famero poss\u00edvel de oportunidades, de possibilidades de escolha e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades imprevis\u00edveis do futuro. Uma filosofia semelhante \u00e9 a que encara a forma\u00e7\u00e3o polivalente como meta realmente desej\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que o mercado est\u00e1 nas m\u00e3os de grupos de poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico que se movem em um contexto institucional, legislativo e cultural que controlam e orientam. Somente a partir de estruturas mais democr\u00e1ticas e participativas \u2013 como podem e devem ser as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u2013, \u00e9 poss\u00edvel interromper os efeitos perversos de um mercado no qual as possibilidades de intervir em sua orienta\u00e7\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o desigualmente divididas entre a popula\u00e7\u00e3o. Educar significa dotar os cidad\u00e3os de conhecimentos e destrezas para analisar o funcionamento da sociedade e poder intervir em sua orienta\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o; algo que inclui gerar capacidades e possibilidades de se obter informa\u00e7\u00e3o para criticar esses modelos produtivos e essas institui\u00e7\u00f5es do Estado, quando n\u00e3o funcionam democraticamente e favorecem grupos sociais mais privilegiados.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 7\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(69.804000%, 41.176000%, 2.352900%);\">FAVORECIMENTO DO CREDENCIALISMO E DA EXCEL\u00caNCIA COMPETITIVA <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os modelos de economia neoliberal incentivam os cidad\u00e3os a se perceberem como consumidores, em um mundo onde a economia carece de regras outras que n\u00e3o aquelas em favor da obten\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios pelo empresariado. O darwinismo economicista imperante reconhece apenas os conte\u00fados culturais e t\u00edtulos acad\u00eamicos mais facilmente demandados pelo mercado. Utiliza-se o sistema educacional como uma institui\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria, em que se realizam investimentos em estudos e t\u00edtulos com os quais se torne mais prov\u00e1vel encontrar um posto de trabalho e obter benef\u00edcios econ\u00f4micos e sociais. Logicamente, para isso, procurar-se-\u00e1 evitar o acesso dos alunos \u00e0s informa\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias de an\u00e1lise e cr\u00edtica que possam criar contradi\u00e7\u00f5es ao sistema capitalista vigente e faz\u00ea-los ver a necessidade de propor modelos alternativos de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade e do mundo do trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta filosofia imp\u00f5e, tamb\u00e9m, o modismo da super-especializa\u00e7\u00e3o e do \u201cvocacionismo\u201d. As pessoas aprendem a perceber que nascem com uma determinada voca\u00e7\u00e3o, com inclina\u00e7\u00f5es naturais para um tipo de trabalho. V\u00eaem-se a si mesmas com aptid\u00f5es \u201cinatas\u201d para ocupar um posto de trabalho que, no mercado e na sociedade, goza de fama e prest\u00edgio, ou, pelo menos, relativamente aceit\u00e1vel. As pessoas t\u00eam muita dificuldade de se dar conta de como o mercado, por meio dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o de massa, por exemplo, nos afei\u00e7oa ou n\u00e3o a algo. Em boa medida, isso explica que para os postos de trabalho menos qualificados e\/ou menos valorizados socialmente n\u00e3o apare\u00e7am pessoas \u201ccom voca\u00e7\u00e3o\u201d; mais ainda, por que as ideologias que apostam na solidariedade e justi\u00e7a social s\u00e3o vistas como fora de moda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta perda da percep\u00e7\u00e3o do valor social do trabalho e do conhecimento se agrava \u00e0 medida que, nas universidades, aposta-se em uma especializa\u00e7\u00e3o muito grande, na esfera da qual a interdisciplinariedade perde terreno. Trabalhar com conte\u00fados culturais fragmentados contribui para que n\u00e3o se chegue a entender muitas das fun\u00e7\u00f5es ocultas desse conhecimento especializado; dessa maneira, dissimulam-se facilmente os interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos de muitas linhas de pesquisa e aplica\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u201cvocacionismo constru\u00eddo\u201d que orienta as escolhas escolares \u2013 realizadas em momentos-chave onde se tem de optar por \u00e1reas acad\u00eamicas que condicionar\u00e3o especialidades profissionais futuras e restringir\u00e3o de modo significativo aspira\u00e7\u00f5es sociais e culturais \u2013 est\u00e1 influindo de modo decisivo na cria\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias de pertencimento, devido \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o em determinada classe ou grupo social. \u00c9 esta origem de classe social \u2013 que implica possuir e participar de um capital cultural e econ\u00f4mico espec\u00edfico (Bourdieu, 1989) \u2013 que nos leva tamb\u00e9m a dizer que esse credencialismo se constr\u00f3i por meio de um jogo de \u201ccartas marcadas\u201d. Geralmente, o desvelo e a aten\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias pela forma\u00e7\u00e3o escolar \u00e9 proporcional aos n\u00edveis de forma\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ados pelos adultos destas fam\u00edlias e por sua posi\u00e7\u00e3o social e cultural. Ainda que n\u00e3o de forma exatamente determinista, cada fam\u00edlia atuar\u00e1 e se auto-limitar\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o de sua inser\u00e7\u00e3o em uma classe ou grupo social concreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste ambiente familiar, e a partir de seu c\u00edrculo de amizades e influ\u00eancias, que as crian\u00e7as se informam e aprendem o valor real de determinadas prefer\u00eancias acad\u00eamicas, as possibilidades de optar por uma determinada \u00e1rea, especialidade, titula\u00e7\u00e3o e institui\u00e7\u00e3o escolar mais produtiva e com verdadeiro valor de troca nesta sociedade de mercado. A esta constata\u00e7\u00e3o chegam muito antes de se verem for\u00e7adas a uma inadi\u00e1vel tomada de decis\u00f5es. Por isso, \u00e9 dentro de fam\u00edlias de classe m\u00e9dia e alta que notamos um acompanhamento mais minucioso dos resultados escolares dos filhos, de maneira especial nas mat\u00e9rias mais cotadas no mercado de trabalho atual e\/ou futuro. Diante dos primeiros sintomas de que o filho vai mal em alguma dessas mat\u00e9rias \u201cimportantes\u201d, a fam\u00edlia empreende medidas para sua corre\u00e7\u00e3o. Por sua vez, fam\u00edlias com menos informa\u00e7\u00e3o tendem mais facilmente a despreocupar-se, uma vez que aceitam estas dificuldades como \u201cnaturais\u201d \u2013 como fruto de capacidades \u201cinatas\u201d \u2013, ou as consideram como de pouca import\u00e2ncia nesses primeiros passos da forma\u00e7\u00e3o; n\u00e3o se d\u00e3o conta de que, mais tarde, esse atraso escolar pode agravar-se e que, no momento fat\u00eddico em que tais estudantes se vejam for\u00e7ados a realizar escolhas de especialidades, j\u00e1 n\u00e3o possam fazer nada para superar os d\u00e9ficits acumulados.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 8\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Recorrendo a um paralelo com a economia, Pierre Bourdieu (1997, p. 117) nos diz que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>os movimentos da bolsa de valores escolares s\u00e3o dif\u00edceis de antecipar e aqueles que se podem beneficiar, por meio de sua fam\u00edlia, pais, irm\u00e3os ou irm\u00e3s etc., ou de suas rela\u00e7\u00f5es, de uma informa\u00e7\u00e3o sobre os circuitos de forma\u00e7\u00e3o e seu rendimento diferencial, atual e potencial, podem situar melhor suas varia\u00e7\u00f5es escolares e lograr o melhor benef\u00edcio de seu capital cultural.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este papel da fam\u00edlia no processo de escolariza\u00e7\u00e3o aparece com muita freq\u00fc\u00eancia nas pesquisas sobre o fracasso e o sucesso escolar nos sistemas educacionais. Assim tamb\u00e9m Baudelot e Establet (2000), em uma de suas \u00faltimas pesquisas sobre o que aconteceu na Fran\u00e7a no per\u00edodo 1968-1998, ou seja, nos trinta anos seguintes \u00e0 famosa revolu\u00e7\u00e3o de 68, constatam que o \u00eaxito escolar est\u00e1 relacionado com a influ\u00eancia das fam\u00edlias na educa\u00e7\u00e3o. Os alunos que melhor se destacam daqueles que t\u00eam mais problemas s\u00e3o oriundos de lares em que pai ou m\u00e3e se encarregam de ajudar a organizar o tempo livre; asseguram-se de que seus filhos dediquem algumas horas \u00e0s tarefas escolares. \u201cMais de tr\u00eas horas semanais dedicadas aos afazeres escolares e para-escolares separam o aluno que tem \u00eaxito escolar daquele que tem dificuldades\u201d (Baudelot e Establet, 2000, p. 104).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As fam\u00edlias diferem quanto \u00e0 forma de supervis\u00e3o dos deveres escolares; as que t\u00eam maior n\u00edvel cultural e profissional exercem um controle mais cotidiano e met\u00f3dico sobre o rendimento de seus filhos, n\u00e3o hesitando em contratar professores para que ajudem, em casa, a refor\u00e7ar a aprendizagem das mat\u00e9rias nas quais manifestem mais dificuldades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As m\u00e3es \u2013 em maior n\u00famero que os pais \u2013 de estudantes que t\u00eam \u00eaxito nos meios sociais populares mostram-se especialmente mobilizadas, atentas \u00e0s suas motiva\u00e7\u00f5es e aptid\u00f5es escolares, ansiosas por ajudar-lhes a desenvolver projetos realistas e coerentes. Quando existe uma preocupa\u00e7\u00e3o por parte das fam\u00edlias trabalhadoras com menos recursos pelo rendimento acad\u00eamico de seus filhos, tamb\u00e9m aumentam as expectativas acerca do n\u00edvel escolar e da titula\u00e7\u00e3o que devem alcan\u00e7ar. Assim, por exemplo, Gis\u00e8le Mirande, em sua tese de doutorado, na qual analisou o \u00eaxito escolar nas classes populares dos bairros do norte de Marsella, na Fran\u00e7a, demonstrou que \u201cpara esses pais do meio trabalhador, mais de um ter\u00e7o dos quais procedente de imigra\u00e7\u00e3o, o bacharelado (4) \u00e9 considerado como n\u00edvel m\u00ednimo a obter em 75% dos casos\u201d (Cit. em Baudelot e Establet, 2000, p. 105).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, \u00e9 preciso ter em conta que, mesmo reconhecendo que os n\u00edveis educacionais da popula\u00e7\u00e3o estejam subindo (Baudelot e Establet, 1990), isso n\u00e3o se d\u00e1 no sentido de equiparar todos os grupos sociais. As aspira\u00e7\u00f5es de todos sobem e, logicamente, as pessoas de fam\u00edlias melhor estabelecidas \u2013 com maiores n\u00edveis econ\u00f4micos e culturais \u2013 realizam-nas com mais freq\u00fc\u00eancia. No acesso a estudos universit\u00e1rios, mestrados e doutorados, nota-se mais a aus\u00eancia dos filhos de classes populares.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 9\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">No territ\u00f3rio espanhol, segundo o estudo que publicou o Instituo Nacional de Qualidade e Avalia\u00e7\u00e3o (INCE), observa-se tamb\u00e9m uma associa\u00e7\u00e3o entre o n\u00edvel de estudos dos progenitores e o que desejam alcan\u00e7ar seus filhos. Assim, constata-se que \u201ca quase totalidade dos pais com estudos universit\u00e1rios m\u00e9dios ou superiores desejam um n\u00edvel similar de estudos para seus filhos\u201d (INCE, 2000, p. 22). Os percentuais que confirmam esta aspira\u00e7\u00e3o se situam entre 94,8% das fam\u00edlias com filhos cursando educa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria obrigat\u00f3ria e 99,5% das que os t\u00eam cursando educa\u00e7\u00e3o fundamental. Para estas, seria uma grande frustra\u00e7\u00e3o que os filhos s\u00f3 chegassem a cursar o ensino obrigat\u00f3rio. (5)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que decai o n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o escolar das fam\u00edlias, diminui o n\u00edvel de aspira\u00e7\u00f5es para seus filhos. Desse modo, em fam\u00edlias em que os progenitores t\u00eam estudos de bacharelado ou forma\u00e7\u00e3o profissional, ainda que em geral alimentem altas expectativas para seus descendentes, j\u00e1 \u00e9 vis\u00edvel uma certa redu\u00e7\u00e3o de suas esperan\u00e7as. Assim, os percentuais apresentados no estudo mencionado caem, quando comparados aos do grupo anterior, quanto \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es de que seus filhos cheguem \u00e0 universidade: situam-se entre 84% das fam\u00edlias com estudantes cursando a educa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria obrigat\u00f3ria e 94,5% no ensino fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3009 size-full\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Ecoliers.jpg\" alt=\"Ecoliers\" width=\"275\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Ecoliers.jpg 275w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Ecoliers-234x300.jpg 234w\" sizes=\"auto, (max-width: 275px) 100vw, 275px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio, as fam\u00edlias que s\u00f3 possuem estudos prim\u00e1rios t\u00eam expectativas muito mais baixas; e s\u00e3o ainda mais baixas entre aquelas que declaram nenhum tipo de forma\u00e7\u00e3o escolar. Neste \u00faltimo grupo, \u201centre 29% e 46% desejam estudos universit\u00e1rios para seus filhos, entretanto s\u00e3o os que manifestam, em maior escala que nos demais grupos, o desejo de que os filhos realizem estudos de bacharelado ou forma\u00e7\u00e3o profissional \u2013 entre 37% e 49% \u2013 e os que em maior propor\u00e7\u00e3o t\u00eam a expectativa de que seus filhos realizem apenas estudos obrigat\u00f3rios\u201d (INCE, 2000, p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chama a aten\u00e7\u00e3o o fato de as fam\u00edlias, \u00e0 medida que seus filhos t\u00eam mais idade ou est\u00e3o em n\u00edveis educativos mais altos, reduzirem seu n\u00edvel de expectativa acerca das possibilidades de alcan\u00e7arem maiores n\u00edveis escolares. Nos n\u00fameros anteriores, podemos observar que os percentuais mais altos, ou seja, as melhores expectativas, apresentam-se quando os filhos est\u00e3o em n\u00edveis mais baixos do sistema de ensino: a educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. (6)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo este mesmo estudo, o alunado tamb\u00e9m manifesta aspira\u00e7\u00f5es de alcan\u00e7ar um determinado n\u00edvel escolar, nas quais se pode igualmente constatar rela\u00e7\u00e3o com a origem familiar; assim, \u201cdiante de um maior n\u00edvel de estudos dos pais, d\u00e1-se menor percentual de filhos com interesses acad\u00eamicos indefinidos e maiores percentuais com expectativas de estudos de maior n\u00edvel\u201d (INCE, 2000, p. 24). Dos alunos de 16 anos procedentes de fam\u00edlias com estudos universit\u00e1rios, 85,3% t\u00eam como meta carreiras universit\u00e1rias.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 10\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(69.804000%, 41.176000%, 2.352900%);\">RESSIGNIFICA\u00c7\u00c3O POL\u00cdTICA DA FAM\u00cdLIA\u00a0<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 10\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As pol\u00edticas econ\u00f4micas neoliberais est\u00e3o refor\u00e7ando o famoso <span style=\"font-style: italic;\">slogan <\/span>de Margareth Tatcher: \u201cN\u00e3o h\u00e1 tal coisa denominada sociedade, somente indiv\u00edduos e fam\u00edlias\u201d (\u201cThere is no such a thing as society, only individuals and families\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, o fato de a fam\u00edlia ser uma institui\u00e7\u00e3o importante na vida das crian\u00e7as n\u00e3o implica consider\u00e1-la o espa\u00e7o priorit\u00e1rio a partir do qual se deva intervir na vida p\u00fablica, enquanto cidad\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, a fam\u00edlia vem sofrendo uma ressignifica\u00e7\u00e3o como esfera priorit\u00e1ria na tomada de decis\u00f5es p\u00fablicas. A nova direita contrap\u00f4s esta institui\u00e7\u00e3o a outras inst\u00e2ncias sociais: associa\u00e7\u00f5es de bairros, sindicatos, partidos pol\u00edticos e organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais. \u00c0 luz de ideologias coletivistas, as crian\u00e7as assemelham-se a \u201cpertences\u201d das fam\u00edlias, tal qual uma bolsa de valores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para assegurarem futuros saud\u00e1veis e vantajosos, as institui\u00e7\u00f5es familiares interv\u00eam e reinterv\u00eam na educa\u00e7\u00e3o de seus filhos. Os pais voltaram a ocupar pap\u00e9is importantes no processo educativo. N\u00e3o esque\u00e7amos que personalidades como Juan Amos Comenio e Jean Jaques Rousseau j\u00e1 assinalavam a import\u00e2ncia da fam\u00edlia. Juan Henrique Pestalozzi, em princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX, escreveu suas principais obras destinadas \u00e0s m\u00e3es, n\u00e3o aos professores; em 1840, o pr\u00f3prio Friedrich Fr\u00f6ebel criou na Alemanha uma associa\u00e7\u00e3o de m\u00e3es para zelar pela educa\u00e7\u00e3o de seus filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda metade do s\u00e9culo XX, tamb\u00e9m a Psicologia esteve interessada na fun\u00e7\u00e3o que a fam\u00edlia podia desempenhar na educa\u00e7\u00e3o; da\u00ed resultam os in\u00fameros programas de estimula\u00e7\u00e3o precoce e tamb\u00e9m de prepara\u00e7\u00e3o para a maternidade e a paternidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, a onda conservadora que procura recuperar e incrementar seu poder volta a insistir na import\u00e2ncia da institui\u00e7\u00e3o familiar e n\u00e3o hesita em promov\u00ea-la como sentinela da ortodoxia de centros escolares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta insist\u00eancia em outorgar mais poder \u00e0 fam\u00edlia pode ser um ant\u00eddoto conservador para as exig\u00eancias de maior democratiza\u00e7\u00e3o social \u2013 a partir da potencializa\u00e7\u00e3o da sociedade civil \u2013, demandadas por posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas progressistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos diante de uma ressignifica\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, algo visto claramente na forma do debate \u201cescola p\u00fablica\/escola privada\u201d que vem ocorrendo nas \u00faltimas d\u00e9cadas e parece competir somente \u00e0s fam\u00edlias e n\u00e3o \u00e0 coletividade. Se admitimos que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um projeto pol\u00edtico em que idealizamos o futuro da sociedade em que vivemos, \u00e9 \u00f3bvio que a participa\u00e7\u00e3o na tomada de decis\u00f5es compete a toda a coletividade. Pessoas solteiras ou da terceira idade e fam\u00edlias sem filhos n\u00e3o pagam impostos destinados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o? N\u00e3o lhes preocupa o futuro de sua comunidade? Logicamente, a sociedade democr\u00e1tica \u00e9 aquela em que todas as pessoas podem intervir em resolu\u00e7\u00f5es que afetam a vida p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 \u00f3bvio que as fam\u00edlias t\u00eam um papel muito importante, mas nelas prima um certo ego\u00edsmo social na tomada de decis\u00f5es. Enquanto membros de organiza\u00e7\u00f5es sociais mais amplas, as mesmas pessoas que integram uma fam\u00edlia provavelmente manifestam comportamentos mais generosos e solid\u00e1rios quando participam de decis\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 sobreviv\u00eancia de sua coletividade.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 11\">\n<div class=\"layoutArea\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"column\">\n<p><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(69.804000%, 41.176000%, 2.352900%);\">ESCOLHA DE INSTITUI\u00c7\u00d5ES ESCOLARES COMO MECANISMO PERVERSO <\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A possibilidade de escolha de centros escolares pelas fam\u00edlias \u00e9 uma das medidas que os governos conservadores e neoliberais v\u00eam promovendo como estrat\u00e9gia para consolidar ainda mais sua concep\u00e7\u00e3o mercantilista, competitiva e meritocr\u00e1tica (7) da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A educa\u00e7\u00e3o, uma vez implantados os mecanismos de mercado \u2013 como a livre elei\u00e7\u00e3o de escolas \u2013 e estabelecidos modelos competitivos \u2013 como t\u00edtulos e credenciais \u2013, \u00e9 apresentada como instrumento objetivo por meio do qual se pode assegurar um posto de trabalho e legitimar privil\u00e9gios de classe. As credenciais servem de \u201cponte\u201d para ingressar no escasso mercado de trabalho e tamb\u00e9m funcionam, ao lado do vocacionalismo, como arma para atacar as propostas de compreensibilidade. (8)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes tempos de forte acusa\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas p\u00fablicas e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o compreensiva, algo que se escuta com demasiada freq\u00fc\u00eancia \u00e9: se certas crian\u00e7as n\u00e3o querem estudar, n\u00e3o temos por que for\u00e7\u00e1-las, ou n\u00e3o devemos retardar o ritmo de aprendizagem dos mais inteligentes etc. No fundo, n\u00e3o se quer reconhecer que se todas as pessoas, indistintamente, adquirem uma mesma titula\u00e7\u00e3o \u2013 por exemplo, o certificado de conclus\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria \u2013, a partir deste momento este t\u00edtulo n\u00e3o pode ser utilizado como m\u00e9rito para se concorrer a um posto de trabalho. Estar\u00edamos diante de uma certifica\u00e7\u00e3o totalmente desvalorizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, \u00e9 a classe m\u00e9dia que enfrenta dilemas neste terreno. A elite j\u00e1 tinha o costume de educar seus descendentes em institui\u00e7\u00f5es privadas. A classe m\u00e9dia constitui o grupo em que os interesses est\u00e3o mais diversificados. Um setor \u00e9 partid\u00e1rio de redes p\u00fablicas, de maneira especial entre aqueles que se encontram comprometidos com ideais de justi\u00e7a social e eq\u00fcidade de luta por mais oportunidades de democratiza\u00e7\u00e3o na sociedade. Outra parte est\u00e1 preocupada em consolidar sua posi\u00e7\u00e3o social e \u00e9, freq\u00fcentemente, o grupo que opta por copiar os exemplos dos grupos sociais e econ\u00f4micos mais poderosos e geralmente aposta no ensino privado. Os dilemas acontecem no grupo que n\u00e3o v\u00ea com maus olhos a rede p\u00fablica, mas que agora se sente amea\u00e7ado pelo crescimento do desemprego e a forte competitividade para encontrar um posto de trabalho. Este \u00e9 o momento em que a rede p\u00fablica mais necessita de aliados, sem os quais, \u00e9 prov\u00e1vel que esses centros escolares acabem destinados a ser somente o lugar de acolhida de setores mais desfavorecidos social e economicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O avan\u00e7o da meritocracia e do credencialismo, associado ao aumento das dificuldades para se encontrar um posto de trabalho e \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o dos contratos, motivam para o crescimento de institui\u00e7\u00f5es escolares privadas. Estas funcionam, inclusive, como garantia para suas parceiras \u2013 as empresas que contratam os alunos formados \u2013 de que seus futuros empregados dominam com homogeneidade as filosofias que defendem. Sup\u00f5e-se que aqueles que estudam em um determinado centro escolar da rede privada aprender\u00e3o a compartilhar valores e ideais desta empresa livremente escolhida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A id\u00e9ia de educa\u00e7\u00e3o como recurso imprescind\u00edvel para construir e consolidar sociedades democr\u00e1ticas e mais igualit\u00e1rias continua sendo preocupa\u00e7\u00e3o para grupos sociais e personalidades defensoras do projeto de escola p\u00fablica. \u00c9 nestes centros escolares que as pessoas \u2013 em que pesem suas diferentes origens de classe, ra\u00e7a, sexo e nacionalidade, al\u00e9m de suas distintas capacidades e n\u00edveis de desenvolvimento \u2013 podem conviver e aprender a se relacionar de modo igualit\u00e1rio e democr\u00e1tico, compartilhando diferentes estilos de vida e culturas, desenvolvendo o respeito m\u00fatuo. Este \u00e9 o \u00fanico modo de evitar pr\u00e1ticas sociais opressivas, desrespeitosas e injustas. Romper com o modelo de escola p\u00fablica leva inexoravelmente a grandes perigos de fratura social, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de sociedades rachadas, polarizadas, onde cada grupo ou coletivo humano v\u00ea os demais como rivais contra os quais competir ou, at\u00e9 mesmo, a serem eliminados.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 12\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma sociedade fraturada, fruto das economias neoliberais, \u00e9 poss\u00edvel que as repetidas quedas nos n\u00edveis de rendimento escolar \u2013 com que se quer promover o livre mercado e a competitividade na forma de escolha de escolas e professores \u2013 apenas aumentem. \u00c9 previs\u00edvel que os gru- pos sociais com menos recursos econ\u00f4micos e capital cultural \u2013 no sentido de Pierre Bourdieu \u2013 tenham de recorrer a escolas carentes de benef\u00edcios e com professorado desmotivado \u2013 devido ao fato de receber um aluno etiquetado negativamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta realizarmos uma an\u00e1lise retrospectiva para observarmos que o mesmo argumento de queda dos n\u00edveis, utilizado atualmente pelos grupos conservadores e neoliberais, nos daria argumentos para acabar com esta filosofia de mercado na educa\u00e7\u00e3o. Basta recordar os problemas e fracassos das escolas para crian\u00e7as segregadas \u2013 as \u201cescolas-ponte\u201d (9) destinadas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o cigana ou os col\u00e9gios de educa\u00e7\u00e3o especial \u2013, para prognosticarmos que cada grupo social pode acabar confinado em um centro escolar espec\u00edfico, adequado ao seu poder econ\u00f4mico e \u00e0s suas expectativas, em fun\u00e7\u00e3o de par\u00e2metros tradicionais de segrega\u00e7\u00e3o: classe social, ra\u00e7a, sexo, nacionalidade, desenvolvimento f\u00edsico e ps\u00edquico etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3005\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ALbert-Anker-Ecolier-1881.jpg\" alt=\"ALbert Anker - Ecolier (1881)\" width=\"306\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ALbert-Anker-Ecolier-1881.jpg 480w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ALbert-Anker-Ecolier-1881-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 306px) 100vw, 306px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pol\u00edticas educacionais neoliberais levam os estudantes procedentes de fam\u00edlias mais desfavorecidas a uma espiral, que tem todas as probabilidades de fechar o \u00e2mbito de suas expectativas e possibilidades reais de desenvolverem capacidades e adquirirem bagagem cultural indispens\u00e1vel ao exerc\u00edcio de seus direitos e deveres c\u00edvicos. A tradicional polariza\u00e7\u00e3o entre col\u00e9gios para ricos e escolas para pobres volta a surgir e \u2013 o que \u00e9 mais grave \u2013 as sociedades acabar\u00e3o mais desvertebradas e com maiores dist\u00e2ncias entre os que t\u00eam e os que n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(69.804000%, 41.176000%, 2.352900%);\">SELE\u00c7\u00c3O DOS ALUNOS NAS ESCOLAS <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto de competitividade em que se transformam os centros de ensino, especialmente os de natureza privada, a sele\u00e7\u00e3o de alunos se converte em estrat\u00e9gia importante para a pr\u00f3pria promo\u00e7\u00e3o e publicidade dos col\u00e9gios. Isso se percebe na linguagem utilizada: j\u00e1 \u00e9 freq\u00fcente escutarmos ou lermos palavras como excel\u00eancia e qualidade. Contudo, estes voc\u00e1bulos s\u00e3o escolhidos e empregados com base em concep\u00e7\u00f5es restritivas e seletivas sobre o que significa educar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Selecionar um alunado que garanta bons resultados ao final do curso \u00e9 imprescind\u00edvel para estas escolas, pois serve como argumento para atrair nova clientela. O setor educacional privado muitas vezes faz uso destes desempenhos em publicidade e compara\u00e7\u00e3o (de forma maquiada) com os de escolas p\u00fablicas. Nestas situa\u00e7\u00f5es, os alunos n\u00e3o passam de \u201cinstrumento\u201d a servi\u00e7o de centros escolares, destinados a lhes dar prest\u00edgio. Uma distor\u00e7\u00e3o da finalidade educativa, pois os col\u00e9gios deveriam preocupar-se em auxiliar os alunos, comprometendo-se com o desenvolvimento de suas capacidades, conhecimentos e valores.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 13\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que novas escolas privadas se estabelecem nos arredores das cidades, at\u00e9 mesmo em zonas residenciais, o acesso \u00e9 garantido \u00e0s crian\u00e7as de grupos sociais mais favorecidos. Por\u00e9m, esta idiossincrasia na instala\u00e7\u00e3o de centros escolares pesa sobre as escolas p\u00fablicas, que podem a- cabar submetidas a algumas regras prejudiciais. \u00c9 muito mais prov\u00e1vel que \u00e0s crian\u00e7as de grupos sociais desfavorecidos ou, inclusive, aos alunos mais conflitivos, n\u00e3o reste outra alternativa sen\u00e3o recorrer \u00e0s escolas p\u00fablicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa maneira, e como resultado do ac\u00famulo de situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 f\u00e1cil vir a se tornar realidade a advert\u00eancia lan\u00e7ada em Whitty, Power e Halpin (1999, p. 144): \u201cEm escolas mal situadas para aproveitar sua posi\u00e7\u00e3o de mercado, a delega\u00e7\u00e3o de responsabilidade pode traduzir-se na delega\u00e7\u00e3o das culpas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pol\u00edtica que conduza as escolas \u00e0 admiss\u00e3o seletiva de estudantes \u2013 levando em conta preferencialmente sua origem social e econ\u00f4mica \u2013 \u00e9 sintoma de uma sociedade onde a desigualdade e a injusti\u00e7a s\u00e3o vistas como algo natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Le Grand e Bartlett (1993) comprovaram que, no Reino Unido, sob os governos de Margareth Tatcher e John Major, o surgimento dos \u201cquase-mercados\u201d deu origem a uma pr\u00e1tica pol\u00edtica de sele\u00e7\u00e3o \u201cda flor e da nata\u201d. Ainda que, oficialmente, em todos os pa\u00edses nos quais as institui\u00e7\u00f5es escolares privadas recebem financiamento p\u00fablico seja proibido utilizar processos seletivos para admiss\u00e3o de estudantes, quase sempre se detectam mecanismos sutis de filtro em col\u00e9gios com maior demanda e prest\u00edgio, o que acaba resultando em n\u00e3o-entrada do aluno conflitivo ou com necessidade de apoio especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os n\u00fameros que as administra\u00e7\u00f5es educacionais tornam p\u00fablicos na Espanha nos permitem ver com clareza esta seletividade. Assim, por exemplo, segundo dados da Conselharia de Educa\u00e7\u00e3o da Gal\u00edcia, no ano letivo de 1999-2000 estavam matriculados 4.500 estudantes com necessidades educativas especiais em escolas regulares financiadas por fundos p\u00fablicos. Por\u00e9m, 3.850 destes alunos eram oriundos de escolas p\u00fablicas, e apenas 650 de escolas privadas. Al\u00e9m disso, devem-se contabilizar outros 1.500 estudantes que freq\u00fcentam escolas de educa\u00e7\u00e3o especial, junto aos quais n\u00e3o se aplicam pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas competem entre si, estabelece-se com facilidade uma din\u00e2mica de propaganda cont\u00ednua; e que melhor propaganda do que declarar \u00eaxito? Para garanti-lo, \u00e9 prov\u00e1vel que se tenda a definir modelos de funcionamento nas institui\u00e7\u00f5es sem promover grandes transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Ou seja, acaba-se buscando clientes com os quais n\u00e3o existem muitas possibilidades de fracasso. Isto explica por que os alunos etiquetados como portadores de \u201cnecessidades especiais\u201d se concentram quase exclusivamente nos centros p\u00fablicos e, dentre estes, os localizados nos bairros mais marginalizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta parcela dos estudantes obviamente requer mais esfor\u00e7os, recursos materiais e humanos. Entretanto, estamos retrocedendo em pol\u00edticas educacionais e sociais de integra\u00e7\u00e3o. Na d\u00e9cada de 80, quando se debatia a Reforma Educacional, logo nos primeiros anos da vigorar\u00e3o da LOGSE, (10) conseguiu-se consenso acerca da necessidade e prioridade de se realizarem pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o nos centros de ensino, especialmente na rede p\u00fablica. Na atualidade, s\u00e3o cada vez mais aud\u00edveis e vis\u00edveis as queixas de muitos professores \u2013 e mesmo das fam\u00edlias \u2013 contra este tipo de filosofia educacional.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 14\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Volta-se a falar \u2013 e, em algumas escolas, at\u00e9 se torna realidade \u2013 do agrupamento de estudantes por n\u00edveis de capacidade ou por n\u00edveis de rendimento. E tamb\u00e9m \u00e9 preocupante a tentativa de se trabalhar com estudantes \u201csuperdotados\u201d. At\u00e9 alguns anos, as aten\u00e7\u00f5es se voltavam para os que precisavam de mais ajuda ou que viviam em situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a social; agora, com o ambiente cheio de palavras de excel\u00eancia e qualidade, come\u00e7am a aflorar livros, pesquisas e especialistas destinados a atender pessoas \u201csuperdotadas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caso n\u00e3o se garanta uma pol\u00edtica educacional de integra\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, \u00e9 prov\u00e1vel que os estudantes com necessidades educativas especiais e os pertencentes a minorias \u00e9tnicas muito pobres acabem se concentrando em n\u00famero muito reduzido de escolas; \u00e9 prov\u00e1vel que o trabalho se torne muito mais \u00e1rduo para os professores e, conseq\u00fcentemente, estes col\u00e9gios passem a ser considerados pouco atrativos para as fam\u00edlias, etiquetados como maus col\u00e9gios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com freq\u00fc\u00eancia, a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o toma medidas para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria das escolas, ou o pouco que estas fazem \u00e9 insuficiente para impedir que sejam fechadas por n\u00e3o serem \u201cprodutivas\u201d. Como assinalam Whitty, Power e Halpin (1999, p. 153), \u201cas escolas n\u00e3o consideradas como boas n\u00e3o est\u00e3o fechando e continuam abertas, com um n\u00famero reduzido de alunos, cada vez menos dinheiro e uma moral bem mais baixa, com o que se fecha um c\u00edrculo vicioso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as pesquisas desenvolvidas em pa\u00edses com legisla\u00e7\u00f5es educacionais que contemplam a possibilidade de as fam\u00edlias escolherem centros escolares \u2013 por exemplo, Estados Unidos, Reino Unido e Nova Zel\u00e2ndia \u2013, \u201cat\u00e9 a presente data, n\u00e3o h\u00e1 provas claras de influ\u00eancia positiva no rendimento dos alunos\u201d, declaram Whitty, Power e Halpin. O que acontece \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o de estudantes em determinadas escolas, consoante fatores como classe social, capital cultural das fam\u00edlias, sexo dos alunos e ra\u00e7a. Algo que refor\u00e7a ainda mais uma sociedade hierarquizada, onde igualdade de oportunidades se converte em ideal cada vez mais long\u00ednquo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3023\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Constant-Mayer.jpg\" alt=\"Constant Mayer\" width=\"345\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Constant-Mayer.jpg 600w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Constant-Mayer-300x230.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 345px) 100vw, 345px\" \/>Outra conseq\u00fc\u00eancia das pol\u00edticas de escolha de escolas \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o dos financiamentos destinados \u00e0 rede p\u00fablica. Algo de que se beneficia o setor das classes mais abastadas, que matriculava seus filhos em col\u00e9gios privados, sem se importar com custos. Agora, por\u00e9m, estas classes se encontram diante da possibilidade de reduzir gastos, devido \u00e0 chance de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez que contam apenas com o financiamento do governo, os centros p\u00fablicos atualmente possuem menos recursos econ\u00f4micos, uma vez que o Estado destina uma parte muito significativa \u00e0 rede privada. Este tipo de pol\u00edtica educacional faz com que os recursos econ\u00f4micos p\u00fablicos potencializem crescimento e legitima\u00e7\u00e3o de um setor que atende os filhos de grupos sociais mais privilegiados, \u00e0 custa dos col\u00e9gios p\u00fablicos, que s\u00e3o for\u00e7ados a competir com ele, contando com todo um contexto social contra si. As expectativas sociais, de modo particular as veiculadas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, jogam contra a escola p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diagn\u00f3stico acerca dos efeitos negativos das atuais pol\u00edticas de escolha de centros educativos tampouco significa que estas medidas tenham de ser negativas a priori. Seus efeitos n\u00e3o favorecem a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa porque sua execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 paralelamente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para as fam\u00edlias mais desfavorecidas obterem benef\u00edcios. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o do professorado da rede p\u00fablica, com as instala\u00e7\u00f5es ou dota\u00e7\u00f5es de centros p\u00fablicos, em especial os localizados em bairros problem\u00e1ticos ou em n\u00facleos rurais mais pobres.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 15\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(69.804000%, 41.176000%, 2.352900%);\">ESCOLAS <\/span><span style=\"font-weight: bold; font-style: italic; color: rgb(69.804000%, 41.176000%, 2.352900%);\">VERSUS <\/span><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(69.804000%, 41.176000%, 2.352900%);\">CLUBES <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo James M. Buchanan, devido \u00e0 distor\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios para escolha de centros educativos, estes acabam se convertendo em clubes. Em meados dos anos sessenta, o economista \u2013 que ganhou o Pr\u00eamio Nobel de Economia de 1986 \u2013 desenvolveu a Teoria dos Clubes, uma hip\u00f3tese acerca das cooperativas integradas por s\u00f3cios com determinados interesses comuns, na qual uma das vari\u00e1veis determinadas \u00e9 a extens\u00e3o dos direitos de propriedade e de consumo das pessoas que integram a sociedade. Trata-se, todavia, de um modelo que somente \u00e9 aplic\u00e1vel ao consumo de bens privados, pois, como assinala seu pr\u00f3prio criador, \u201ccom bens puramente privados, o consumo de uma pessoa automaticamente reduz o potencial de consumo de outros indiv\u00edduos em uma quantidade semelhante. No caso de bens p\u00fablicos, o consumo de qualquer pessoa implica id\u00eanticas possibilidades de consumo por quaisquer das demais\u201d (Buchanan, 1965, p. 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um clube, o n\u00famero de pessoas costuma ser limitado, uma vez que \u201co proveito que uma pessoa obt\u00e9m do que consome depende do n\u00famero de pessoas com as quais deve dividir seus benef\u00edcios\u201d. James M. Buchanan usa o exemplo de uma piscina, utilizada coletivamente pelos membros de um clube, por\u00e9m com um fosso ao redor para excluir os que n\u00e3o sejam s\u00f3cios. Esta piscina poderia ser freq\u00fcentada por todos os membros, sem disputa entre eles, evitando-se o congestionamento que se daria caso fosse utilizada por outras pessoas. Trata-se de um bem do qual desfruta um n\u00famero limitado de pessoas, recorrendo-se a diversos mecanismos e tecnologias que funcionam como uma estrat\u00e9gia de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora bens privados se tornem mais baratos quando um maior n\u00famero de pessoas podem compartilh\u00e1-los, sempre haver\u00e1 um n\u00famero ideal que permita seu desfrute sem preju\u00edzos para os demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Teoria dos Clubes, tal como especifica seu autor, tem como uma de suas preocupa\u00e7\u00f5es fundamentais averiguar o n\u00famero ideal de cada grupo, para que realmente haja possibilidades de desfrute de bens que se consideram privados e limitados, de modo que todo clube tenha clareza de que dever\u00e1 excluir pessoas. Todavia, esta exclus\u00e3o n\u00e3o tem cabimento quando se trata de compartilhar bens p\u00fablicos. Como assinala Buchanan (1965, p. 13) \u201ca Teoria dos Clubes \u00e9, por um lado, uma teoria da exclus\u00e3o ideal e, por outro, da inclus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este projeto aplica os postulados dos economistas neocl\u00e1ssicos, da denominada Escola de Chicago, que foram usados no estudo das condutas pol\u00edticas, particularmente na an\u00e1lise de obriga\u00e7\u00f5es exigidas por eleitores e determinados grupos no modo como operam os governos e as burocracias estatais. Uma vez que os atores revelam hierarquia de valores em suas a\u00e7\u00f5es, a preocupa\u00e7\u00e3o desta teoria \u00e9 revelar como operam os interesses pessoais corporativos em processos pol\u00edticos e atividades desenvolvidas, analisando custos organizacionais e benef\u00edcios que se esperam obter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os grupos pressionam os partidos pol\u00edticos e as diversas administra\u00e7\u00f5es, que, por sua vez, buscam dispor de maior or\u00e7amento e poder, o que lhes imp\u00f5e a atender a estas press\u00f5es. Neste tipo de an\u00e1lise, procura-se compreender como prevalecem os interesses de grupos que condicionam decis\u00f5es de governo que afetam os bens comuns, ou a defesa de um aprimoramento de mecanismos democr\u00e1ticos que assegurariam mais justi\u00e7a social. Se os grupos somente buscam aquilo que mais lhes favorece, sem levar em considera\u00e7\u00e3o os demais grupos existentes, isso quer dizer que seus modos de atuar s\u00e3o geradores de exclus\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 16\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A Teoria dos Clubes pode ser interessante na an\u00e1lise da pobreza, exclus\u00e3o social e modo de funcionamento dos sistemas educacionais neoliberais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desta perspectiva, as pessoas com uma certa semelhan\u00e7a em seu capital cultural, interesses e recursos, interagem visando formar grupos e excluir as pessoas percebidas como diferentes. Desse modo, os v\u00e1rios grupos passam a se rivalizar ou a cooperar entre si (de maneira especial nos casos em que, mesmo sendo diferentes em seus objetivos finais, mant\u00eam alguma coincid\u00eancia estrat\u00e9gica ou moment\u00e2nea). Os integrantes de um clube guardam uma interdepend\u00eancia, por\u00e9m resguardam duas op\u00e7\u00f5es: a primeira \u00e9 a possibilidade de abandonarem um determinado clube para se integrarem a outro; a segunda \u00e9 disporem de voz \u2013 todos t\u00eam direito a participar das decis\u00f5es do clube.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas sociedades neoliberais, uma parte significativa da fragmenta\u00e7\u00e3o social e da destrui\u00e7\u00e3o do Estado de bem-estar \u00e9 explic\u00e1vel pelos novos modos de funcionamento ao estilo dos clubes. As pessoas procuram manter os servi\u00e7os de que j\u00e1 disp\u00f5em, aprimorando-os, por\u00e9m considerando exclusivamente seus pr\u00f3prios interesses. Assim, se mudam de um clube para outro com os mesmos custos ou menores, podem obter os mesmos, ou, se poss\u00edvel, melhores servi\u00e7os e\/ou mais benef\u00edcios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os centros de ensino s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es muito diferentes dos clubes. Todavia, podem funcionar ao estilo de clubes, \u00e0 medida que os membros do claustro (11) ou o conselho escolar de um col\u00e9gio tomem medidas exclusivamente em seu pr\u00f3prio benef\u00edcio, sem levar em considera\u00e7\u00e3o os interesses de outros coletivos sociais que poderiam ter desejos de ingressar no col\u00e9gio, especialmente aqueles que pertencem aos grupos mais desfavorecidos e com menos possibilidades de tornarem p\u00fablica sua voz. Este \u00e9 o caso, por exemplo, dos col\u00e9gios que, devido ao prest\u00edgio que desejam alcan\u00e7ar, selecionam o alunado com mais chances de deix\u00e1-los em boa posi\u00e7\u00e3o, ao passo que erguem in\u00fameros obst\u00e1culos para impedir a admiss\u00e3o de jovens com defici\u00eancias, ou pertencentes a minorias \u00e9tnicas sem poder, ou coletivos sociais muito desfavorecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pol\u00edticas de escolha dos centros escolares podem facilmente converter col\u00e9gios em clubes. As fam\u00edlias com mais poder nas escolas podem dispor das mesmas op\u00e7\u00f5es que membros de um clube. Podem manter seus filhos em determinado col\u00e9gio ou transferi-los para outro. \u00c9 importante ressaltar, ainda, a possibilidade de se fazerem escutar; desse modo, podem obrigar os col\u00e9gios a adotar determinadas medidas, como desenvolver um projeto educacional X, trabalhar determinados conte\u00fados culturais e evitar outros, adotar uma pol\u00edtica de admiss\u00e3o de estudantes que beneficie os interesses daqueles que t\u00eam maior poder no col\u00e9gio, ou \u2013 o que d\u00e1 no mesmo \u2013 podem favorecer a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de admiss\u00e3o restritivas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles grupos sociais marginalizados ou com menor poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um clube privado busca benef\u00edcios privados; al\u00e9m disso, serve para refor\u00e7ar um estatuto social diferenciado. Isso explica por que os membros de grupos sociais mais privilegiados se caracterizam e se distinguem, tamb\u00e9m, pelo tipo de clubes a que t\u00eam acesso. Clubes que gozam de prest\u00edgio e poder, \u00e0 medida que as condi\u00e7\u00f5es de acesso s\u00e3o restritivas, distinguem quem passa a integr\u00e1-los. A distin\u00e7\u00e3o de pertencer a um clube se nota, ainda, nos signos externos com que s\u00e3o vistos seus membros. Neste sentido, a pol\u00edtica de uniformes escolares serviria para diferenciar os jovens que freq\u00fcentam centros escolares privados. As elites tamb\u00e9m procuram se fazer vis\u00edveis.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 17\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta perspectiva seletiva e competitiva de operar institui\u00e7\u00f5es escolares explicaria algumas das reestrutura\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os p\u00fablicos em geral que, desde fins da d\u00e9cada de oitenta, t\u00eam lugar em pa\u00edses mais desenvolvidos. Um exemplo \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da figura de administradores em servi\u00e7os p\u00fablicos, concretamente em hospitais da Espanha ou em centros escolares em numerosos pa\u00edses. Estes administradores se encarregam das pol\u00edticas econ\u00f4micas ou, o que d\u00e1 no mesmo, de economizar dinheiro em modos de funcionamento dessas institui\u00e7\u00f5es. Isso os posiciona ao lado de fam\u00edlias que ap\u00f3iam medidas seletivas e restritivas, uma vez que o alunado com defici\u00eancias relevantes, baixo n\u00edvel cultural ou simplesmente outro capital cultural, vai precisar de maior apoio, de mais recursos; portanto, ser\u00e1 preciso dispor de um or\u00e7amento tamb\u00e9m maior. Os administradores, como os <span style=\"font-style: italic;\">managers <\/span>(12)\u00a0dos clubes, buscam s\u00f3cios que lhes permitam rentabilizar as instala\u00e7\u00f5es que possuem, para oferecer uma boa imagem e atra\u00edrem novos s\u00f3cios \u2013 de prefer\u00eancia, mais poderosos \u2013, que sirvam para melhorar ainda mais a imagem e obter benef\u00edcios, tanto econ\u00f4micos quanto simb\u00f3licos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, as pol\u00edticas de escolha de escolas t\u00eam novo obst\u00e1culo: o agrupamento de pessoas em zonas residenciais, a partir de estratifica\u00e7\u00f5es como classes sociais e etnia. Em fun\u00e7\u00e3o dos recursos econ\u00f4micos que possuem, as pessoas s\u00e3o atra\u00eddas para bairros e localidades que lhes oferecem o conjunto de servi\u00e7os coletivos a que consideram ter direito \u2013 cl\u00ednicas, col\u00e9gios, espa\u00e7os p\u00fablicos, centros de divers\u00e3o \u2013 e est\u00e3o dispostas a pagar pre\u00e7os compat\u00edveis com as vantagens que esperam obter. Cada coletivo social gera suas expectativas em fun\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o e recursos que possui. Este tipo de escolha est\u00e1 tornando clara a polariza\u00e7\u00e3o social. Em alguns espa\u00e7os se concentra a riqueza e os servi\u00e7os com melhor infra-estrutura e dota\u00e7\u00e3o, ao passo que, em outros, encontra-se a pobreza e a marginalidade, com car\u00eancia de infra-estrutura e servi\u00e7os, al\u00e9m de uma significativa degrada\u00e7\u00e3o ambiental. \u00c9 previs\u00edvel que os centros de ensino localizados na esfera destes \u00faltimos tenham de desenvolver um trabalho mais \u00e1rduo, necessitem de pessoal com \u00f3tima forma\u00e7\u00e3o e uma boa dota\u00e7\u00e3o de recursos. S\u00e3o escolas que t\u00eam dificuldades para atrair alunos de bairros mais residenciais, com infra-estrutura, dota\u00e7\u00f5es abundantes e grande qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas pol\u00edticas de agrupamento por estratos sociais confinados em espa\u00e7os f\u00edsicos era um fen\u00f4meno mais freq\u00fcente em lugares como os Estados Unidos, mas n\u00e3o tanto na Espanha ou na Europa Central, onde as fam\u00edlias residiam em grandes blocos de moradias, com desenhos arquitet\u00f4nicos padronizados e homog\u00eaneos, mantendo cada uma delas um certo anonimato acerca de seus modos de vida e recursos dispon\u00edveis, o que facilitava agrupamentos mistos. Em uma mesma rua podiam-se encontrar edif\u00edcios em que moravam fam\u00edlias de diferentes grupos sociais e etnias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As novas pol\u00edticas neoliberais, dada a fragmenta\u00e7\u00e3o social que produzem, propiciam \u00e0s pessoas a busca de entornos que as \u201cprojetem\u201d (13) e lhes proporcionem ambientes e servi\u00e7os compat\u00edveis com seu <span style=\"font-style: italic;\">status <\/span>social. Os coletivos com mais problemas econ\u00f4micos e sociais correm o risco de se localizar em ambientes sociais marginais, em bairros com altos \u00edndices de delinq\u00fc\u00eancia \u2013 fruto da pobreza e da incultura \u2013 e com institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u2013 como col\u00e9gios e centros de sa\u00fade \u2013 com recursos escassos. Em uma situa\u00e7\u00e3o semelhante, os componentes de grupos sociais desfavorecidos entram em um c\u00edrculo vicioso do qual \u00e9 muito dif\u00edcil sair.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 18\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que se produz uma polariza\u00e7\u00e3o residencial, ampliam-se as dist\u00e2ncias entre os diferentes n\u00facleos de popula\u00e7\u00e3o, o que faz com que o transporte de quem tenha de ir trabalhar ou estudar em outro espa\u00e7o distinto seja mais custoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das vantagens dos modelos de vida anteriores e daqueles que continuam mantendo um compromisso com a luta pela eq\u00fcidade \u00e9 as institui\u00e7\u00f5es escolares serem o espa\u00e7o onde \u201cnaturalmente\u201d (14) interagem estudantes de diferentes grupos sociais, etnias, sexos, destrezas, n\u00edveis de desenvolvimento, distinta e desigual bagagem cultural e ling\u00fc\u00edstica; algo que \u00e9 coerente com o princ\u00edpio de igualdade de oportunidades que todas as democracias assumem, ao menos em teoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas situa\u00e7\u00f5es em que a popula\u00e7\u00e3o vive em espa\u00e7os espec\u00edficos, de acordo com sua posi\u00e7\u00e3o social e de classe, \u00e9 a classe m\u00e9dia e os grupos sociais mais privilegiados quem verdadeiramente t\u00eam possibilidades de escolher escolas e de assumir os custos com os deslocamentos. Normalmente, todos estes grupos optar\u00e3o por col\u00e9gios em conson\u00e2ncia com suas possibilidades econ\u00f4micas e suas expectativas sobre o futuro profissional de seus filhos. Isto explica o fato de que algumas fam\u00edlias abastadas, quando tomam ci\u00eancia do grau de dificuldade para obten\u00e7\u00e3o de boas notas em certas disciplinas, especialmente quando seus filhos precisam de qualifica\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas para poderem ingressar em alguns cursos universit\u00e1rios, decidam escolher institui\u00e7\u00f5es escolares normalmente freq\u00fcentadas por estudantes de fam\u00edlias de menos <span style=\"font-style: italic;\">status<\/span>. Assim, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel que uma fam\u00edlia de posses decida que seus filhos devam estudar em uma institui\u00e7\u00e3o para a qual v\u00e3o alunos de outros grupos sociais, ou que tenha de escolher um centro privado muito mais caro, no qual, por\u00e9m, considera ser mais f\u00e1cil obter boas qualifica\u00e7\u00f5es finais. Nestes casos, os estudos a realizar e as escolas onde realiz\u00e1-los s\u00e3o analisados e considerados como um investimento, do qual se espera obter benef\u00edcios exclusivamente individuais, como o de se colocar em posi\u00e7\u00e3o de vantagem no mercado de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez mais, os centros escolares s\u00e3o apresentados como \u201cclubes\u201d. (15) Suas estrat\u00e9gias organizacionais e suas pol\u00edticas de atra\u00e7\u00e3o seletiva de s\u00f3cios \u2013 estudantes \u2013 est\u00e3o destinadas a lhes dar uma s\u00e9rie de vantagens. As fam\u00edlias que comp\u00f5em estes col\u00e9gios\/clubes disputam com outros centros de ensino, cuidando para que seus filhos tenham mais benef\u00edcios que os demais. Este tipo de realidade \u00e9 o que explica a publicidade \u201cboca-a-boca\u201d, alardeando que quem estuda em determinado centro universit\u00e1rio privado ser\u00e1 encaminhado pela pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o a um posto de trabalho em alguma das empresas que o ajudam a se sustentar financeiramente. Tal tipo de coisa deixa patente a perda do princ\u00edpio de igualdade de oportunidades, as pol\u00edticas de justi\u00e7a social. Esta \u00e9 ainda uma das maneiras que conduz ao t\u00e9rmino da estratifica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(69.804000%, 41.176000%, 2.352900%);\">RECONSTRUIR A CULTURA DE COLABORA\u00c7\u00c3O E COMUNIDADE <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3028\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/OKeeffe.jpg\" alt=\"O'Keeffe\" width=\"286\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/OKeeffe.jpg 433w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/OKeeffe-249x300.jpg 249w\" sizes=\"auto, (max-width: 286px) 100vw, 286px\" \/>\u00c9 preciso instituir nas organiza\u00e7\u00f5es escolares uma cultura de colabora\u00e7\u00e3o em dois n\u00edveis:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">a) entre o professorado e o alunado;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">b) com as fam\u00edlias e outros coletivos sociais com interesse pela educa\u00e7\u00e3o e luta contra as desigualdades sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, esta demanda por uma \u201ccultura de colabora\u00e7\u00e3o\u201d (16) para o trabalho nas aulas \u00e9 priorit\u00e1ria, pois as novas pol\u00edticas educacionais de incremento da burocratiza\u00e7\u00e3o e da obsess\u00e3o para se obterem boas notas em provas tradicionais e\/ou exames est\u00e3o convertendo os centros escolares em terrenos de insolidariedade, (17) rivalidade e desconfian\u00e7a frente aos demais companheiros \u2013 algo que contradiz a raz\u00e3o de ser dos sistemas educacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tampouco devemos deixar no esquecimento o que a legisla\u00e7\u00e3o educacional vigente defende. O artigo 3.2 da Lei Org\u00e2nica de Participa\u00e7\u00e3o, Avalia\u00e7\u00e3o e Governo dos Centros Docentes (B. O. E. de 21\/11\/95) (18) diz claramente que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>a organiza\u00e7\u00e3o e o funcionamento dos centros facultar\u00e1 a participa\u00e7\u00e3o dos professores, alunos e pais de alunos \u2013 a t\u00edtulo individual ou por meio de suas associa\u00e7\u00f5es e seus representantes nos Conselhos Escolares \u2013 na elei\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e avalia\u00e7\u00e3o das atividades escolares complementares. Para os efeitos estabelecidos na presente lei, consideram-se tais as organizadas pelos centros docentes, de acordo com seu projeto educativo, durante o hor\u00e1rio escolar<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m que se tome consci\u00eancia da necessidade de se utilizar de forma positiva esta participa\u00e7\u00e3o, procurando encaminh\u00e1-la no sentido de provocar experi\u00eancias pedag\u00f3gicas progressistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com freq\u00fc\u00eancia, incorre-se em not\u00e1vel grau de simplismo na hora de falar do professorado, esquecendo-se sua g\u00eanese social. Aqueles que comp\u00f5em este coletivo se dedicam ao ensino pelo resultado de uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es socioculturais e experi\u00eancias em que se envolveram; n\u00e3o ingressaram no magist\u00e9rio por raz\u00f5es biol\u00f3gicas ou por uma voca\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este mesmo simplismo acerca do professorado reaparece quando se pensa nele de forma monol\u00edtica, como se n\u00e3o existisse variabilidade no interior de tal conjunto; algo que acaba em an\u00e1lises e comportamentos tingidos de forte corporativismo. N\u00e3o podemos esquecer que h\u00e1 professores com ideologias, preocupa\u00e7\u00f5es e interesses muito distintos. Tamb\u00e9m n\u00e3o conv\u00e9m esquecer as din\u00e2micas de g\u00eanero, classe, etnia e nacionalidade. Ao mesmo tempo, devemos lembrar que existem conflitos derivados da etapa educacional em que se trabalha; ser professor na educa\u00e7\u00e3o infantil n\u00e3o \u00e9 igual a ser professor no bacharelado ou na universidade. Ademais, os docentes s\u00e3o cidad\u00e3os, o que implica terem interesses e compromissos que ultrapassam os muros dos col\u00e9gios. Com outros grupos sociais e coletivos de trabalhadores, compartilham ideais e lutas a favor de um modelo de comunidade, na\u00e7\u00e3o, sociedade em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem d\u00favida, \u00e9 \u00f3bvio que todo posto de trabalho gera problemas comuns a qualquer um que o desempenhe; disso se justifica a exist\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es sindicais e associa\u00e7\u00f5es profissionais que negociam com o Estado, burocratas e\/ou empres\u00e1rios do ensino privado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sua vez, a exist\u00eancia de significativa diversidade de institui\u00e7\u00f5es sindicais e associa\u00e7\u00f5es profissionais deixa patentes as diferen\u00e7as de ju\u00edzos acerca da realidade educativa e dos compromissos pol\u00edticos e sociais que os professores manifestam. Em fun\u00e7\u00e3o de seu grau de milit\u00e2ncia e identifica\u00e7\u00e3o a classes sociais, g\u00eanero, etnia e nacionalidade, optam e se comportam sindical, social e politicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, sindicatos e outras institui\u00e7\u00f5es corporativistas de ensino costumam estar comprometidos com associa\u00e7\u00f5es e partidos pol\u00edticos, visando tornar vi\u00e1veis modelos concretos de sociedade que afetar\u00e3o a institui\u00e7\u00e3o escolar e as demais esferas da sociedade: econ\u00f4mica, cultural, pol\u00edtica, militar e religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho docente \u00e9 tamb\u00e9m pol\u00edtico: dele resultam in\u00fameros exemplos de professores que, com a colabora\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e outras associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, optam por converter os centros escolares em espa\u00e7os para a dinamiza\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica da vizinhan\u00e7a. Algo que Beane e Apple deixam claro quando diferenciam as \u201cescolas democr\u00e1ticas\u201d das \u201cprogressistas\u201d: enquanto estas \u00faltimas se dedicam a p\u00f4r em pr\u00e1tica propostas educativas human\u00edsticas ou centradas em crian\u00e7as \u2013 tal como os discursos de cunho psicol\u00f3gico v\u00eam defendendo \u2013, as escolas democr\u00e1ticas atendem aos aspectos das anteriores, mas, al\u00e9m disso, \u201csua vis\u00e3o alcan\u00e7a prop\u00f3sitos como melhorar o ambiente da escola ou aumentar a auto-estima dos estudantes. Os educadores democr\u00e1ticos procuram n\u00e3o s\u00f3 diminuir o peso das desigualdades sociais na escola, como tamb\u00e9m mudar as condi\u00e7\u00f5es conforme suas cren\u00e7as\u201d (Apple e Beane, 1997, p. 28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na na\u00e7\u00e3o espanhola, esse compromisso com a democracia, dentro e fora das escolas, foi uma das raz\u00f5es principais da cria\u00e7\u00e3o dos Movimentos de Renova\u00e7\u00e3o Pedag\u00f3gica. (19) Sua finalidade n\u00e3o se centra unicamente no conte\u00fado das aulas quando da elabora\u00e7\u00e3o de propostas de trabalho para os alunos, mas busca vincular a institui\u00e7\u00e3o escolar a um contexto, mediante o trabalho com projetos curriculares da escola como um todo e de professores em suas disciplinas, relevantes e significativos para os alunos e a comunidade circunvizinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este compromisso de muitos professores, ao mesmo tempo pol\u00edtico e de vida, tamb\u00e9m \u00e9 observado em in\u00fameros pa\u00edses, em especial naqueles em que a luta por fazer realidade os direitos humanos e a democracia \u00e9 prioridade. Recordemos o numeroso coletivo de docentes que participaram do Movimento Sandinista procurando construir uma sociedade democr\u00e1tica na Nicar\u00e1gua, ou o trabalho que se desenvolve hoje nesse mesmo pa\u00eds, ou em Chiapas, ou na Argentina, ou no Brasil \u2013 em especial colaborando com o Movimento dos Sem-Terra (20) \u2013, ou no Saara \u2013 contribuindo para a defesa de um povo que o Estado espanhol deixou abandonado \u00e0 sua sorte. O compromisso com a luta pol\u00edtica pela justi\u00e7a social, a igualdade e a democracia, por meio da educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro e patente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante, no momento em que a autonomia dos centros escolares est\u00e1 fortemente amea\u00e7ada pelos interesses exclusivistas das grandes corpora\u00e7\u00f5es empresariais, conv\u00e9m estarmos prevenidos para que a defesa da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e de boa qualidade n\u00e3o resulte em discursos e modelos que estabele\u00e7am t\u00e3o-somente mais hierarquias. Recordemos como em muitas ocasi\u00f5es a defesa do profissionalismo foi utilizada sem plena consci\u00eancia por boa parte do professorado, com fins ideol\u00f3gicos e classistas para estabelecer hierarquias sociais, buscando colocar a figura do professor acima de outros coletivos de trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que uma profiss\u00e3o est\u00e1 no \u201ctopo das profiss\u00f5es\u201d, ressalta-se uma filosofia classista que prop\u00f5e que aqueles ocupantes de postos de trabalho mais acima na escala de profiss\u00f5es podem decidir, mandar e ter privil\u00e9gios sobre quem tem menos especializa\u00e7\u00e3o, posicionando-se mais abaixo na escala profissional. Dentro da l\u00f3gica do mercado capitalista, a hierarquia dos trabalhos e a competitividade entre estes \u00e9 algo essencial. Entre outros efeitos, obt\u00e9m-se a desarticula\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Cada coletivo v\u00ea a si mesmo como \u00fanico, em um espa\u00e7o particular e com problemas tamb\u00e9m idiossincr\u00e1sicos, com o que sua articula\u00e7\u00e3o com outros grupos se torna muito dif\u00edcil; n\u00e3o se percebe que assuntos lhes unem, que problemas s\u00e3o comuns e como estrat\u00e9gias coordenadas poderiam resultar em melhores solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imprescind\u00edvel o compromisso com a tarefa comunit\u00e1ria de democratizar as institui\u00e7\u00f5es escolares, mesmo no caso de postos de trabalho que atualmente j\u00e1 se preocupam com o planejamento, desenvolvimento e avalia\u00e7\u00e3o de projetos curriculares. \u00c9 conveniente pleitear a autonomia a partir de um discurso mais inclusivo, reunindo todas as pessoas que convivem e trabalham nos centros escolares. A autonomia n\u00e3o deve ser utilizada para que um determinado coletivo imponha suas id\u00e9ias e projetos aos demais, sem levar em considera\u00e7\u00e3o a necessidade de debater e convencer os que tamb\u00e9m ser\u00e3o afetados: alunos, fam\u00edlias e comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m deixar claro que criticar as ideologias profissionais n\u00e3o quer dizer estar contra um conhecimento mais especializado, que pode colaborar para a melhoria da qualidade do trabalho que se desenvolve em salas de aula e em centros de ensino. Pelo contr\u00e1rio: para se fazer frente ao fracasso escolar e aos baixos rendimentos, \u00e9 preciso conhecer e realizar pesquisas para ampliar a compreens\u00e3o dos porqu\u00eas de tais situa\u00e7\u00f5es deficit\u00e1rias. Torna-se imprescind\u00edvel levar em considera\u00e7\u00e3o esses d\u00e9ficits, para que se possa planejar e p\u00f4r em pr\u00e1tica outros modos de trabalho curricular, assim como criar condi\u00e7\u00f5es nas escolas e redimensionar os postos de trabalho docente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso recordar que uma das fun\u00e7\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es de ensino \u00e9 colaborar com a constru\u00e7\u00e3o de sociedades democr\u00e1ticas e igualit\u00e1rias, o que exige dedicar mais aten\u00e7\u00e3o e oferecer mais possibilidades e informa\u00e7\u00e3o aos que come\u00e7am com maiores d\u00e9ficits. Algo que, por sua vez, deixa claro como o trabalho das organiza\u00e7\u00f5es escolares n\u00e3o se inicia nem se acaba dentro das paredes da sala de aula que cada professor tem sob sua responsabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os centros escolares podem intimidar muitas fam\u00edlias \u2013 em especial aquelas com menor n\u00edvel cultural e econ\u00f4mico \u2013, assim como as associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias interessadas pela educa\u00e7\u00e3o, quando estas se v\u00eaem incapazes de compreender a grande quantidade de normas e regras n\u00e3o expl\u00edcitas que regem a vida cotidiana e o trabalho com as crian\u00e7as. S\u00e3o comuns as dificuldades para entender o motivo de determinadas pr\u00e1ticas e rotinas, a maior parte do vocabul\u00e1rio especializado e siglas empregadas pelo professorado em algumas ocasi\u00f5es. Tamb\u00e9m pode ocorrer que algumas fam\u00edlias percebam como s\u00e3o segregadas, porque na Espanha os professores manifestam uma clara prefer\u00eancia por fam\u00edlias mais abastadas e com maior n\u00edvel cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Igualmente, democratizar o ensino envolve desmistificar e desburocratizar o sistema educacional e o funcionamento dos col\u00e9gios, criar estruturas abertas e informais que incentivem a participa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio professorado, alunado, fam\u00edlias e outros coletivos circunvizinhos e sociais interessados pela educa\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es. A democracia se pratica e se torna realidade \u00e0 medida que diferentes grupos sociais e pessoas trabalhem em coopera\u00e7\u00e3o, para planejarem e concretizarem transforma\u00e7\u00f5es na sociedade; do contr\u00e1rio, \u00e9 prov\u00e1vel que acabe reduzida a mero termo ling\u00fc\u00edstico, esvaziado de significado e utilizado como muleta por todos, j\u00e1 que n\u00e3o leva a nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe consenso quanto ao fato de que as inova\u00e7\u00f5es educativas de maior interesse procedem de equipes docentes que mant\u00eam ou t\u00eam contato com movimentos sociais progressistas que pretendem transformar a sociedade. O trabalho docente constitui parte de projetos pol\u00edticos e sociais, que adquirem pleno sentido quando expandimos nossa vis\u00e3o para fora dos centros de ensino e a relacionamos a projetos mais abrangentes, destinados \u00e0 consecu\u00e7\u00e3o de um determinado modelo de sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando concebemos o professorado como trabalhadores, torna-se mais f\u00e1cil estabelecer-mos la\u00e7os de uni\u00e3o com outros coletivos trabalhistas e, portanto, tornar-nos conscientes das condi\u00e7\u00f5es estruturais que geram o mal-estar e situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a social. Desse modo, favorece-se a constru\u00e7\u00e3o de plataformas reivindicativas mais eficazes: por exemplo, as sindicais. O profissionalismo equivale ao corporativismo e, por conseguinte, \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de \u00fanicos, sem iguais e, o que \u00e9 mais importante, s\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebe-se com clareza a urg\u00eancia de se resgatar a fun\u00e7\u00e3o que desempenha o sistema educativo na sociedade:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>Sua tarefa n\u00e3o pode ser a de se ajustar mansamente aos ditames e exig\u00eancias da produ\u00e7\u00e3o; \u00e9 muito mais ampla e importante. Est\u00e1 convocada a colaborar na constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa para a sociedade de produ\u00e7\u00e3o\/consumo. A escola tem de ser uma pe\u00e7a importante na reformula\u00e7\u00e3o de uma nova utopia, de uma id\u00e9ia motriz capaz de incentivar e agregar as energias e capacidade dos seres humanos desta virada de mil\u00eanio ou, dito de forma mais modesta, capaz de colaborar com a cria\u00e7\u00e3o de um modelo social humano, onde todos caibam socialmente (Mardones, 1998, p. 26)<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta tarefa, todas as pessoas s\u00e3o imprescind\u00edveis e ningu\u00e9m pode, nem deve, delegar seus deveres e responsabilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conseq\u00fcentemente, conv\u00e9m aprender a negociar apoios para as institui\u00e7\u00f5es docentes. Al\u00e9m das fam\u00edlias e dos alunos, h\u00e1 muitos outros coletivos com os quais tecer redes, a fim de construir estrat\u00e9gias eficazes para se alcan\u00e7arem sociedades mais justas, solid\u00e1rias e democr\u00e1ticas. Durante a \u00faltima d\u00e9cada, h\u00e1 de se destacar os numerosos coletivos sociais que constroem novas formas de associa\u00e7\u00e3o e reivindicam maiores cotas de participa\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica. Um fen\u00f4meno que ocorre no \u00e2mbito daquilo que se denomina \u201cnovos movimentos sociais\u201d, ou seja, toda uma grande variedade de ONG\u2019s (organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais), grupos feministas, ecologistas, pacifistas, de defesa dos direitos humanos etc., os quais v\u00eam trazer \u00e0 tona o inconformismo de numeroso grupo de cidad\u00e3os que se queixam de insufici\u00eancias e injusti\u00e7a dos atuais modelos neoliberais e conservadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma mais decisiva, os centros de ensino constituem um dos espa\u00e7os aos quais compete a aposta em verdadeira educa\u00e7\u00e3o moral, em dias de forte individualismo e insolidariedade. \u00c9 nestes centros que as gera\u00e7\u00f5es jovens t\u00eam de aprender a ver a sociedade como constru\u00e7\u00e3o coletiva, que requer participa\u00e7\u00e3o de todas as pessoas, a partir de atitudes de cr\u00edtica, colabora\u00e7\u00e3o, respeito, responsabilidade, solidariedade e ajuda. Uma educa\u00e7\u00e3o em que os valores se convertam em um dos principais focos de aten\u00e7\u00e3o do professorado, em que o alunado introjete tais valores como guia baseado em tarefas escolares que exijam sua coloca\u00e7\u00e3o em pr\u00e1tica. Dessa forma, resgata-se para as institui\u00e7\u00f5es sua verdadeira raz\u00e3o de ser: espa\u00e7os onde se aprende a ser cidad\u00e3 e cidad\u00e3o, analisar informativa e criticamente o que est\u00e1 ocorrendo na sociedade, criar predisposi\u00e7\u00f5es e atitudes positivas de colabora\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o na solu\u00e7\u00e3o de problemas coletivos.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 23\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(69.804000%, 41.176000%, 2.352900%);\">REFOR\u00c7AR A SOCIEDADE CIVIL E A DEMOCRACIA\u00a0<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A delega\u00e7\u00e3o de mais poder \u00e0 sociedade civil deve ser contemplada dentro de um projeto pol\u00edtico de refor\u00e7o \u00e0 cidadania. Para isso, \u00e9 importante disponibilizar aos cidad\u00e3os muitos outros meios para se formarem e poderem fazer frente \u00e0s manipula\u00e7\u00f5es que os coletivos econ\u00f4micos com maior poder praticam para reproduzirem as condi\u00e7\u00f5es atuais, que lhes permitem aumentar de maneira vertiginosa suas riquezas e privil\u00e9gios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma forma de potencializar a democracia resulta do fortalecimento da cidadania e defesa da sociedade plural, assegurando aos diferentes coletivos sociais as mesmas possibilidades de se fazerem escutar, sem precisar ocultar determinadas identidades, interesses e preocupa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o esque\u00e7amos que em numerosas ocasi\u00f5es \u201cos discursos dominantes acerca da cidadania moderna s\u00e3o prega\u00e7\u00f5es sobre a sistem\u00e1tica exclus\u00e3o das pessoas etiquetadas como outros por tais discursos\u201d (Yeatman, 1994, p. 86). Al\u00e9m disso, devemos lembrar que os principais eixos em torno dos quais se constru\u00edram as diferentes formas de exclus\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o assumiam valores e produ\u00e7\u00f5es da classe social que possu\u00eda maior poderio econ\u00f4mico, da ra\u00e7a branca, do g\u00eanero masculino, de orienta\u00e7\u00e3o heterossexual e de religi\u00e3o crist\u00e3. O resto da popula\u00e7\u00e3o era percebida como deficiente e\/ou menor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A educa\u00e7\u00e3o deve tornar poss\u00edvel \u00e0s pessoas encontrar alternativas efetivas para os problemas da sociedade e, \u00e0 medida que em uma sociedade livre se possa propor uma ampla variedade de op\u00e7\u00f5es, deve ser o debate p\u00fablico e democr\u00e1tico aquilo que predomine nas rela\u00e7\u00f5es sociais. Como Karl Marx e Friedrich Engels (1970) diziam em 1846, \u00e9 preciso \u201csubstituir o dom\u00ednio das circunst\u00e2ncias e da sorte sobre os indiv\u00edduos pelo dom\u00ednio dos indiv\u00edduos sobre a sorte e as circunst\u00e2ncias\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma democracia, as pessoas tendem a conseguir aquilo pelo qual se mobilizam e normalmente n\u00e3o conseguem as coisas que n\u00e3o reivindicam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os poderes p\u00fablicos t\u00eam de servir para promover o debate entre os cidad\u00e3os acerca das prioridades de suas interven\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 algo que, nas democracias, tende a se considerar esgotado no momento em que se finalizam as elei\u00e7\u00f5es para parlamentos e governos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, o conceito de democracia dialogante de que fala Giddens (1996) \u00e9 importante: mecanismo que estimula \u201ca democratiza\u00e7\u00e3o da democracia\u201d (p. 119), promovendo a difus\u00e3o da capacidade social de reflex\u00e3o como requisito para o exerc\u00edcio de atividades cotidianas e para a continuidade de formas mais amplas de organiza\u00e7\u00e3o coletiva. Todavia, n\u00e3o se trata de uma proposta orientada \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de consenso, pois h\u00e1 que se admitir que os conflitos n\u00e3o se superam com base no di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A democracia dialogante \u201csup\u00f5e somente que o di\u00e1logo em um espa\u00e7o p\u00fablico oferece um meio de viver junto ao outro, em uma rela\u00e7\u00e3o de toler\u00e2ncia m\u00fatua, seja este outro um indiv\u00edduo ou uma comunidade mundial de crentes religiosos\u201d (Giddens, 1996, p. 122). O fundamentalismo, seja do tipo que for, \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia de um desprezo pelo di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um \u201corientar-se\u201d no sentido de uma ordem social em que a reflexividade estaria muito potencializada e desenvolvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta perspectiva, a id\u00e9ia de uma democracia dialogante, de se converterem as salas de aula em espa\u00e7os onde garantimos da melhor maneira poss\u00edvel a liberdade para expressar convic\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma boa id\u00e9ia com base na qual se iniciar e um compromisso a assumir. Por\u00e9m como nos disse Gioconda Belli,<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 24\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Uno no escoge el pa\u00eds donde nace;<\/em><br \/>\n<em> pero ama el pa\u00eds donde ha nacido.<\/em><br \/>\n<em> Uno no escoge el tiempo para venir al mundo; pero debe dejar huella de su tiempo.<\/em><br \/>\n<em> Nadie puede evadir su responsabilidad.<\/em><br \/>\n<em> Nadie puede taparse los ojos, los o\u00eddos, enmudecer y cortarse las manos.<\/em><br \/>\n<em> Todos tenemos un deber de amor que cumplir, una historia que hacer<\/em><br \/>\n<em> una meta que alcanzar.<\/em><br \/>\n<em> No escogimos el momento para venir al mundo: Ahora podemos hacer el mundo<\/em><br \/>\n<em> en que nacer\u00e1 y crecer\u00e1<\/em><br \/>\n<em> la semilla que trajimos con nosotros<\/em>.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p><em>Notas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(1)\u00a0Traduzido e adaptado do ensaio in\u00e9dito \u201c<em>La instituci\u00f3n escolar en tiempos de intolerancia<\/em>\u201d por Luiz Antonio Gomes Senna (Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o\/Universidade do Estado do Rio de Janeiro).<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">(2)\u00a0N. T.: Neologismo criado pelo autor, traduzido pela forma portuguesa equivalente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(3)\u00a0N. T.: O termo monetarista \u00e9 um neologismo do autor, aqui preservado por meio de seu correspondente em nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(4) N. T.: Na Espanha, ap\u00f3s a reforma educacional, o sistema de ensino est\u00e1 organizado em diferentes n\u00edveis educacionais, a saber: educa\u00e7\u00e3o superior, educa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria (onde se incluiriam os ciclos de forma\u00e7\u00e3o de grau m\u00e9dio \u2013 correspondentes, no Brasil, ao segundo segmento do ensino fundamental \u2013, a educa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria obrigat\u00f3ria \u2013 corespondente, no Brasil, ao ensino m\u00e9dio \u2013 e o bacharelado \u2013 correspondente ao que se vem denominando no Brasil cursos de p\u00f3s-m\u00e9dio) e educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 9\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\">(5)\u00a0N. T.: Equivalente \u00e0 educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e ao ensino secund\u00e1rio obrigat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(6)\u00a0N. T.: A educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria corresponde \u00e0s s\u00e9ries iniciais do ensino fundamental no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(7)\u00a0N. T.: O termo meritocr\u00e1tica \u00e9 um neologismo criado pelo autor, aqui preservado por meio de seu correspondente em nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(8)\u00a0N. T.: Do original comprensividad, neologismo empregado com a no\u00e7\u00e3o de atividade que leva \u00e0 compreens\u00e3o de, \u00e0 clareza de. Pode ser traduzido como reflex\u00e3o, com certa perda do sentido desejado pelo autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(9)\u00a0N. T.: Projeto do governo espanhol, a cargo do Secretariado Nacional Cigano, nos anos 80, que criou escolas para comunidades ciganas, visando sua integra\u00e7\u00e3o na sociedade. O projeto ofereceu forma\u00e7\u00e3o escolar b\u00e1sica para crian\u00e7as ciganas (al\u00e9m de jovens e adultos, tamb\u00e9m ciganos), a fim de que pudessem seguir seus estudos em escolas comuns ou ingressar no mercado de trabalho regular. Cf. ESPANHA: Secretariado Nacional Gitano (1982) Escuelas-puente para ni\u00f1os gitanos del Secretariado Nacional Gitano: estudio sociol\u00f3gico. Madri, Colacio. Os ciganos s\u00e3o, ainda hoje, grupo fortemente marginalizado em toda a Espanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(10) N. T.: Ley de Ordenaci\u00f3n General del Sistema Educativo. Lei org\u00e2nica que regulamenta a estrutura e o funcionamento da educa\u00e7\u00e3o na Espanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(11) N. T.: Colegiado docente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(12)\u00a0N. T.: Termo ingl\u00eas empregado pelo autor, com sentido de encarregado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(13)\u00a0N. T.: Nota\u00e7\u00e3o entre aspas empregada pelo autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(14)\u00a0N. T.: Nota\u00e7\u00e3o entre aspas empregada pelo autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(15)\u00a0Nota\u00e7\u00e3o entre aspas empregada pelo autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(16)\u00a0N. T.: Nota\u00e7\u00e3o entre aspas empregada pelo autor.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 19\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>(17)\u00a0N. T.: O termo insolidaridad \u00e9 um neologismo criado pelo autor, aqui preservado por meio de seu correspondente em nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p>(18)\u00a0Bolet\u00edn Oficial de Espa\u00f1a.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">(19)\u00a0N. T.: Os Movimentos de Renova\u00e7\u00e3o Pedag\u00f3gica (MRPs) surgiram ao longo dos anos 70 do s\u00e9culo passado e propuseram um modelo aut\u00f4nomo de forma\u00e7\u00e3o de professores, especialmente por meio de \u201cEscolas de Ver\u00e3o\u201d; os MRPs introduziram na Espanha as pr\u00e1ticas progressistas e democr\u00e1ticas de educa\u00e7\u00e3o. Cf. CASTILLO, A. \u201cEl caso de los movimientos de renovaci\u00f3n pedag\u00f3gica (MRPs)\u201d. Revista Electr\u00f3nica Interuniversitaria de Formacion del Profesorado. ISSN, 1999, V: 1(2).<\/p>\n<div class=\"page\" style=\"text-align: justify;\" title=\"Page 20\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>(20)\u00a0N. T.: No original emprega-se a express\u00e3o movimiento de los \u201csin tierra\u201d, aqui substitu\u00edda pela designa\u00e7\u00e3o abreviada mais conhecida de Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2981\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Jean-Baptiste-Jules-Trayer-1024x832.jpg\" alt=\"Jean-Baptiste Jules Trayer\" width=\"560\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Jean-Baptiste-Jules-Trayer-1024x832.jpg 1024w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Jean-Baptiste-Jules-Trayer-300x243.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" style=\"padding-left: 30px;\" title=\"Page 19\"><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\">Jean-Baptiste Jules Trayer &#8211; \u00ab<em>Une \u00e9cole Bretonne<\/em>\u00bb (1882)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A institui\u00e7\u00e3o escolar em tempos de intoler\u00e2ncia &nbsp; Jurjo Torres Santom\u00e9 TEIAS, Ano 2, N\u00ba 3 (Janeiro\/Junho, 2001),\u00a0p\u00e1gs. 77 &#8211; 95 . O atual avan\u00e7o do neoliberalismo est\u00e1 afetando todos os \u00e2mbitos da sociedade, e n\u00e3o somente o mundo da economia. Conseq\u00fcentemente, a escola se tornou um dos principais espa\u00e7os por meio do qual os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[112,63,111,100],"class_list":["post-2969","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacion","tag-cultura-de-colaboracion","tag-neoliberalismo-y-educacion","tag-panico-moral","tag-politicas-educativas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2969"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3040,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2969\/revisions\/3040"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}