{"id":2811,"date":"2014-06-06T20:02:08","date_gmt":"2014-06-06T22:02:08","guid":{"rendered":"http:\/\/jurjotorres.com\/?p=2811"},"modified":"2014-06-08T21:40:25","modified_gmt":"2014-06-08T23:40:25","slug":"a-escola-sempre-esteve-e-estara-desajustada-entrevista-a-jurjo-torres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jurjotorres.com\/?p=2811","title":{"rendered":"\u00abA escola sempre esteve e estar\u00e1 desajustada\u00bb Entrevista a Jurjo Torres"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">\u00abA escola sempre esteve e estar\u00e1 desajustada\u00bb<\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">Entrevista a Jurjo Torres,\u00a0conduzida por Ricardo Jorge Costa<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<a href=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/aPagina.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-2820\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/aPagina.png\" alt=\"aPagina\" width=\"218\" height=\"93\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><b style=\"color: #000000;\">A <\/b><b style=\"color: #000000;\">P\u00e1gina da Educa\u00e7\u00e3o<\/b><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><span style=\"color: #000000;\">N\u00ba. 87, Ano 8 (Janeiro, 2000), p\u00e1gs. 11 &#8211; 13<\/span><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">\u00a0 .,.<\/span><\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 1\">\n<div class=\"section\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">&#8211;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #800080;\">Ricardo Jorge Costa: O professor Jurjo Torres Santom\u00e9 foi o principal coordenador do encontro \u00ab<em>Volver a pensar la Educaci\u00f3n<\/em>\u00ab, organizado em 1993, na Corunha, que conseguiu reunir diversos especialistas mundiais nesta \u00e1rea. Que repercuss\u00f5es teve esse encontro<\/span>?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9<\/strong>: Penso que as ideias ent\u00e3o debatidas ainda continuam a ter repercuss\u00f5es, no sentido de que sa\u00edram textos e foram realizados debates que ainda est\u00e3o na ordem do dia. Falou-se nomeadamente sobre a avalia\u00e7\u00e3o institucional do sistema educativo, sobre o que significa democratizar o sistema educativo, em que aspectos o sistema educativo est\u00e1 mais ou menos democratizado, a necessidade de revis\u00e3o dos conte\u00fados escolares, a organiza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es educativas, como devem ser formados os professores e professoras, que papel desempenham e qual o seu novo papel na nova sociedade da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: Referiu a emerg\u00eancia da sociedade da informa\u00e7\u00e3o. A escola est\u00e1 desajustada face ao mundo que hoje vivemos?<\/span> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JTS<\/strong>: Creio que a escola sempre esteve desajustada e sempre ir\u00e1 estar desajustada. Se olharmos para a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que diga que a escola est\u00e1 a cumprir aquilo que se lhe pede. Em nenhum momento da hist\u00f3ria. E isso \u00e9 uma caracter\u00edstica particular da escola. No entanto, penso que actualmente os desajustamentos s\u00e3o muito maiores, dado estarmos a atravessar um per\u00edodo de grandes transforma\u00e7\u00f5es, como \u00e9 exemplo a revolu\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escola da segunda metade do s\u00e9culo XX \u00e9 uma escola pensada para toda a popula\u00e7\u00e3o. Em tempos anteriores, especialmente no s\u00e9culo XIX, estava planificada como um recurso para as elites e para os grupos sociais que tinham maior poder econ\u00f3mico, com efeitos um tanto ou quanto reprodutores. Os movimentos e lutas sociais levaram a que a escola fosse ampliando a sua base e come\u00e7asse a ser destinada a toda a popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 com o objectivo de proporcionar uma escolariza\u00e7\u00e3o b\u00e1sica como tamb\u00e9m o de alargar o per\u00edodo dessa escolariza\u00e7\u00e3o. E isso transforma o que se pretende realizar, porque \u00e9 diferente pensar numa escola para elites e numa escola que prepara para a cidadania, que est\u00e1 a ajudar a formar um pa\u00eds e a dar-lhe uma cultura comum. Com a escolariza\u00e7\u00e3o pretende-se afirmar a cidadania como possibilidade de transformar o mundo que habitam. A educa\u00e7\u00e3o deve permitir \u00e0s pessoas analisar, tomar decis\u00f5es, trabalhar e disfrutar de modo muito mais respons\u00e1vel, com liberdade e preocupando-se com o bem estar de todos, em especial dos mais desfavorecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos tempos h\u00e1 outra revolu\u00e7\u00e3o maior: a revolu\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Passamos de uma escola onde havia escassa informa\u00e7\u00e3o e onde o acesso aos livros era muito limitado &#8211; basta recordar que h\u00e1 40 ou 50 anos as crian\u00e7as ainda copiavam directamente as li\u00e7\u00f5es do livro do mestre -, para um problema que hoje se verifica no sentido inverso, isto \u00e9, um excesso de informa\u00e7\u00e3o: muitos livros, muitas revistas e toda uma pan\u00f3plia de informa\u00e7\u00e3o escrita e audiovisual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #800080;\"><strong>P: O acesso a essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 ainda totalmente democratizado&#8230;<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" style=\"text-align: justify;\" title=\"Page 2\">\n<div class=\"section\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p><strong>JTS<\/strong>: O acesso a essa informa\u00e7\u00e3o podia estar, hoje em dia, muito mais democratizado. Tudo dependeria de como a escola procedesse a essa democratiza\u00e7\u00e3o. A internet, por exemplo, \u00e9 um canal com todo o tipo e classe de informa\u00e7\u00f5es. Depende muito de como os professores procuram essa informa\u00e7\u00e3o e a utilizam, e de como ensinam os alunos a utiliz\u00e1-la. Entre os objectivos que enformam todos os projectos educativos deve estar o de formar pessoas capacitadas para lutar pela democratiza\u00e7\u00e3o e acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Isto obriga a ensinar de modo muito cr\u00edtico, com toda a classe de informa\u00e7\u00e3o, aprender a descobrir de que modo e porqu\u00ea se manipula a informa\u00e7\u00e3o, quem beneficia e quem sai prejudicado com a oculta\u00e7\u00e3o ou desfigura\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: Estava a referir-me principalmente aos pa\u00edses menos desenvolvidos&#8230;<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: Esta situa\u00e7\u00e3o de desigualdade tem vindo a regredir gradualmente ao longo da hist\u00f3ria. Os pa\u00edses menos desenvolvidos est\u00e3o a atravessar situa\u00e7\u00f5es deficit\u00e1rias como as que n\u00f3s viv\u00edamos h\u00e1 cinquenta anos. O previs\u00edvel \u00e9 que essa situa\u00e7\u00e3o se inverta a curto prazo&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: Esses novos meios permitir\u00e3o uma aproxima\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida desses pa\u00edses em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses do primeiro mundo, ou, pelo contr\u00e1rio, apenas contribuir\u00e3o para aumentar\u00e1 o fosso existent<\/span>e? <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: S\u00e3o as duas din\u00e2micas actualmente em debate. Tanto pode degenerar numa situa\u00e7\u00e3o como noutra. Se o primeiro mundo tem interesses tecnol\u00f3gicos, como os tem, no terceiro mundo, necessitar\u00e1 de \u00abalfabetizar\u00bb essas popula\u00e7\u00f5es. Mas na medida em que o alfabetiza e lhe proporciona estruturas como a internet, podem ao mesmo tempo produzir-se contradi\u00e7\u00f5es. Isto, porque ao proporcionar esse tipo de meios as pessoas poder\u00e3o aceder a outras informa\u00e7\u00f5es. A internet n\u00e3o foi pensada para promover movimentos de activismo social, mas olhando para o recente conflito em Timor Leste, por exemplo, ela foi largamente utilizada para alertar para a situa\u00e7\u00e3o e promover campanhas de solidariedade social. Mas n\u00e3o estava na ideia de quem a concebeu utiliz\u00e1-la para esses fins. S\u00e3o contradi\u00e7\u00f5es que os utilizadores geram.<\/p>\n<p>Apesar destas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o serem mec\u00e2nicas nem previs\u00edveis, h\u00e1 que pensar que todos os colectivos humanos se defenderam ao longo da hist\u00f3ria, isto \u00e9, que podemos ler a hist\u00f3ria de uma forma positiva. O grande erro da escola tradicional foi tornar-nos muito pessimistas, pensar que sempre sofremos ao longo da hist\u00f3ria. E a hist\u00f3ria foi uma comunidade que vivia nos esclavagismo e se rebelou; a hist\u00f3ria foi uma sociedade que estava a viver no feudalismo e se rebelou; a hist\u00f3ria foi um processo onde as mulheres mal eram considerados seres humanos e onde lutaram pelas suas conquistas; a hist\u00f3ria foi uma realidade onde pessoas de cor eram consideradas quase como animais irracionais, e hoje isso acabou.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria foi feita por pessoas que se revoltaram. Ou seja, a hist\u00f3ria ser\u00e1 feita pelas pessoas que hoje enfrentam as mesmas condi\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o e de controlo da informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 verdade que existe um controlo apertado da informa\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que nunca antes circulou tanta informa\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria aos interesses dominantes.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: A prop\u00f3sito da escola tradicional, o professor recorre a uma afirma\u00e7\u00e3o interessante num artigo recentemente publicado na P\u00e1gina: \u00ab<em>O problema das escolas tradicionais, onde se d\u00e1 grande \u00eanfase aos conte\u00fados apresentados em pacotes disciplinares, \u00e9 que n\u00e3o conseguem que os alunos vejam esses conte\u00fados como parte do seu pr\u00f3prio mundo. Dessa forma contribui-se para perpetuar uma mistifica\u00e7\u00e3o do conhecimento<\/em>\u00bb Quer desenvolver?<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: Eu creio que est\u00e3o actualmente a produzir-se culturas duplas. As crian\u00e7as aprendem que o conhecimento s\u00f3 \u00e9 produzido por pessoas excepcionais em lugares excepcionais (laborat\u00f3rios tecnologicamente sofisticados e localizados em lugares muito distantes). Aprendem tamb\u00e9m, de modo impl\u00edcito, como curriculo oculto, que esses conte\u00fados com que trabalham todos os dias na aula s\u00e3o \u00ablogicamente\u00bb demasiado abstractos e complexos e, consequentemente, que eles n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios para que o mundo avance.<\/p>\n<p>Mas ao mesmo tempo, quando saem da escola, muitos deles v\u00e3o ligar-se \u00e0 internet, seja atrav\u00e9s de um computador pessoal, em casa, ou num qualquer caf\u00e9 ou bar que disponha deste servi\u00e7o &#8211; h\u00e1-os por a\u00ed agora nas cidades. E v\u00e3o acedendo a estruturas onde s\u00e3o eles pr\u00f3prios os criadores de conhecimento. Ao mesmo tempo que circula na rede o conhecimento acad\u00e9mico mais especializado, circula igualmente a cultura dos &#8216;comics&#8217;, da m\u00fasica, das cria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e discursos, que est\u00e3o a ser produzidos por grupos de estudantes. Ou seja, fora da escola eles produzem conhecimento, que n\u00e3o reconhecem como valioso, mas \u00e9 conhecimento que utilizam na sua vida quotidiana para analisar a sua realidade e para enfrentar e resolver os seus problemas.<\/p>\n<p>A juventude valeu-se da m\u00fasica para diagnosticar e enfrentar o mundo e as estruturas de domina\u00e7\u00e3o dos adultos. E eles n\u00e3o estavam preocupados se essa m\u00fasica era considerada valiosa ou n\u00e3o, se os conservat\u00f3rios a aprovavam ou n\u00e3o. Eles consumiam-na de qualquer forma. O mesmo se passou com a banda desaenhada, com a literatura infanto-juvenil, com o grafitti, enfim, com as produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de uma maneira geral. A escola disse-lhes que iria ser muito dif\u00edcil criar, mas eles n\u00e3o fizeram caso. Basta lembrar que um fen\u00f3meno como a internet foi praticamente constru\u00edda por adolescentes, as mesmas pessoas a quem a escola disse que seria muito dif\u00edcil produzir coisas inovadoras, porque isso estaria reservado \u00e0s pessoas s\u00e1bias e experientes.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso estar a produzir-se um fen\u00f3meno nunca antes verificado na hist\u00f3ria: pela primeira vez s\u00e3o as gera\u00e7\u00f5es mais novas que ensinam os adultos. Quem funciona com os computadores, com os video-gravadores ou com as c\u00e2maras de filmar n\u00e3o s\u00e3o os pais, s\u00e3o os filhos.<\/p>\n<p>Na minha perspectiva, creio que esta certa desvaloriza\u00e7\u00e3o da cultura acad\u00e9mica est\u00e1 relacionada com o modo de como \u00e9 apresentada a cultura aos alunos nas escolas. Se apresentamos os conte\u00fados em pacotes disciplinares \u00e9 muito dif\u00edcil entender o seu verdadeiro significado e utilidade. A matem\u00e1tica, a f\u00edsica, a gram\u00e1tica, a biologia, etc, s\u00e3o modos de organizar o conhecimento constru\u00eddo pelas pessoas que possu\u00edam maiores n\u00edveis culturais; e estas estruturas disciplinares s\u00e3o apropriadas para as comunidades de especialistas, n\u00e3o como estrat\u00e9gia para educar as pessoas de menor idade e forma\u00e7\u00e3o: as crian\u00e7as.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" style=\"text-align: justify;\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"section\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Para aprender algo \u00e9 necess\u00e1rio apercebermo-nos da sua funcionalidade, utilidade e necessidade desde o primeiro momento. A actual fragmenta\u00e7\u00e3o do conhecimento em disciplinas \u00e9 o que explica tamb\u00e9m o sil\u00eancio do aluno na sala de aula; n\u00e3o se interrogam, n\u00e3o problematizam os conte\u00fados disciplinares, porque n\u00e3o os entendem como parte da vida real, n\u00e3o sentem necessidade de os viver fora da sala de aula.<\/p>\n<p>Um exemplo do que estou a falar, e que a muitas fam\u00edlias surpreende: a sua filha ou o seu filho traz um certificado da escola no qual se informa que j\u00e1 sabe realizar opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas como a soma, subtrac\u00e7\u00e3o, multiplica\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o. Por\u00e9m, a fam\u00edlia n\u00e3o o cr\u00ea porque na vida quotidiana essa crian\u00e7a n\u00e3o sabe utilizar esse conhecimento matem\u00e1tico. Na escola aprendeu a fazer opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas tal qual uma m\u00e1quina registadora, mas n\u00e3o aprendeu a saber quando e porqu\u00ea \u00e9 necess\u00e1rio realizar essas opera\u00e7\u00f5es. Uma estrat\u00e9gia que resolve este problema da fragmenta\u00e7\u00e3o do conhecimento, que o converte em relevante e significativo, \u00e9 o curriculo flex\u00edvel ou interdisciplinar.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Edward-Lamson-Henry.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2838 \" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Edward-Lamson-Henry-300x214.jpg\" alt=\"Edward Lamson Henry\" width=\"504\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Edward-Lamson-Henry-300x214.jpg 300w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Edward-Lamson-Henry.jpg 1001w\" sizes=\"auto, (max-width: 504px) 100vw, 504px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: Que poder de resposta tem a escola face ao \u00ab<em>imperialismo cultural<\/em>\u00bb dos pa\u00edses dominantes, nas palavras de Michael Apple, aproveitando-se desses instrumentos?<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: A escola pode ter um grande poder de resposta. Mas se compete unicamente por fornecer informa\u00e7\u00e3o, por encher as mentes de informa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o todos ficam a perder. Hoje, se considerarmos como importante apenas o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ir \u00e0 escola. Basta p\u00f4r uma crian\u00e7a diante de um televisor e ela ficar\u00e1 ligada a m\u00faltiplos programas de televis\u00e3o, onde passam continuamente document\u00e1rios de grande qualidade e com mensagens muito claras.<\/p>\n<p>Mas o que nenhum meio de comunica\u00e7\u00e3o lhe proporcionar\u00e1 \u00e9 algo que \u00e9 fun\u00e7\u00e3o fundamental da escola: a an\u00e1lise dessa informa\u00e7\u00e3o. Ver como essa informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 constru\u00edda e quem a construiu, com que objectivos, que distor\u00e7\u00f5es est\u00e3o presentes e como se manipula essa informa\u00e7\u00e3o. Do meu ponto de vista s\u00f3 a escola poder\u00e1 exercer esta fun\u00e7\u00e3o, que, ali\u00e1s, deve ser a sua raz\u00e3o de ser. Temos de capacitar as pessoas para compreender o seu mundo e entender que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 produzida num determinado contexto hist\u00f3rico e que as pessoas que a constroem t\u00eam interesses.<\/p>\n<p>Sabemos que em muitos pa\u00edses, por exemplo, mais de 60 por cento do or\u00e7amento est\u00e1 destinado a investiga\u00e7\u00e3o militar. Teremos alguma vez de denunciar isto e afirmar que interessa mais \u00e0s pessoas que esse dinheiro seja canalizado para outro tipo de pesquisas, de car\u00e1cter sanit\u00e1rio, social, etc&#8230;<\/p>\n<p>Por conseguinte, \u00e9 \u00e0 escola que compete essa finalidade: construir esse mundo de possibilidades, fazer ver \u00e0s pessoas que o processo de constru\u00e7\u00e3o de conhecimento \u00e9 um processo hist\u00f3rico e inacabado, em que todos podemos e devemos participar. E que n\u00e3o se pode mistificar o conhecimento, apresentando-o como algo sagrado, que n\u00e3o se pode tocar. Pelo contr\u00e1rio: o conhecimento \u00e9 fal\u00edvel, \u00e9 produzido por seres humanos com interesses opostos. E na medida em que estivermos conscientes disso melhor o podemos avaliar e denunciar o que n\u00e3o funciona, promovendo a constru\u00e7\u00e3o de um conhecimento mais \u00fatil.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: Uma das suas obras intitula-se \u00ab<em>O curriculo oculto<\/em>\u00ab. O que pretende significar com essa express\u00e3o?<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: A minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 consciencializar os professores de que a escola est\u00e1 a ensinar muito mais do que acreditamos. Alguns professores preocupam-se exclusivamente em ensinar a sua \u00e1rea de conhecimento e dentro dela aquilo que consideram mais importante. O curriculo oculto pretende demonstrar que al\u00e9m das mat\u00e9rias propriamente ditas os professores est\u00e3o a ensinar mais do que isso. Mas \u00e9 oculto porque n\u00e3o temos consci\u00eancia do que realmente estamos a ensinar, que n\u00e3o estamos a faz\u00ea-lo de uma forma reflectida.<\/p>\n<p>Quando entram no sistema escolar, os alunos aprendem a ser competitivos. Quanto muito o professor pode dizer- lhes que devem ser solid\u00e1rios e ajudar-se mutuamente, mas eles est\u00e3o conscientes que triunfam na medida em que souberem mais do que os outros. Isso faz com que os estudantes n\u00e3o se ajudem entre si e aprendem a ser acr\u00edticos e dogm\u00e1ticos. E isso porqu\u00ea? Por s\u00f3 haver uma fonte informativa e por as pessoas tomarem como certa essa fonte. A cr\u00edtica desenvolve-se na medida em que as pessoas t\u00eam acesso a fontes informativas diversas e possam encontrar a raz\u00e3o numa determinativa linha argumentativa. E isso vai fazendo com que aceitemos mais perspectivas em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um professor pode ensinar que devemos ter em conta os diferentes ritmos de aprendizagem e que devemos ajudar os colegas com maiores dificuldades, trabalhando em conjunto, ou a aceitar e a conviver com um colega com perturba\u00e7\u00f5es motoras ou, num caso mais extremo, com perturba\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: \u00c9 nesse sentido que fala do curriculo integrado? Pretende ser uma resposta?<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: \u00c9 uma resposta na medida em que pretende afirmar que o conhecimento funciona de uma forma integrada. E que nos servimos dele correctamente quando tomamos em considera\u00e7\u00e3o diferentes perspectivas. Cada disciplina corresponde a um \u00fanico ponto de vista da realidade. Podemos ver a realidade de um ponto de vista mais matem\u00e1tico, podemos encarar o lado mais f\u00edsico-qu\u00edmico, podemos atentar no lado mais social, etc&#8230; E quando se lhes colocam problemas ou quest\u00f5es da actualidade, cada disciplina tende a responder, para jogar com as palavras, \u00abdisciplinadamente\u00bb a cada um desses problemas.<\/p>\n<p>Se um economista deparar com um psic\u00f3logo provavelmente este dir-lhe-\u00e1 que ele v\u00ea o mundo de forma demasiadamente economicista. Este, por seu lado, responder-lhe-\u00e1 que ele encara o mundo de forma negativa, com falsos preconceitos. O psic\u00f3logo estar\u00e1 a \u00abpsicologizar\u00bb a realidade, a converter a sua disciplina na chave de todos os problemas. Ou seja, cada um v\u00ea uma realidade e opera sobre essa realidade, conferida pela sua especializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" style=\"text-align: justify;\" title=\"Page 4\">\n<div class=\"section\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Se acostumarmos as pessoas desde a educa\u00e7\u00e3o infantil a contemplar o maior n\u00famero de perspectivas poss\u00edveis relativamente \u00e0s mat\u00e9rias que abordamos, estaremos a formar pessoas com vistas mais largas, aplic\u00e1veis mesmo nos actos quotidianos. Na compra de brinquedos, nomeadamente. Quando oferecemos uma bola de futebol da marca &#8216;nike&#8217;, por exemplo, sabemos que estamos a contribuir para perpetuar uma estrutura de produ\u00e7\u00e3o no terceiro mundo que utiliza crian\u00e7as no trabalho. E normalmente n\u00e3o pensamos nisto. De alguma forma temos sempre apenas uma ou duas vari\u00e1veis em conta: se gostamos ou n\u00e3o e quanto nos vai custar.<\/p>\n<p>O problema das disciplinas \u00e9 que copiam um modelo de arquivo. Num computador \u00e9 certo podermos armazenar informa\u00e7\u00f5es de uma forma disciplinada. E os especialistas em qualquer campo podem organizar esse conhecimento num plano disciplinar. Mas as pessoas que aprendem n\u00e3o podem aprender da mesma forma que se armazena informa\u00e7\u00e3o. Uma coisa \u00e9 como os especialistas podem armazenar informa\u00e7\u00e3o e investigar nessa base e outra \u00e9 a maneira como fazemos com que as novas gera\u00e7\u00f5es tomem contacto com esse conhecimento.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: Passar da teoria \u00e0 pr\u00e1tica \u00e9 que se torna mais dif\u00edcil&#8230;<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: \u00c9 dif\u00edcil, tal como sempre foi dif\u00edcil aplicar qualquer teoria \u00e0 pr\u00e1tica. Mudar sempre foi dif\u00edcil, mas \u00e9 necess\u00e1rio. E os efeitos j\u00e1 se v\u00eam sentindo. Em quase todos os pa\u00edses do mundo, independentemente das pr\u00e1ticas dos professores serem mais ou menos disciplinares, existem sempre colectivos de professores e professoras que est\u00e3o a fazer este tipo de experi\u00eancias.<\/p>\n<p>O grande problema com que se deparam \u00e9 o facto de as estruturas disciplinares n\u00e3o funcionarem de modo a que aqueles que ainda n\u00e3o se tornaram especialistas, os estudantes, entendam, valorizem, desejem e se apaixonem por aprender. Os pr\u00f3prios governos est\u00e3o a aceitar que \u00e9 preciso que a escola trabalhe com estrat\u00e9gias de organiza\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados muito mais flex\u00edveis. E uma prova disso \u00e9 o facto de na \u00faltima revis\u00e3o legislativa sobre as reformas educativas aparecerem j\u00e1 algumas tentativas para resolver estas tem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Na \u00faltima revis\u00e3o legislativa das administra\u00e7\u00f5es educativas, em Espanha, incorporou-se uma palavra para abranger determinadas tem\u00e1ticas: o curriculo transversal. Ou seja, o curr\u00edculo tem de ter esta e aquela disciplina e, transversalmente, h\u00e1 que incluir educa\u00e7\u00e3o sexual, educa\u00e7\u00e3o para a paz, educa\u00e7\u00e3o para a cidadania, educa\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade, etc&#8230; Podia organizar-se todo o curriculo desta forma, mas o que significaria isto? Na perspectiva do modelo tradicional disciplinar estas seriam dimens\u00f5es formativas importantes que ningu\u00e9m saberia ao certo a quem competiriam. Os programas podiam correr o risco de serem mais conflictivos. A educa\u00e7\u00e3o sexual, por exemplo. Quem a daria? As ci\u00eancias sociais? A biologia? A religi\u00e3o? E como \u00e9 um tema complicado ningu\u00e9m acabaria por tocar-lhe, delegando a responsabilidade nos outros. Os temas mais conflitivos s\u00e3o aqueles que est\u00e3o nas fronteiras das disciplinas.<\/p>\n<p>O que se est\u00e1 tentar dizer \u00e9 que n\u00e3o existe um professor de educa\u00e7\u00e3o sexual. Todas as disciplinas t\u00eam alguma quest\u00e3o relacionada com a educa\u00e7\u00e3o sexual. O que \u00e9 preciso \u00e9 planear um trabalho conjunto, uma educa\u00e7\u00e3o interdisciplinar. O problema \u00e9 que os professores n\u00e3o foram formados assim, s\u00e3o excessivamente disciplinares.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: Ent\u00e3o isso passa por um plano geral de reconvers\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de professores?<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: As pr\u00e1ticas de forma\u00e7\u00e3o de professores devem ser trabalhadas de uma forma mais interdisciplinar. Se um professor ou uma professora foi formado estudando unicamente atrav\u00e9s de disciplinas &#8211; psicologia do desenvolvimento, teoria da educa\u00e7\u00e3o, did\u00e1tica geral, estat\u00edstica, matem\u00e1tica, f\u00edsica, literatura, etc&#8230; &#8211; ele constr\u00f3i j\u00e1 por si um modo de pensar disciplinar. Como consequ\u00eancia, a primeira vez que deseje trabalhar com projectos curriculares integrados ir\u00e1 concerteza ter dificuldades. \u00c9 prov\u00e1vel que n\u00e3o se sinta seguro a trabalhar com um modelo t\u00e3o novo para ele e que isso o leve a convencer-se de que os modelos disciplinares s\u00e3o por si s\u00f3 suficientes.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter consci\u00eancia de que as disciplinas reflectem tamb\u00e9m formas organizativas de poder. Cada professor \u00e9 defensor da sua parcela; pensa que unicamente ele tem possibilidades de falar sobre os conte\u00fados que s\u00e3o sua especialidade; esses conte\u00fados passam a ser os mais importantes que as crian\u00e7as devem aprender e, por essa raz\u00e3o, tratar\u00e1 de fazer com a sua disciplina ocupe o maior n\u00famero de horas no hor\u00e1rio escolar; o seu grupo tratar\u00e1 de conseguir os maiores investimentos econ\u00f3micos, pretendendo que seja considerado o mais importante. Os professores das restantes disciplinas passam a ser entendido como rivais, como competidores, e, em alguns casos, considerados menos importantes para a forma\u00e7\u00e3o integral do aluno.<\/p>\n<p>\u00c9 imprescind\u00edvel que os professores aprendam a ver-se como parte de um projecto colectivo de forma\u00e7\u00e3o; que para ensinar a conhecer a hist\u00f3ria e o presente da sociedade cada um sabe algo que precisa da colabora\u00e7\u00e3o dos saberes dos restantes professores e professoras para ser entendido de forma mais completa. T\u00eam de ser os professores os primeiros a sentir a necessidade da interdisciplinaridade como estrat\u00e9gia para entender e participar no mundo actual. Unicamente as pessoas convencidas da interdisciplinaridade realizam os esfor\u00e7os necess\u00e1rios para trabalhar nas aulas com projectos integrados.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800080;\"><strong><a href=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Julio-fernandez-Arguelles.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-2844\" style=\"margin: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Julio-fernandez-Arguelles.jpg\" alt=\"Julio fernandez Arguelles\" width=\"329\" height=\"436\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Julio-fernandez-Arguelles.jpg 536w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Julio-fernandez-Arguelles-226x300.jpg 226w\" sizes=\"auto, (max-width: 329px) 100vw, 329px\" \/><\/a>P: O professor Jurjo Torres integra diversos movimentos de \u00edndole social, nomeadamente os \u00ab<em>Educadores pola Paz<\/em>\u00bb e na d\u00e9cada de setenta e oitenta foi co-fundador de diversos movimentos de renova\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, como o \u00ab<em>Consejo Educativo<\/em>\u00ab, em Castela-Le\u00e3o, e da \u00ab<em>Associa\u00e7\u00e3o S\u00f3cio-Pedag\u00f3gica Galega<\/em>\u00ab, da qual chegou a ser presidente. Que contributo \u00e9 que eesas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais podem dar com vista a essa mudan\u00e7a?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: Eu creio que eles v\u00eam dando desde h\u00e1 muito. Os movimentos de renova\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica em espanha foram formados por professores e professoras com particular sensibilidade pol\u00edtica e social. S\u00e3o, por assim dizer, professores e professoras com voca\u00e7\u00e3o. Pessoas que se deram conta de que tinham tido sorte na vida em aceder a determinados n\u00edveis culturais, sorte em poder avaliar as situa\u00e7\u00f5es de uma forma diferente das pessoas menos instru\u00eddas e que queriam que cada vez mais pessoas tivessem esses previl\u00e9gios. Grupos com uma grande consci\u00eancia social e \u00e9tica que os levou a renovar a sua pr\u00e1tica em fun\u00e7\u00e3o desses objectivos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" style=\"text-align: justify;\" title=\"Page 5\">\n<div class=\"section\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Ao longo de todo o s\u00e9culo XX n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia de qualquer inova\u00e7\u00e3o educativa importante que n\u00e3o tenha sido concretizada por professores que, sendo docentes, militavam ao mesmo tempo em organiza\u00e7\u00f5es sociais como partidos pol\u00edticos, sindicatos, movimentos comunit\u00e1rios ou organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, etc&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: Mas esses movimentos t\u00eam uma for\u00e7a efectiva? Conseguem imprimir transforma\u00e7\u00f5es?<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: Sim. Se se analisar as \u00faltimas reformas educativas em Espanha &#8211; a lei geral de reforma do sistema educativo espanhol, por exemplo &#8211; elas n\u00e3o partiram de ideias geniais que tenham ocorrido ao ministro ou \u00e0 ministra.<\/p>\n<p>Foram estes colectivos de professores que, durante anos, por exemplo, reclamaram o in\u00edcio da educa\u00e7\u00e3o pr\u00e9- escolar no primeiro ano de vida da crian\u00e7a e n\u00e3o a partir dos tr\u00eas anos, como acontecia. Foram estes colectivos de professores que foram alertando a sociedade no sentido de faz\u00ea-la compreender que a igualdade de oportunidades tamb\u00e9m come\u00e7a por uma aprendizagem de base mais s\u00f3lida. E estas ideias come\u00e7aram a ganhar forma e foram postos em pr\u00e1tica quando os partidos que mais se identificavam com estes movimentos e com estes princ\u00edpios chegaram ao poder.<\/p>\n<p>O mesmo se passou com o conceito de educa\u00e7\u00e3o transversal. Havia colectivos de professores que come\u00e7aram a pensar e a p\u00f4r em pr\u00e1tica novas formas de trabalho interdisciplinar que agora aparecem legitimadas pela actual legisla\u00e7\u00e3o, ao prop\u00f4r que deve existir um curriculo transversal. Estas e outras inova\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma boa prova de que o colectivo docente tem possibilidades de pressionar com \u00eaxito para a mudan\u00e7a aquilo que n\u00e3o considera correcto. A pol\u00edtica oficial vai sempre atr\u00e1s da realidade. A legisla\u00e7\u00e3o costuma legitimar e reconhecer o que j\u00e1 vinha sendo uma realidade, o fruto do trabalho dos grupos mais activos.<\/p>\n<p>Qualquer hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o contada com rigor tem de reconhecer que as principais inova\u00e7\u00f5es educativas foram ensaiadas sempre por grupos de professores e professores mais sensibilizados. Perante as injusti\u00e7as sociais que detectavam, procuravam encontrar solu\u00e7\u00f5es; n\u00e3o esperavam que o estado e as legisla\u00e7\u00f5es educativas fizessem algo para as resolver. Pelo contr\u00e1rio, come\u00e7avam desde logo a actuar e a for\u00e7ar o estado, a classe pol\u00edtica, a procurar modos de solucionar essas injusti\u00e7as.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: Na l\u00f3gica dessa trocas de opini\u00f5es, e partindo dos contactos que vai estabelecendo com outros educadores, que experi\u00eancias tem retirado?<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: Os colectivos de professores v\u00e3o aprendendo, experimentando e cometendo erros. A educa\u00e7\u00e3o para o racismo \u00e9 um exemplo. N\u00e3o nos ocorre pensar que a chave para a elimina\u00e7\u00e3o do racismo est\u00e1 no sistema educativo. N\u00e3o \u00e9 o \u00fanico meio, claro, mas ele pode dar um contributo fundamental e decisivo. Num primeiro momento tentamos fazer algumas experi\u00eancias, introduzindo algumas mudan\u00e7as nos programas que, por vezes, n\u00e3o davam resultados. Mas \u00edamos experimentando e vendo que atrav\u00e9s de outras formas at\u00e9 resultavam melhor.<\/p>\n<p>E isto passa-se um pouco por todo o mundo com os colectivos de docentes que trabalham estas mat\u00e9rias. Somos um dos colectivos com mais possibilidades de tomar consci\u00eancia dos grandes problemas sociais, j\u00e1 que as fam\u00edlias com as quais trabalhamos, as que nos enviam para a escola os seus filhos e filhas, fazem-nos conscientes dos problemas que t\u00eam para viver.<\/p>\n<p>Nesse sentido, vamos aprendendo \u00e0 medida que vamos reflectindo e chegando \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o existem grandes f\u00f3rmulas e que se torna necess\u00e1rio avaliar bem o que estamos a fazer, n\u00e3o ter medo e reconhecer que cometemos erros.<br \/>\nUma das grandes lacunas que marca estes colectivos de professores \u00e9 o facto de n\u00e3o haver redes que nos liguem, onde se aprenda n\u00e3o s\u00f3 sobre a nossa experi\u00eancia mas tamb\u00e9m sobre o que fazem outros grupos, noutros lugares.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\"><span style=\"color: #800080;\">P: \u00c9 ent\u00e3o importante que se multipliquem encontros como o que fal\u00e1mos no in\u00edcio da entrevista?<\/span> <\/span><\/p>\n<p><strong>JTS<\/strong>: Sem d\u00favida. Fazer com que n\u00e3o tenhamos de reinventar a roda, isto \u00e9, aprender com experi\u00eancias e tomadas decis\u00f5es levadas a cabo noutros lugares, dando a conhecer, ao mesmo tempo, as nossas pr\u00f3prias experi\u00eancias, vit\u00f3rias e fracassos. Temos de aprender a ser um pouco humildes e reconhecer que podemos aprender com experi\u00eancias de toda as partes do mundo. E isso faz-se n\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s de encontros, como tamb\u00e9m atrav\u00e9s de publica\u00e7\u00f5es, como a P\u00e1gina. O conhecimento s\u00f3 se pode ir construindo atrav\u00e9s dos contactos e da troca de experi\u00eancias.<\/p>\n<p>No mundo da educa\u00e7\u00e3o, no entanto, essa comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 mais lenta e h\u00e1 menos tradi\u00e7\u00e3o em verificar como os problemas que nos preocupam s\u00e3o resolvidos noutros lados e tentar aprender atrav\u00e9s deles. Esta pr\u00e1tica adv\u00e9m em boa parte das pr\u00f3prias pr\u00e1ticas das escolas de forma\u00e7\u00e3o de professores, mas vai-se esbatendo lentamente. Neste sentido penso que temos vantagens sobre os povos que vivem situa\u00e7\u00f5es conflitivas e com maiores n\u00edveis de subdesenvolvimento.<\/p>\n<p>Outras vezes acontece o contr\u00e1rio. Costumo viajar para os Estados Unidos e para o Reino Unido e verifico como esses pa\u00edses tem um defeito: s\u00e3o demasiadamente orgulhosos para tentarem aprender algo com os outros. Creio que povos como os nossos, os galegos, os espanh\u00f3is ou os portugueses, t\u00eam maior capacidade para aprender com os outros. Neste contexto creio que seria imposs\u00edvel exportar ideias da europa para os Estados Unidos.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold; color: #800080;\">P: Tomam-se de certa maneira como modelos&#8230;\u00a0<\/span><\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 5\">\n<div class=\"section\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p><strong>JTS<\/strong>: Eu creio que sim, consideram-se auto-suficientes. E nesse aspecto penso que temos vantagens. Somos mais perme\u00e1veis a ideias, venham elas de onde vierem; avaliamo-las e, se as consideramos \u00fateis, levamo-los \u00e0 pr\u00e1tica sem complexos e sem lutar pela sua propriedade ou copyright?. A hist\u00f3ria \u00e9 fruto do que umas gera\u00e7\u00f5es foram aprendendo e transmitindo \u00e0s seguintes. Vamos nos ombros de quem nos procedeu ou j\u00e1 experimentou algo que mere\u00e7a a pena.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"><a href=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Judi-Stokes-Artifacts.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-2829\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Judi-Stokes-Artifacts.jpg\" alt=\"Judi Stokes - &quot;Artifacts&quot;\" width=\"551\" height=\"397\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Judi-Stokes-Artifacts.jpg 837w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Judi-Stokes-Artifacts-300x216.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 551px) 100vw, 551px\" \/><\/a>.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abA escola sempre esteve e estar\u00e1 desajustada\u00bb . Entrevista a Jurjo Torres,\u00a0conduzida por Ricardo Jorge Costa . . 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