{"id":1685,"date":"2013-09-06T18:10:00","date_gmt":"2013-09-06T20:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/jurjotorres.com\/?p=1685"},"modified":"2017-04-16T17:33:10","modified_gmt":"2017-04-16T15:33:10","slug":"educar-e-gerar-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jurjotorres.com\/?p=1685","title":{"rendered":"\u201cEducar \u00e9 gerar sonhos\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #339966;\">\u201cEducar \u00e9 gerar sonhos\u201d<\/span><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Pedro Ribeiro Nogueira entrevista a Jurjo Torres Santom\u00e9<\/span><\/h3>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #993366;\"><strong>Portal Aprendiz<\/strong> \/ A cidade \u00e9 uma escola<\/span><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right;\">Brasil, 5 de Setembro de 2013<\/h4>\n<p><a href=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/logo-Portal-Aprendiz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1692 alignleft\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/logo-Portal-Aprendiz.jpg\" alt=\"logo Portal Aprendiz\" width=\"357\" height=\"79\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/logo-Portal-Aprendiz.jpg 357w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/logo-Portal-Aprendiz-300x66.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 357px) 100vw, 357px\" \/><\/a><\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #993366;\">\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5 style=\"padding-left: 90px; text-align: right;\"><span style=\"color: #800080;\">\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #800080;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: 13px; font-weight: normal;\">http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/2013\/09\/05\/jurjo-torres-educar-e-gerar-sonhos\/<\/span><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: 13px; font-weight: normal;\">\u00a0<\/span><\/span><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantos problemas do mundo n\u00e3o partem da forma como estruturamos nossas escolas e o conhecimento? \u00a0Essa \u00e9 uma das perguntas fundamentais feitas pelo professor espanhol Jurjo Torres Santom\u00e9, que recentemente lan\u00e7ou no Brasil seu livro \u201cCurr\u00edculo Escolar e Justi\u00e7a Social\u201d, pela editora Penso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santom\u00e9, que \u00e9 diretor do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o e coordenador do grupo de pesquisa em Inova\u00e7\u00e3o Educacional da Universidade de La Coru\u00f1a, aponta em seu livro os \u201csentidos ocultos\u201d da educa\u00e7\u00e3o, respons\u00e1veis muitas vezes por gerar conhecimentos que alimentam preconceitos, padr\u00f5es normativos e seres humanos competitivos e pouco solid\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma alternativa, segundo ele, estaria na capacidade das comunidades, escolas, pais e mestres, criarem metodologias que ensinassem os jovens a trabalhar juntos, a respeitar as diferen\u00e7as e, acima de tudo, pensar sobre o mundo no qual est\u00e3o inseridos, de forma cr\u00edtica, por\u00e9m otimista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista por e-mail ao <strong>Portal Aprendiz<\/strong>, o professor ressaltou que seus pensamentos partem da experi\u00eancia espanhola e que em educa\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o h\u00e1 receita m\u00e1gica\u201d. Mas suas conclus\u00f5es sobre os pap\u00e9is desempenhados pela educa\u00e7\u00e3o formal, livros did\u00e1ticos e professores, podem ser \u00fateis para pensar a realidade brasileira do ensino. Acompanhe:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Portal Aprendiz: O subt\u00edtulo de seu livro encara o curr\u00edculo escolar como um \u201cCavalo de Troia\u201d. Qual a ideia por tr\u00e1s de tal afirma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Jurjo Torres Santom\u00e9:<\/strong> Eu vinculo a ideia do Cavalo de Troia ao papel que desempenham nas aulas \u2013 tanto para o alunado como, em numerosas ocasi\u00f5es, para o professorado \u2013 os livros e manuais did\u00e1ticos usados no ambiente escolar. Se analisarmos detalhadamente os conte\u00fados desses livros, muitas vezes impostos como obrigat\u00f3rios, e as interpreta\u00e7\u00f5es que as editoras fazem deles, encontraremos um mundo completamente segregado e, no caso espanhol, com an\u00e1lises da realidade politicamente muito conservadoras, classistas, sexistas, cat\u00f3licas, racistas, nacionalistas, adultoc\u00eantricas, homof\u00f3bicas, militaristas, euroc\u00eantricas e infantilizadas. Isso tanto nos textos quanto nas ilustra\u00e7\u00f5es. Logicamente o professorado confia na objetividade, rigor cient\u00edfico e neutralidade dessas obras, mas um m\u00ednimo de an\u00e1lise de conte\u00fado faz com que essas dimens\u00f5es ocultas aflorem, no melhor estilo Cavalo de Troia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Portal Aprendiz: O senhor afirma que a educa\u00e7\u00e3o formal no campo muitas vezes serve como uma motiva\u00e7\u00e3o para o \u00eaxodo rural. Como pensar em uma educa\u00e7\u00e3o rural que n\u00e3o seja mais uma raz\u00e3o para a sa\u00edda do campo para as cidades?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Torres:<\/strong> Efetivamente, ao menos na Espanha e no resto da Europa, a educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m contribuiu ao \u00eaxodo, uma vez que nos conte\u00fados e as explica\u00e7\u00f5es da realidade apresentados aos estudantes, tanto nos livros como demais materiais, a vida urbana \u00e9 absolutamente dominante. O mundo rural, quando aparece, o faz desde um ponto de vista da pessoa da cidade que, aos finais de semana ou quando est\u00e1 de f\u00e9rias, se dirige ali para descansar e contemplar a natureza e outras esp\u00e9cies de animais. \u00a0As crian\u00e7as acabam por conhecer como se vive nas cidades, que trabalhos existem ali mas pelo ponto de vista das classes sociais altas e m\u00e9dias.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/educa%C3%A7%C3%A3o-no-campo-portal-ufpa.jpg\" rel=\"lightbox[35656]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"educa\u00e7\u00e3o no campo\/Cr\u00e9ditos: Portal ufpa\" src=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/educa%C3%A7%C3%A3o-no-campo-portal-ufpa.jpg\" alt=\"\" width=\"421\" height=\"248\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">\u00abO que \u00e9 trabalhado em sala convence o aluno que onde melhor se vive \u00e9 na cidade\u00bb<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00e3o informados, nem nos ajudamos a saber porque a vida \u00e9 mais dura no mundo rural e nas pequenas cidades que vivem da pesca \u2013 assim como nas favelas e bairros vulner\u00e1veis. Porque existem menos facilidades para viver com dignidade, menos recursos culturais e educativos, menos m\u00e9dicos, menos op\u00e7\u00f5es de trabalho, piores sal\u00e1rios etc. N\u00e3o s\u00e3o incentivados a investigar esse mundo e muito menos a descobrir como se pode melhorar essa realidade injusta. Os recursos informativos que s\u00e3o trabalhados na sala de aula, no fundo, s\u00f3 convencem ao alunado que onde melhor se vive \u00e9 na cidade e, portanto, que esse \u00e9 o destino a ser aspirado. \u00a0Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 justificada pelas necessidades de m\u00e3o de obra nas f\u00e1bricas, o que possibilitou, principalmente na Europa, EUA e Canad\u00e1, a revolu\u00e7\u00e3o industrial do s\u00e9culo 19 e em grande parte do 20. Mas esta filosofia tamb\u00e9m foi assimilada em grande medida pelo resto dos pa\u00edses do mundo, j\u00e1 que seus materiais did\u00e1ticos costumam se inspirar naqueles de realidades mais industriais. Mas, na atualidade, penso que este modelo de megacidades deveria ser revisto, j\u00e1 que as novas revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas n\u00e3o se baseiam no modelo da constru\u00e7\u00e3o de grandes f\u00e1bricas para centenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portal Aprendiz: A escola ensina mais que as disciplinas? Quais s\u00e3o seus sentidos ocultos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Torres<\/strong>: Sim, de fato, a escola ensina muito mais, tal como tentei demonstrar em meu outro livro, El curr\u00edculum oculto [O curr\u00edculo oculto]. \u00c9 uma tem\u00e1tica que reaparece em todas minhas investiga\u00e7\u00f5es e publica\u00e7\u00f5es. Fundamentalmente s\u00e3o aprendizagens n\u00e3o intencionais, ou seja, que n\u00e3o est\u00e3o no programa do professor de uma maneira expressa. S\u00e3o as consequ\u00eancias das cosmovis\u00f5es e ideologias nas quais fomos educados e assumimos como \u201cnaturais\u201d, \u201c\u00f3bvias\u201d e \u201cl\u00f3gicas\u201d. Uma ideologia, quando se torna hegem\u00f4nica, se plasma em determinadas pr\u00e1ticas, rotinas, tradi\u00e7\u00f5es, motiva\u00e7\u00f5es e interesses que, de uma maneira consciente e reflexiva, n\u00f3s n\u00e3o tratamos de trazer \u00e0 luz, investigar, analisar e questionar. Esses tipos de tarefas que programamos e que cremos que s\u00e3o educativas pois s\u00e3o partes do \u201csenso comum\u201d, \u201csempre foram assim\u201d, \u201caprendi assim\u201d, s\u00e3o as que seguem propondo os livros did\u00e1ticos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/crianca-livro-lousa-leitura-ler-HG%C2%A9-Picture-Factory-Fotolia.jpg\" rel=\"lightbox[35656]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"crian\u00e7a livro leitura best sellers HL\/ Cr\u00e9ditos: Picture Factory - Fotolia\" src=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/crianca-livro-lousa-leitura-ler-HG%C2%A9-Picture-Factory-Fotolia-260x176.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"176\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">\u00abA realidade nos mostra que de nossas aulas seguem saindo estudantes muito competitivos, n\u00e3o solid\u00e1rios, n\u00e3o cooperativos, n\u00e3o democr\u00e1ticos\u00bb<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 que acontece, por exemplo, quando ficamos obcecados com que os estudantes aprendam de mem\u00f3ria determinados conte\u00fados, que realizem certas tarefas em seus cadernos, sem parar para pensar se essa tarefa \u00e9 importante, sem prestar aten\u00e7\u00e3o reflexiva ao porqu\u00ea, com que finalidade, com quem, com que outros poss\u00edveis recursos se poderia contar, \u00a0que tarefas alternativas poderiam lhe auxiliar a entender melhor e com mais profundidade esse tema de estudo, em que medida est\u00e1 aprendendo a trabalhar em equipe, a pensar criticamente etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A realidade quando analisada nos mostra que de nossas aulas seguem saindo estudantes muito competitivos, n\u00e3o solid\u00e1rios, n\u00e3o cooperativos, n\u00e3o democr\u00e1ticos. Estudantes que enganam (ao menos na Espanha seguem enganando seus professoras e professoras ao \u2018colar\u2019 nas provas, plagiar trabalhos escolares, mentindo e, o que \u00e9 mais grave, ocultando suas dificuldades e erros). Isso significa que n\u00e3o estamos educando e sim \u2018mal-educando\u201d. Obviamente, nenhum docente tem estes resultados em seu programa, na sua lista de objetivos a conquistar. Por isso batizamos esse mecanismo de \u201ccurr\u00edculo oculto\u201d, ou seja, aquelas aprendizagens que acontecem na aula \u201csem querer\u201d, o que \u00e9 ainda mais frustrante quando o que pretend\u00edamos era educar pessoas democr\u00e1ticas, pensativas, cr\u00edticas e solid\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Portal Aprendiz: Como a comunidade, na qual a escola est\u00e1 inserida, pode ajudar a constituir um programa escolar? E os pais? Quais s\u00e3o os impactos de tal participa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Torres<\/strong>: Para mim est\u00e1 \u00e9 uma de nossas tarefas urgentes e tema de meu \u00faltimo livro. Todos n\u00f3s devemos nos dar conta de que educar \u00e9 parte de um projeto pol\u00edtico destinado a construir o futuro da sociedade da qual somos parte. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos projetos mais otimistas que existem e temos a obriga\u00e7\u00e3o de participar. \u00c9 um ato de amor \u00e0 \u00a0inf\u00e2ncia e \u00e0 juventude, pois se trata de lhes ensinar como \u00e9 o mundo, porque ele \u00e9 assim, que coisas e produ\u00e7\u00f5es culturais valem a pena, mas tamb\u00e9m que desigualdades e injusti\u00e7am caracterizam nossa sociedade e, a partir da\u00ed, debater como deveria ser, como gostar\u00edamos que fosse nossa comunidade e o mundo em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 l\u00f3gico que, tanto neste debate \u2013 como na tomada de decis\u00f5es posteriores e implementa\u00e7\u00e3o de medidas de apoio para tornar realidade essa educa\u00e7\u00e3o emancipadora e liberadora -, todos temos que nos envolver e colaborar: professores, fam\u00edlias, organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, outros profissionais e, claro, os poderes locais. Se trata de construir uma comunidade ou cidade educadora, da qual as escolas s\u00e3o seu recurso principal, mas tampouco o \u00fanico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nossa tarefa educativa fundamental aprender a envolver os pais e m\u00e3es, pois sem sua colabora\u00e7\u00e3o, nosso trabalho nas aulas \u00e9 muito mais dif\u00edcil e pobre. \u00c9 importante gerar um clima de otimismo e expectativas altas especialmente com as fam\u00edlias mais pobres e vulner\u00e1veis, e, \u00a0que todas as crian\u00e7as vejam sua fam\u00edlia com um papel importante neste projeto educativo. Caso contr\u00e1rio, \u00e9 muito f\u00e1cil que tenha lugar outro aprendizado oculto bastante injusto: aprender a culpar sua fam\u00edlia por todos os problemas e, por consequ\u00eancia, odi\u00e1-la. \u00a0Muitos jovens acabam por desenvolver esse tipo de comportamento, de aprendizado oculto, pois os livros did\u00e1ticos falam de um modelo de fam\u00edlia muito diferente do seu, causando que at\u00e9 sintam vergonha de suas fam\u00edlias. Infelizmente, ainda temos muitas escolas que n\u00e3o prestam qualquer aten\u00e7\u00e3o a essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Portal Aprendiz: Em 2012, um projeto do governo brasileiro tentou criar uma s\u00e9rie de materiais para falar com os jovens sobre homofobia. Ele foi nomeado, por setores religiosos, de \u201ckit gay\u201d e nunca foi levado \u00e0s escolas. Em sua opini\u00e3o, como os materiais did\u00e1ticos influenciam na forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Torres<\/strong>: Este \u00e9 um bom exemplo dessa agenda homof\u00f3bica e de como os livros did\u00e1ticos funcionam como cavalos de Troia, ao n\u00e3o falar abertamente de tais quest\u00f5es. Pensamos que estes livros cont\u00e9m verdades cient\u00edficas, coisas interessantes, qualidade, objetividade e tudo mais, pois seriam escritos por pessoas inteligentes ou s\u00e1bias. Mas n\u00e3o somos educados para analisar criticamente essas informa\u00e7\u00f5es ali apresentadas, n\u00e3o somos acostumados a pensar que todos os autores e autoras, pesquisadores e pesquisadoras, professores e professoras, enfim, s\u00e3o todos seres humanos com falha, ideologias, cren\u00e7as, lacunas informativas, interesses particulares, falsas expectativas e deforma\u00e7\u00f5es no conhecimento que constru\u00edmos e ensinamos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/LGBT-diversidade-%C2%A9-nito-Fotolia.jpg\" rel=\"lightbox[35656]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"gay V sign\" src=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/LGBT-diversidade-%C2%A9-nito-Fotolia-260x121.jpg\" alt=\"LGBT diversidade homofobia\/Cr\u00e9ditos: Nito\/Fotolia\" width=\"260\" height=\"121\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">\u00abOcultar que existem pessoas gays equivale a desinformar e converter em homof\u00f3bicos todos os seres humanos\u00bb<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que uma de minhas pretens\u00f5es \u00e9 a de convencer ao professorado de que devem analisar minuciosamente que modelo de realidade e interpreta\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia e dos modos de organizar e funcionar em nossa sociedade estamos apresentando como objetivas, racionais e cient\u00edficas. Assim saberemos quais s\u00e3o as vis\u00f5es que silenciamos, ignoramos ou deformamos. Ou seja, \u00e9 preciso que n\u00f3s, enquanto docentes, nos interroguemos e ensinemos os nossos alunos a interrogar suas fontes informativas: Quem fala? Quem nunca aparece? Quem deformamos e manipulamos? Quem n\u00f3s estamos invisibilizando e apresentando como natural? O que estamos ocultando?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros de apoio s\u00e3o uma ferramenta fundamental na constru\u00e7\u00e3o do \u201csenso comum\u201d, do que merece pena e do que est\u00e1 mau. Ocultar que existem pessoas bissexuais, gays, l\u00e9sbicas e transsexuais equivale a desinformar e converter em homof\u00f3bicos todos os seres humanos, algo que com certeza alguns setores ultracat\u00f3licos e fundamentalistas defendem.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong> Portal Aprendiz: A tecnologia, para muitas pessoas, emerge como salvadora. Como voc\u00ea avalia sua presen\u00e7a na vida dos estudantes e no ambiente escolar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Torres<\/strong>: A tecnologia \u00e9 imprescind\u00edvel como recurso, pois \u00e9 um instrumento decisivo para nossa comunica\u00e7\u00e3o, como recurso informativo e tamb\u00e9m para intervir sobre a realidade. Mas \u00e9 um recurso, n\u00e3o um fim da educa\u00e7\u00e3o. Suas novas linguagens e fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o algo que o alunado deve aprender a dominar e utilizar criticamente. O perigo \u00e9 converter este recurso na finalidade principal da educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos esquecer que essas tecnologias sup\u00f5em um importante neg\u00f3cio para muitas multinacionais e empresas que as fabricam. E a pol\u00edtica dessas corpora\u00e7\u00f5es passa por nos convencer que se um estudante adquire e sabe utilizar determinado software, navegar, enviar mensagens, postar algo no Facebook ou no Twitter, j\u00e1 est\u00e1 educado. Mas a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 ensinar a utilizar de maneira reflexiva, cr\u00edtica e cooperativa estes recursos, tal qual fazemos com escrever no papel, consultar bibliotecas, ler livros, revistas e jornais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos diante de aparatos que s\u00e3o decisivos em nossa vida, mas queremos que sejam utilizados como recursos que nos facilitam a vida, a nosso servi\u00e7o, ou seja, n\u00e3o para nos transformar em escravos e, de forma concreta, daqueles que os desenham e vendem. S\u00e3o um recurso a mais, tal como os livros, as m\u00e1quinas de escrever, os discos, as fitas de \u00e1udio e v\u00eddeo, os toca-discos, projetores de cinema, televis\u00f5es, m\u00e1quinas de xerox etc.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong> Portal Aprendiz: Como a escola pode trabalhar efetivamente a quest\u00e3o da diversidade humana e cultural?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Torres<\/strong>: \u00c9 precisamente tornando-a vis\u00edvel e valorizada. Apresentando aos estudantes uma sociedade em que existem meninos e meninas, adolescentes, adultos, pessoas de terceira e quarta idade e pessoas que pertencem a distintas classes sociais e que, portanto, algumas t\u00eam mais facilidades e outras sofrem maiores desigualdades e injusti\u00e7as. Mostrar que h\u00e1 diferentes sexualidades, mas nem todas s\u00e3o tratadas com o mesmo respeito. Que temos diferentes capacidades, mas todos somos necess\u00e1rios e valemos a pena; que existem pessoas com enfermidades ps\u00edquicas ou f\u00edsicas, que pertencem a diferentes etnias ou ra\u00e7as, mas que somos todos iguais e temos os mesmos direitos; que compartilhamos a vida e os recursos de um mesmo planeta e que \u00e9 nossa obriga\u00e7\u00e3o conservar tais recursos da natureza para que tamb\u00e9m as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es as tenham a sua disposi\u00e7\u00e3o. Quer dizer, trabalhando com nossas alunas e alunos no conhecimento e an\u00e1lise das distintas conven\u00e7\u00f5es de Direitos Humanos que fomos aprovando como o m\u00ednimo necess\u00e1rio para conviv\u00eancia, respeito e colabora\u00e7\u00e3o na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). Ensinar que essas conven\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m precisam ser melhoradas, para incluir aus\u00eancias bastante graves, como a conven\u00e7\u00e3o dos direitos das pessoas homossexuais, o direito \u00e0 \u00a0informa\u00e7\u00e3o e ao conhecimento, os direitos das outras esp\u00e9cies de animais e da natureza etc.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/cotas_HL.jpg\" rel=\"lightbox[35656]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Cotas \/ Cr\u00e9dito: Unclesam\/Fotolia\" src=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/cotas_HL-260x176.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"176\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">\u00ab\u00c9 verdadeiramente injusto que em pleno s\u00e9culo 21 ainda permitamos a exist\u00eancia de col\u00e9gios que segregam\u00bb<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que tudo isso que afirmei aconte\u00e7a, precisamos que os estudantes estejam agrupados e trabalhando juntos de um modo inclusivo, ou seja, \u00e9 verdadeiramente injusto que em pleno s\u00e9culo 21 ainda permitamos a exist\u00eancia de col\u00e9gios que segregam por sexo, por capacidades (escolas \u201cnormais\u201d e para \u201csuperdotados\u201d, por exemplo), por classe social ou cren\u00e7as religiosas. Os col\u00e9gios p\u00fablicos s\u00e3o o melhor espa\u00e7o para levar a cabo projetos curriculares antirracistas, antisexistas, anticlassistas, n\u00e3o homof\u00f3bicos e laicos. \u00c9 um espa\u00e7o privilegiado para aprender a viver, trabalhar e colaborar juntos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Portal Aprendiz: Como garantir uma forma\u00e7\u00e3o de professores que contribua com tudo isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Torres<\/strong>: Estou convencido de que a melhor estrat\u00e9gia \u00e9 incorporando todas estas tem\u00e1ticas que venho comentando nesta entrevista nos programas de forma\u00e7\u00e3o inicial do professorado nas universidades, assim como nos programas de atualiza\u00e7\u00e3o e dinamiza\u00e7\u00e3o dos profissionais que j\u00e1 est\u00e3o em atividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Portal Aprendiz: Voc\u00ea destacaria alguma experi\u00eancia ou boa pr\u00e1tica de educa\u00e7\u00e3o emancipadora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Torres<\/strong>: Qualquer projeto curricular ou experi\u00eancia educativa capaz de gerar sonhos nos estudantes. Uma educa\u00e7\u00e3o em que meninas e meninos aprendam a conhecer bem como \u00e9 seu mundo e que ao mesmo tempo os incentive a pensar alternativas, a gerar capacidades de imaginar, inclusive outros futuros melhores. Uma pr\u00e1tica educativa que fa\u00e7a o alunado sentir que \u201csim, podemos\u201d, algo que metodologias mais ativas, baseadas em projetos de investiga\u00e7\u00e3o, fazem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/%C2%A9-konradbak-Fotolia1.jpg\" rel=\"lightbox[35656]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Cr\u00e9ditos: Konrad Bak\/Fotolia\" src=\"http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/%C2%A9-konradbak-Fotolia1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">\u00abPrecisamos gerar capacidades de imaginar, inclusive outros futuros melhores\u00bb<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos intervir no presente, tal como outras pessoas no passado se arriscaram a fazer. Uma pedagogia do otimismo e do empoderamento se baseia em incindir em todos os assuntos do passado e do presente, vendo que as melhoras da sociedade s\u00f3 foram conquistadas com muitas lutas por justi\u00e7a. \u00c9 preciso fomentar perguntas e enfoques que incidam no que fazer, como fazer e onde localizar ajuda, com quais recursos e dando quais passos. E n\u00e3o somente quem fez tal ou qual coisa, onde e como, pois assim \u00e9 muito mais f\u00e1cil fomentar a passividade e se sentir \u00e0 margem e sem poder. Neste sentido, um curr\u00edculo integral e integrado \u00e9 uma estrat\u00e9gia indispens\u00e1vel, pois interconecta todas dimens\u00f5es poss\u00edveis de conhecimento e aprendizagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, uma educa\u00e7\u00e3o emancipadora \u00e9 sempre muito cr\u00edtica e, ao mesmo tempo, otimista, pois deve ajudar a nos dotar de confian\u00e7a para seguir aprendendo e melhorando. Voc\u00eas tem a\u00ed no Brasil o valioso legado de Paulo Freire e sua pedagogia que caminha nesta dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>\u00a0<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEducar \u00e9 gerar sonhos\u201d &nbsp; Pedro Ribeiro Nogueira entrevista a Jurjo Torres Santom\u00e9 Portal Aprendiz \/ A cidade \u00e9 uma escola Brasil, 5 de Setembro de 2013 \u00a0 \u00a0 http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/2013\/09\/05\/jurjo-torres-educar-e-gerar-sonhos\/\u00a0 Quantos problemas do mundo n\u00e3o partem da forma como estruturamos nossas escolas e o conhecimento? \u00a0Essa \u00e9 uma das perguntas fundamentais feitas pelo professor espanhol [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[73,37,100],"class_list":["post-1685","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacion","tag-curriculum-escolar","tag-httpwww-edmorata-esautortorres-santome-jurjo","tag-politicas-educativas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1685","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1685"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1685\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5299,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1685\/revisions\/5299"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jurjotorres.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}