{"id":1056,"date":"2013-06-02T13:27:52","date_gmt":"2013-06-02T15:27:52","guid":{"rendered":"http:\/\/jurjotorres.com\/?p=1056"},"modified":"2017-04-16T17:38:19","modified_gmt":"2017-04-16T15:38:19","slug":"politica-educativa-multiculturalismo-e-praticas-culturais-democraticas-nas-salas-de-aula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jurjotorres.com\/?p=1056","title":{"rendered":"Pol\u00edtica educativa, multiculturalismo e pr\u00e1ticas culturais democr\u00e1ticas nas salas de aula"},"content":{"rendered":"<h2><span style=\"color: #0000ff;\">Pol\u00edtica educativa, multiculturalismo e pr\u00e1ticas culturais democr\u00e1ticas nas salas de aula<\/span><\/h2>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #993366;\">Jurjo Torres Santom\u00e9<\/span><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><b><a href=\"http:\/\/jurjotorres.com\/?attachment_id=1093\" rel=\"attachment wp-att-1093\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1093\" style=\"margin-left: 20px; margin-right: 20px;\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/rev4grd-1.jpg\" alt=\"rev4grd-1\" width=\"168\" height=\"229\" \/><\/a><\/b><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: right;\"><b>Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o<\/b>. (S\u00e3o Paulo &#8211; Brasil), N\u00ba. 4 (Janeiro-Abril, 1997) p\u00e1gs. 5-25.<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trabalho apresentado na XIX Reuni\u00e3o Anual da ANPEd, Caxambu, setembro de 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elaborar uma proposta curricular obriga a participar da reflex\u00e3o sobre que tipo de cidad\u00e3os e cidad\u00e3s e de sociedade queremos construir. Essa \u00e9, sem d\u00favida, uma das quest\u00f5es mais importantes que cabe colocar no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o e que nos obriga a realizar uma s\u00e9rie de tarefas pr\u00e9vias destinadas a analisar o presente, averiguar como s\u00e3o hoje nossas sociedades, que problemas aparecem como mais urgentes, quais s\u00e3o as causas das situa\u00e7\u00f5es injustas que detectamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse tipo de informa\u00e7\u00e3o a respeito do mundo em que vivemos \u00e9 vital para qualquer professora ou professor. Nas salas de aula, uma das tarefas realmente importantes que o professorado leva a cabo \u00e9 oferecer ao alunado parcelas da realidade para sua an\u00e1lise e conhecimento; da\u00ed a urg\u00eancia de se manter atento e fomentar um constante esp\u00edrito cr\u00edtico perante esse tipo de processos seletivos e escolhas com finalidade exemplificativa com que as institui\u00e7\u00f5es escolares operam. Ningu\u00e9m desconhece que, para o coletivo docente, esse \u00e9 um dever j\u00e1 complicado por si s\u00f3 e ao qual h\u00e1 ainda que se acrescentar todo um grande conglomerado de tarefas e rotinas que s\u00e3o consubstanciais com a fun\u00e7\u00e3o did\u00e1tica nas salas de aula, com a cria\u00e7\u00e3o de um ambiente que estimule processos de ensino e aprendizagem. Poucos trabalhos profissionais precisam atender a tantos focos de aten\u00e7\u00e3o como o da doc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desenvolver projetos curriculares nas salas de aula obriga a estar alerta a um sem-n\u00famero de quest\u00f5es: as tarefas que cada um dos meninos e meninas executam, o acompanhamento de suas realiza\u00e7\u00f5es, do que sabem e do que ainda \u00e9 inintelig\u00edvel para eles; detectar suas percep\u00e7\u00f5es da realidade, valora\u00e7\u00f5es, expectativas e pr\u00e9-julgamentos; a aprecia\u00e7\u00e3o de seu desenvolvimento social e emocional e das situa\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas que afetam suas inte- ra\u00e7\u00f5es sociais. O professorado precisa se dedicar a esse tipo de investiga\u00e7\u00e3o nas salas de aula e, ao mesmo tempo, tem de destinar tempo a leituras, semin\u00e1rios de atualiza\u00e7\u00e3o constante, trabalho em equipe de planejamento, acompanhamento e avalia\u00e7\u00e3o dos projetos curriculares com os quais est\u00e1 necessariamente comprometido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, al\u00e9m de tudo isso, tem de estar muito bem informado sobre quest\u00f5es culturais, trabalhistas, econ\u00f4micas e pol\u00edticas que s\u00e3o imprescind\u00edveis para alcan\u00e7ar uma compreens\u00e3o adequada da co- munidade e do mundo em que vive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante tal ac\u00famulo de deveres, o professorado tende a ser seletivo em seus focos de aten\u00e7\u00e3o. Todavia, nos \u00faltimos anos, a forte press\u00e3o dos discursos e pol\u00edticas tecnocr\u00e1ticas est\u00e3o tratando de convenc\u00ea-lo de que seu trabalho profissional \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de aprender determinadas t\u00e9cnicas did\u00e1ticas, tais como realizar programa\u00e7\u00f5es, adaptar projetos curriculares elaborados pelas editoras de livros-texto at\u00e9 faz\u00ea-los parecer projetos curriculares de centro educacional e de sala de aula, elaborar controles ou provas de avalia\u00e7\u00e3o para detectar o rendimento de cada um dos meninos e meninas da classe, estabelecer uma s\u00e9rie de normas disciplinares etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um constante bombardeio de propaganda ideol\u00f3gica neoliberal e decis\u00f5es pol\u00edticas conservadoras pretendem menosprezar a fun\u00e7\u00e3o de intelectuais que compete \u00e0s professoras e professores exercer. Essa neglig\u00eancia para com seu papel como intelectuais \u00e9 favorecida (ainda que muitas vezes n\u00e3o seja essa a pretens\u00e3o) por certos discursos psicol\u00f3gicos e did\u00e1ticos que, com a id\u00e9ia de apresentar novas conceitualiza\u00e7\u00f5es, modelos ou metodologias, recorrem \u00e0 estr\u00e9ia cont\u00ednua de novos jarg\u00f5es, que para nada servem al\u00e9m de desviar a aten\u00e7\u00e3o do professorado para quest\u00f5es pouco relevantes e fazer as autenticamente importantes parecerem fora de moda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos momentos de mudan\u00e7a, profundas transforma\u00e7\u00f5es sociais est\u00e3o em curso na maioria das sociedades, em grande medida como conseq\u00fc\u00eancia das inova\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00f5es nas estruturas produtivas e de consumo. Id\u00e9ias e utopias que at\u00e9 h\u00e1 pouco orientavam e serviam de eixo vertebrador a discursos e pr\u00e1ticas libertadoras v\u00eam sendo rifadas quase sem que se disponha de argumentos v\u00e1lidos para isso. Estes s\u00e3o momentos de perplexidade e \u00e9 tamb\u00e9m agora que a reflex\u00e3o e o debate coletivo se tornam inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Urge recuperar para a fun\u00e7\u00e3o docente a concep\u00e7\u00e3o gramsciana de intelectual, neste momento\u00a0em que os discursos e epistemologias dominantes pretendem recortar seu papel at\u00e9 deix\u00e1-la reduzida a dimens\u00f5es t\u00e9cnicas e de gest\u00e3o burocr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intelectual \u00e9 algu\u00e9m dotado de faculdades para representar, organizar e articular mensagens, vis\u00f5es da realidade, atitudes, filosofias e opini\u00f5es de, assim como para, um determinado p\u00fablico (Said, 1994, p. 11). O exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o de intelectual pode ser feito, logicamente, em diversas dire\u00e7\u00f5es; ou com o objetivo de tornar razo\u00e1vel, natural, inevit\u00e1vel e neutro os interesses dos grupos que est\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es vantajosas, em posi\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas, ou para des- montar essas metas particulares e parciais. Aqueles que colaboram na primeira modalidade de trabalho intelectual costumam receber a denomina\u00e7\u00e3o de intelectuais hegem\u00f4nicos, em conformidade com o trabalho de vigil\u00e2ncia e legitima\u00e7\u00e3o das atua\u00e7\u00f5es dos grupos hegem\u00f4nicos de poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio, intelectuais contra-hegem\u00f4nicos s\u00e3o aquelas pessoas que manifestam um maior compromisso com as classes e grupos sociais mais desfavorecidos e cooperam na detec\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas, metodologias e discursos que funcionam tratando de facilitar e justificar sua domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. S\u00e3o tamb\u00e9m aqueles que contribuem para conformar pr\u00e1ticas libertadoras, a servi\u00e7o dos coletivos sociais explorados e marginalizados, estimulando entre estes a an\u00e1lise de seus atuais modos e condi\u00e7\u00f5es de vida e provocando uma tomada de consci\u00eancia capaz de permitir que elaborem e coloquem em a\u00e7\u00e3o respostas para fazer frente \u00e0 sua subjuga\u00e7\u00e3o. Tais intelectuais possuem uma responsabilidade especial como criadores e fomentadores de situa\u00e7\u00f5es de delibera\u00e7\u00e3o e debate democr\u00e1tico no seio dos grupos sociais mais desfavorecidos, com os quais compartilham sua vida e ideais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel renunciar a p\u00f4r a servi\u00e7o desses grupos todas as habilidades e conhecimentos que os professores e professoras foram construindo como intelectuais. O exerc\u00edcio da cr\u00edtica e da investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que define sua forma\u00e7\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o de seu trabalho. Nessa dire\u00e7\u00e3o, mecanismos com maior poder democratizador como a investiga\u00e7\u00e3o-a\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e cr\u00edtica s\u00e3o fundamentais para levar\u00a0a cabo a revis\u00e3o das pr\u00e1ticas e discursos que, tanto no sistema educativo como em outras esferas sociais, n\u00e3o costumam levar em considera\u00e7\u00e3o a hist\u00f3ria, vozes e interesses de grupos sociais silenciados como as mulheres, a classe trabalhadora, meninos, meninas e adolescentes, as pessoas idosas, os povos, etnias e na\u00e7\u00f5es oprimidas.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>O fato de realizarem esse trabalho de debate e an\u00e1lise n\u00e3o equivale a serem os \u00fanicos respons\u00e1veis por tal an\u00e1lise e pela formula\u00e7\u00e3o ou sugest\u00e3o de linhas de a\u00e7\u00e3o; muito pelo contr\u00e1rio. \u00c9 trabalho de intelectuais ir favorecendo que um n\u00famero cada vez maior de pessoas possa exercer essa tarefa de an\u00e1lise e reflex\u00e3o a respeito do que aconteceu e est\u00e1 acontecendo e sobre qual pode ser o futuro. Compartilhar e divulgar esse trabalho entre os membros desses coletivos sociais mais desfavorecidos, potencializar suas capacidades de reflex\u00e3o, an\u00e1lise e a\u00e7\u00e3o \u00e9 tarefa indissoci\u00e1vel da fun\u00e7\u00e3o de intelectuais.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m, no entanto, que sejam suficientemen- te precavidos para n\u00e3o cair em simplistas categoriza\u00e7\u00f5es dualistas do tipo \u201celes\u201d\/\u201cn\u00f3s\u201d, \u201cbons\u201d\/ \u201cmaus\u201d; o que levaria implicitamente a construir categorias pouco s\u00e9rias e reais de \u201cinimigos\u201d\/\u201camigos\u201d. A complexidade da vida humana \u00e9 algo que algumas \u00f3ticas p\u00f3s-modernas est\u00e3o ajudando a desvelar e a que se deve prestar aten\u00e7\u00e3o. Assim, j\u00e1 faz anos que os movimentos feministas deixaram claro que \u00e9 poss\u00edvel atuar ao mesmo tempo como opressores e oprimidos. \u00c9 o caso, por exemplo, de homens da classe trabalhadora que sofrem situa\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o em seus lugares de trabalho fora do lar, mas que atuam como opressores sobre as mulheres no \u00e2mbito familiar.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o conceito de \u201cassincronismo\u201d pode vir a ser de grande utilidade. Nem sempre os diferentes grupos e movimentos sociais coincidem entre si em suas reivindica\u00e7\u00f5es e\/ou nas prioridades pelas quais se organizar para combater formas e situa\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o. Como destaca Cameron McCarthy (1994, p. 108), existem descontinuidades nas dimens\u00f5es em torno \u00e0s quais se agrupar e colaborar, \u201cque derivam do choque de interesses, necessidades e desejos assincr\u00f4nicos, que separam entre si diversos setores de grupos minorit\u00e1rios e os atores pertencentes a minorias dos da maioria\u201d.<\/p>\n<p>Essa dificuldade para coincidir na defini\u00e7\u00e3o e concre\u00e7\u00e3o do que se considera que \u00e9 priorit\u00e1rio atender \u00e9 tamb\u00e9m sublinhada por Michel Foucault (1979) quando indica que n\u00e3o existe um \u00fanico eixo em torno do qual todas as rela\u00e7\u00f5es de poder e domina\u00e7\u00e3o, luta e resist\u00eancia, possam se agrupar, \u201cmas antes uma produ\u00e7\u00e3o multiforme de rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o que s\u00e3o parcialmente integr\u00e1veis em estrat\u00e9gias de conjunto\u201d (p. 171). Essas lutas sociais descont\u00ednuas costumam acontecer, por sua vez, em \u00e2mbitos espaciais locais e regionais, mais do que em \u00e2mbitos muito maiores que requerem modalidades de coordena\u00e7\u00e3o mais complexas.<\/p>\n<p>Existem m\u00faltiplos espa\u00e7os, formas e momentos nos quais diferentes grupos humanos se comprometem com quest\u00f5es de liberdade, dignidade, justi\u00e7a, realiza\u00e7\u00e3o pessoal etc.<\/p>\n<p>O exerc\u00edcio da cr\u00edtica, t\u00edpico do trabalho intelectual, tem de aprender a levar em considera\u00e7\u00e3o essa din\u00e2mica de contradi\u00e7\u00f5es, tens\u00f5es e assincronias que se produzem na vida que tem lugar nas institui\u00e7\u00f5es escolares, no seio familiar, nos locais de trabalho, espa\u00e7os de \u00f3cio, institui\u00e7\u00f5es culturais e pol\u00edticas. Dessa maneira, \u00e9 poss\u00edvel que seja mais f\u00e1cil detectar e fazer frente \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a e domina\u00e7\u00e3o que sofrem os coletivos sociais com menor poder.<\/p>\n<p>Recuperar para o coletivo docente uma certa capacidade de \u201cagita\u00e7\u00e3o social\u201d, submetendo-se sempre \u00e0 cr\u00edtica por parte dos coletivos com os quais se encontra comprometido, n\u00e3o equivale a convert\u00ea-lo em l\u00edder e dirigente nem, evidentemente, nas \u00fanicas pessoas capacitadas para orientar a\u00e7\u00f5es, mas antes em promotoras, animadoras das vozes dos grupos silenciados e com menor poder. Trata-se de contribuir para que os que integram esses coletivos falem; que reflitam sobre sua situa\u00e7\u00e3o e sejam eles que decidam e se comprometam com a dire\u00e7\u00e3o de alternativas de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Creio que esteja patente uma coincid\u00eancia do avan\u00e7o da direita pol\u00edtica com um momento de forte crise nos setores intelectuais, que parecem dominados por um certo \u201cp\u00e2nico\u201d em refletir em voz alta.\u00a0\u00c9 como se o medo se tivesse apoderado das mentes das pessoas que t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o moral, espa\u00e7os e possibilidades de refletir sobre o momento atual. Tem-se a sensa\u00e7\u00e3o de que se quer renunciar a criar con- di\u00e7\u00f5es para fomentar maiores cotas de debate e de an\u00e1lise; em resumo, \u00e9 como se existisse uma rendi\u00e7\u00e3o nos setores intelectuais n\u00e3o hegem\u00f4nicos, quando n\u00e3o tamb\u00e9m uma certa sensa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 pior, de se passar para o outro lado, contribuindo para conformar discursos legitimadores dos atuais modos e condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o ajudar expressamente a criar discursos libertadores \u00e9 uma forma de colaboracionismo oculto com o poder estabelecido.<\/p>\n<p>As professoras e professores intelectuais, a servi\u00e7o da democracia e da justi\u00e7a social, t\u00eam de contribuir para o estabelecimento de condi\u00e7\u00f5es para que, nos centros escolares e nas salas de aula, o alunado possa chegar a descobrir o que se esconde por tr\u00e1s dos v\u00e9us do \u201csaber oficial\u201d; que aspectos n\u00e3o est\u00e3o sendo levados em considera\u00e7\u00e3o, de que ma- neira pode estar manipulada e distorcida a informa\u00e7\u00e3o com que os meninos e meninas s\u00e3o bombardeados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa e demais fontes informativas com as quais entram e, muitas vezes, s\u00e3o for\u00e7ados a entrar em contato.<\/p>\n<p>Ajudar a desmascarar os pr\u00e9-julgamentos e estere\u00f3tipos do conhecimento no qual se ap\u00f3iam as pr\u00e1ticas e discursos classistas, racistas e sexistas \u00e9 tarefa vinculada \u00e0 fun\u00e7\u00e3o das professoras e professores como intelectuais. \u00c9 preciso favorecer que as pessoas possam discutir a apari\u00e7\u00e3o de imagens, discursos e narrativas, que nada mais pretendem a n\u00e3o ser fechar as portas ao futuro, impedir, a um importante n\u00famero de coletivos sociais, de ser.<\/p>\n<p><b>A educa\u00e7\u00e3o, uma dimens\u00e3o da pol\u00edtica cultural da sociedade<\/b><\/p>\n<p>As quest\u00f5es curriculares, conseq\u00fcentemente, devem ser consideradas como mais uma dimens\u00e3o de um projeto de maior envergadura, como \u00e9 a pol\u00edtica cultural de cada sociedade. Toda proposta curricular implica fazer op\u00e7\u00f5es entre as distintas parcelas da realidade, sup\u00f5e uma sele\u00e7\u00e3o cultural\u00a0que se oferece \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es para facilitar sua socializa\u00e7\u00e3o, para ajud\u00e1-las a compreender o mundo que as rodeia, conhecer sua hist\u00f3ria, promover valores e utopias. Assim, pois, surge j\u00e1 uma primeira quest\u00e3o: quem s\u00e3o as pessoas que v\u00e3o participar dessa tomada de decis\u00f5es a respeito de tal sele\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, e por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Todas as investiga\u00e7\u00f5es centradas nos conte\u00fados que v\u00eam sendo trabalhados na maioria dos centros de ensino concluem que existe um forte vi\u00e9s nas op\u00e7\u00f5es que s\u00e3o promovidas como \u201cexemplificantes\u201d, que s\u00e3o silenciadas realidades daqueles que n\u00e3o est\u00e3o vinculados a expedientes de poder pol\u00edtico, econ\u00f4mico, cultural e religioso, isto \u00e9, das etnias e grupos sociais desfavorecidos e marginalizados (das mulheres, da classe trabalhadora, das pessoas de terceira idade, das pessoas pobres, desvalidas, de homossexuais e l\u00e9sbicas, do mundo rural e marinheiro, dos meninos, meninas e adolescentes etc.) e do Terceiro Mundo. Esse sil\u00eancio de coletivos sociais importantes pode ser constatado de modo especial nos materiais did\u00e1ticos que fecham as propostas curriculares, os livros-texto.<\/p>\n<p>Mas quando se reflete sobre os porqu\u00eas dessa censura e, at\u00e9 mesmo, manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o presentes em grande parte dos materiais curriculares que circulam nas institui\u00e7\u00f5es escolares, apenas encontramos explica\u00e7\u00f5es suficientemente potentes quando expandimos o olhar para fora das paredes das salas de aula e analisamos o que est\u00e1 acontecendo nas demais esferas dessa socieda- de da qual fazem parte.<\/p>\n<p>A estrutura de classes e grupos sociais, os modelos produtivos e de comercializa\u00e7\u00e3o, de acesso, divis\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, os processos de acumula\u00e7\u00e3o de capital, as pol\u00edticas econ\u00f4micas, trabalhistas, sociais e culturais s\u00e3o outros tantos focos de aten\u00e7\u00e3o nos quais encontram-se as chaves potentes para entender o que est\u00e1 acontecendo na comunidade e, portanto, os motivos que explicam um sem-n\u00famero de comportamentos grupais e individuais. \u00c9 rastreando tramas semelhantes que chegaremos a discernir o sentido da maioria das tarefas escolares que ocupam alunos e alunas, assim\u00a0como suas rea\u00e7\u00f5es diante delas. \u00c9 tamb\u00e9m nessa rede, da qual faz parte o sistema educativo, que se poder\u00e3o explicar as atividades, rotinas e tarefas do professorado. Assim, ser\u00e1 mais fact\u00edvel, como \u00e9 urgente neste momento, elaborar linhas de a\u00e7\u00e3o com probabilidades de incidir no curso dessa realidade e condicionar o curso atual da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><b>A desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o de recursos educativos e culturais, sinal de sociedades injustas<\/b><\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o que o famoso lema em torno do qual se organiza a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, \u201cliberdade, igualdade e fraternidade\u201d, que os cidad\u00e3os e cidad\u00e3s democratas convertem num dos objetivos e premissas sobre os quais construir e governar as sociedades modernas, pare\u00e7a hoje um tanto antiquado e irreal. Especialmente se levarmos em conta que uma das id\u00e9ias b\u00e1sicas sobre as quais se assenta a direita pol\u00edtica \u00e9 a da cren\u00e7a na \u201cdesigualdade\u201d entre as pessoas.<\/p>\n<p>Um modelo de sociedade conservador, liberal e neoliberal, como o que a estas alturas da hist\u00f3ria vem se impondo na maioria dos pa\u00edses tecnologicamente mais desenvolvidos, que se assenta em pilares como a defesa do \u201clivre mercado\u201d, precisa propagar filosofias e concep\u00e7\u00f5es que apresentem o ser humano isolado socialmente. Dessa maneira, todas as an\u00e1lises levam em considera\u00e7\u00e3o unicamente o indiv\u00edduo com capacidade para se autoformar, autodeterminar, sem que nada nem ningu\u00e9m de fora possa influenciar ou condicionar suas possibilidades inatas. Todos seus \u00eaxitos e, logicamente, fracassos ser\u00e3o de sua responsabilidade; nada nem ningu\u00e9m vai condicion\u00e1-lo. Todas as maneiras de pensar, a tomada de decis\u00f5es sociopol\u00edticas ser\u00e3o levadas a termo tendo-se em considera\u00e7\u00e3o perspectivas pessoais, individuais, n\u00e3o coletivas. Os direitos que se formu- lam e atendem acabam sendo pensados de modo individualista, do mesmo modo que as an\u00e1lises que s\u00e3o realizadas sobre a realidade.<\/p>\n<p>A aposta e a defesa de filosofias individualistas, da competitividade e esfor\u00e7o pessoal s\u00e3o aspectos indispens\u00e1veis para o bom \u00eaxito dos modelos econ\u00f4micos capitalistas e, agora, da globaliza\u00e7\u00e3o dos mercados. Essa ideologia obriga a assumir que as pessoas n\u00e3o precisam se agrupar em fun\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de vida ou valores compartilhados; n\u00e3o se contempla nada com capacidade suficiente para circunscrever cada indiv\u00edduo como membro de um grupo; n\u00e3o se deixam ver estrat\u00e9gias para vertebrar modos de atua\u00e7\u00e3o mais coletivos com possibilidades de transformar modelos organizativos e estruturas sociais que ocasionam situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a a grupos sociais concretos e, logicamente, a cada um de seus membros.<\/p>\n<p>Por outro lado, como conseq\u00fc\u00eancia das pol\u00edticas ultraliberais, insiste-se mais em mostrar as pessoas como consumidoras e em prestar aten\u00e7\u00e3o a seus direitos de consumir do que \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3s e cidad\u00e3os; isso acarreta uma redu\u00e7\u00e3o de suas obriga\u00e7\u00f5es e deveres como seres humanos e um menoscabo de suas possibilidades de a\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o. A dimens\u00e3o consumista implica mover-se apenas num \u00e2mbito que permite realizar escolhas entre o que nos oferecem, n\u00e3o no da defini\u00e7\u00e3o de suas necessidades e da realidade. Restringem-se as ocasi\u00f5es e n\u00edveis de autonomia para as pessoas criarem modelos e orienta\u00e7\u00f5es sobre como pode ou deve ser sua comunidade; minimizam-se os espa\u00e7os e oportunidades de participar do estabelecimento de dire\u00e7\u00f5es de desenvolvimento para a sociedade a que se pertence.<\/p>\n<p>As novas sociedades de consumo est\u00e3o tratando de transformar as institui\u00e7\u00f5es escolares submetendo-as \u00e0s mesmas leis que regem o mercado de Consumo (Whitty, Edwards e Gewirtz, 1993). Pretende-se que as ofertas que os centros docentes realizem sejam feitas para satisfazer as demandas daqueles que t\u00eam possibilidades de formul\u00e1-las, os grupos empresariais. Nesse sentido, n\u00e3o podemos deixar de lado a exist\u00eancia de um mercado em que a manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o desempenha um im- portante papel. A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 na atualidade um dos poderes mais decisivos, da\u00ed o grande interesse e a luta por obter o controle das comunica\u00e7\u00f5es, por possuir jornais, emissoras de r\u00e1dio e televis\u00e3o, redes inform\u00e1ticas etc. \u00c9 sobre a base desse controle e manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que podemos compreender que tanto as fam\u00edlias como o pr\u00f3prio alu- nado sintam maior urg\u00eancia por determinados conhecimentos e habilidades que, afirma-se, facilitam o acesso a empregos e est\u00e3o mais diretamente vinculados a sa\u00eddas para o trabalho, e, o que \u00e9 pior, cheguem a considerar in\u00fateis ou de escasso interesse conte\u00fados culturais e valores relacionados \u00e0 compreens\u00e3o da realidade, da justi\u00e7a, da solidariedade e democracia.<\/p>\n<p>O sistema educativo, portanto, aparece como algo a consumir, como a via para obter credenciais que, no futuro, facilitem entrar na demanda por trabalhos e sal\u00e1rios, que permitam participar das escassas possibilidades de mobilidade social; n\u00e3o \u00e9 concebido como um conjunto de institui\u00e7\u00f5es coadjuvantes na conquista de maiores cotas de justi\u00e7a social, na luta contra a desigualdade e a opress\u00e3o. Creio que um dos grandes perigos para nossas sociedades est\u00e1 na maneira como se obscurecem o sentido e a finalidade do sistema educativo.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, como aponta R. W. Connel (1993), temos tr\u00eas raz\u00f5es para considerar a exist\u00eancia de um forte nexo de uni\u00e3o entre os sistemas educativos e a conquista de maiores n\u00edveis de justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>1. O sistema educativo \u00e9 um dos maiores ativos p\u00fablicos. \u00c9 uma das maiores empresas em qualquer economia moderna. Para nos convencermos de que \u00e9 uma das empresas mais importantes, basta pensarmos nas cifras bilion\u00e1rias que manejam os minist\u00e9rios da educa\u00e7\u00e3o e da ci\u00eancia da maioria dos pa\u00edses. Dado que se trata de uma empresa p\u00fablica, \u00e9 l\u00f3gico perguntar quem obt\u00e9m a maioria dos benef\u00edcios. As an\u00e1lises quantitativas revelam rapidamente uma forte desigualdade nessa distribui\u00e7\u00e3o de recursos e benef\u00edcios. Quando nos detemos em comprovar as formas que assume a distribui\u00e7\u00e3o dos alunos no sistema educativo, as formas piramidais se imp\u00f5em (h\u00e1 muitas alunas e alunos nos n\u00edveis iniciais e, \u00e0 medida que ascendemos no sistema educativo, vamos encontrando cada vez menos). Os piores resultados, j\u00e1 o sabemos, s\u00e3o dos meninos e\u00a0meninas das classes trabalhadores, da etnia cigana, dos n\u00facleos rurais mais desfavorecidos etc.<\/p>\n<p>2. O sistema educativo, atualmente, n\u00e3o apenas \u00e9 um dos principais ativos p\u00fablicos, como tamb\u00e9m \u00e9 previs\u00edvel que o seja ainda mais no futuro. Conv\u00e9m ter presente que o conhecimento especializado tornou-se mais um dos componentes do sistema de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atualmente, \u00e9 no \u00e2mbito do sistema educativo que se d\u00e3o as principais condi\u00e7\u00f5es para a investiga\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Isso se comprova facilmente quando vemos, por exemplo, os fortes v\u00ednculos que se come\u00e7aram a estabelecer entre o mundo empresarial e as universidades.<\/p>\n<p>Viver numa sociedade democr\u00e1tica implica que os fundos p\u00fablicos redundem em benef\u00edcio de todas as pessoas e n\u00e3o somente de algumas poucas; significa que, nessas investiga\u00e7\u00f5es custeadas com dinheiro p\u00fablico, os distintos grupos sociais devem ter parti- cipa\u00e7\u00e3o, especialmente no estabelecimento de linhas priorit\u00e1rias e urgentes de investiga\u00e7\u00e3o; em outras palavras, os diferentes grupos e coletivos sociais t\u00eam de dispor de canais para participar da defini\u00e7\u00e3o dos problemas atuais e da determina\u00e7\u00e3o de quais dentre eles urge resolver de maneira mais perempt\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que todo o sistema p\u00fablico educativo se mova apenas ao ritmo e na dire\u00e7\u00e3o que os grupos sociais com maior poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico decidem. Uma boa prova dessa disfuncionalidade est\u00e1 no fato de que a investiga\u00e7\u00e3o de que os grupos empresariais privados necessitam est\u00e1 sendo levada a cabo, em grande parte, pelas universidades p\u00fablicas e institutos de pesquisa financiados com fundos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Esse conhecimento que os sistemas educativos constroem e distribuem n\u00e3o apenas desempenha um papel importante na melhoria da produ\u00e7\u00e3o e na expans\u00e3o de mercados, mas tamb\u00e9m na estratifica\u00e7\u00e3o social e, portanto, na manuten\u00e7\u00e3o de hierarquias sociais. N\u00e3o esque\u00e7amos que vivemos num mo- delo de sociedade no qual o credencialismo \u00e9 uma de suas marcas idiossincr\u00e1ticas. O n\u00famero de t\u00edtulos profissionais alcan\u00e7ados e o prest\u00edgio da institui\u00e7\u00e3o que os expede decidem em grande medida as\u00a0possibilidades de trabalho e a circunscri\u00e7\u00e3o a uma determinada classe e coletivo social.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 curioso como est\u00e1 sendo produzindo um maior crescimento da iniciativa privada em todos os n\u00edveis do sistema educativo (desde a educa\u00e7\u00e3o infantil e prim\u00e1ria at\u00e9 a pr\u00f3pria universidade), mas com dinheiro p\u00fablico. Desde a d\u00e9cada de 70, e em especial na de 80, a parcela or\u00e7ament\u00e1ria do Estado e das comunidades aut\u00f4nomas destinada \u00e0s institui\u00e7\u00f5es escolares privadas n\u00e3o p\u00e1ra de crescer.<\/p>\n<p>Os sistemas educativos distribuem oportunidades de participa\u00e7\u00e3o e consumo nos atuais sistemas produtivos, bem como moldam os poss\u00edveis modelos de sociedade do futuro. Preocupar-se com uma maior democratiza\u00e7\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e eq\u00fcidade para o futuro significa construir a partir de hoje institui\u00e7\u00f5es escolares que preparem esses pilares de apoio.<\/p>\n<p>3. A terceira raz\u00e3o para se preocupar com o sistema educativo, segundo R. W. Connel, estaria na concep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 educar que essa sociedade concreta \u00e0 qual nos refiramos defende em cada momento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Educar \u00e9 uma tarefa moral, uma vez que implica levar em considera\u00e7\u00e3o dimens\u00f5es morais. O ensino e a aprendizagem, como pr\u00e1ticas sociais, sempre implicam quest\u00f5es acerca de prop\u00f3sitos e crit\u00e9rios para a a\u00e7\u00e3o (sejam ou n\u00e3o compartilhados), decis\u00f5es sobre a aplica\u00e7\u00e3o de recursos (incluindo autoridade e conhecimento) e acerca de responsabilidades e conseq\u00fc\u00eancias dessas a\u00e7\u00f5es. Essas implica\u00e7\u00f5es nunca podem ser eludidas, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel evitar esse tipo de quest\u00e3o. O fato de que n\u00e3o estejamos conscientes delas n\u00e3o significa que essas dimens\u00f5es morais tenham sido relegadas; pelo contr\u00e1rio, tal como demonstram os estudos sobre o curr\u00edculo oculto (Torres Santom\u00e9, 1996), n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil que, inclusive por n\u00e3o lhes prestar uma aten- \u00e7\u00e3o expl\u00edcita, estejamos participando, colaborando, na perpetua\u00e7\u00e3o de comportamentos morais que de maneira consciente repudiamos (autoritarismo, acriticismo, ego\u00edsmo, individualismo, falta de solidariedade, fanatismo, dogmatismo etc.).<\/p>\n<p>No entanto, toda uma grande cultura conservadora pretende reduzir essas quest\u00f5es ao sil\u00eancio, criando estrat\u00e9gias e recursos did\u00e1ticos que incorporam esses valores previamente decididos pelos grupos de poder mais conservadores e, ao mesmo tempo, tratando de despistar o professorado instando-o a que se ocupe, por exemplo, de tarefas que o impedem de levar em considera\u00e7\u00e3o esse tipo de elementos, tal como vem sucedendo nos \u00faltimos anos. Ele \u00e9 for\u00e7ado a dedicar cada vez mais tempo a quest\u00f5es burocr\u00e1ticas; reclamam dele esbo\u00e7os de projetos curriculares de centro educacional e de sala de aula, mas sem estabelecer condi\u00e7\u00f5es que facilitem esse trabalho; pretende-se convenc\u00ea-lo de que o mais importante \u00e9 seq\u00fcencializar conte\u00fados j\u00e1 definidos e, o que \u00e9 mais curioso, j\u00e1 hierarquizados pelos materiais curriculares mais dominantes, os livros-texto; perseguem-no com quest\u00f5es de disciplina e estrat\u00e9gias para \u201cacalmar os estudantes\u201d; sugerem-lhe que fa\u00e7a mais e mais avalia\u00e7\u00f5es e controles; enviam-lhe abundante legisla\u00e7\u00e3o com terminologias constantemente renovadas etc.<\/p>\n<p>Para a reprodu\u00e7\u00e3o das atuais ideologias individualistas e meritocr\u00e1ticas, \u00e9 preciso que cada uma das pessoas que compartilham um determinado espa\u00e7o territorial seja convencida de tais valores, para o qual os que det\u00eam o poder se v\u00eaem na necessidade de gerar uma cultura que sirva para coesion\u00e1-las e facilitar um grau importante de estabilidade social. Da\u00ed a pretens\u00e3o que caracteriza os grupos hegem\u00f4nicos conservadores e liberais de estabelecer e controlar conte\u00fados culturais obrigat\u00f3rios que sirvam para refor\u00e7ar a ideologia dominante. A busca de um \u201cc\u00e2none\u201d cultural para oferecer como leg\u00edtimo, sem possibilidades de submeter \u00e0 discuss\u00e3o e cr\u00edtica, converte-se em estrat\u00e9gia indispens\u00e1vel para a perpetua\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es estruturais que refor\u00e7am seu poder e hegemonia.<\/p>\n<p>Portanto, falar e intervir no mundo da educa\u00e7\u00e3o implica inevitavelmente considerar dimens\u00f5es de justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>No momento de destinar recursos ao \u00e2mbito educativo (dinheiro, pessoal, edif\u00edcios, recursos did\u00e1ticos etc.), a comunidade e aqueles que, em cada\u00a0momento, t\u00eam responsabilidades pol\u00edticas enfrentam-se em dilemas de partilha e distribui\u00e7\u00e3o, na cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es que influir\u00e3o decisivamente para tornar realidade ou n\u00e3o o ideal democr\u00e1tico da igualdade de oportunidades.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que uma sociedade que distribui mal seus recursos est\u00e1 favorecendo mais a determinados coletivos sociais do que a outros.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises que v\u00eam sendo efetuadas num n\u00famero muito importante de pa\u00edses n\u00e3o cessam de colocar em relevo que alguns grupos sociais recebem mais apoio do que outros. As den\u00fancias de imperialismo e coloniza\u00e7\u00e3o, classismo, racismo e sexismo no \u00e2mbito educativo s\u00e3o cont\u00ednuas. No Estado espanhol \u00e9 urgente e obrigat\u00f3rio enfatizar concretamente a marginaliza\u00e7\u00e3o racista que um po- vo como o cigano est\u00e1 sofrendo e suportando. Esse \u00e9 um tema que apenas come\u00e7ou a dar passos, com exce\u00e7\u00e3o de alguns coletivos docentes que t\u00eam um contato mais direto e cotidiano com pessoas dessa etnia. Na pr\u00e1tica, o mundo oficial, da administra\u00e7\u00e3o, continua sem prestar-lhe a devida aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Dimens\u00f5es da discrimina\u00e7\u00e3o e do racismo na educa\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Vivemos numa sociedade na qual, continuamente, um enorme volume de publica\u00e7\u00f5es e emiss\u00f5es dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa nos bombardeiam tratando de nos informar e de nos fazer participar da realidade; entre suas finalidades est\u00e1 a de levar suas consumidoras e consumidores a interpretar de uma maneira \u201ccorreta\u201d tudo que acontece. \u00c9 atrav\u00e9s da imprensa, do r\u00e1dio e da televis\u00e3o que nos inteiramos de cat\u00e1strofes, de fatos e acontecimentos cotidianos, de fa\u00e7anhas, descobrimentos etc., mas sempre de uma maneira seletiva. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa \u201cfiltram as realidades\u201d de acordo com os interesses dos que det\u00eam sua propriedade e controle.<\/p>\n<p>Nessa \u201crealidade constru\u00edda\u201d, os atores e atrizes s\u00e3o desenhados seletivamente, de tal forma que as minorias e grupos sociais sem poder acabam sempre levando a pior parte. As tentativas de silenciar\u00a0\u201co diferente\u201d e minorit\u00e1rio, ou mesmo optar por convert\u00ea-lo em algo disparatado podem ser facilmente constatadas. Mas nos casos em que essas realidades n\u00e3o podem ser escondidas, a op\u00e7\u00e3o mais usual \u00e9 reelabor\u00e1-las, \u201creinterpret\u00e1-las\u201d para apresent\u00e1-los como culp\u00e1veis pelos seus pr\u00f3prios problemas e at\u00e9 daqueles que ocasionam a outros grupos sociais majorit\u00e1rios e\/ou com maior poder. Tratar de demonstrar, primeiramente, que suas condutas s\u00e3o \u201cinadequadas\u201d e, depois, procurar explicar que s\u00e3o conseq\u00fc\u00eancia de condicionamentos inatos (sobre os quais os seres humanos n\u00e3o t\u00eam possibilidade de controle), de aspira\u00e7\u00f5es inadequadas \u00e0s suas capacidades naturais ou s\u00e3o fruto de uma vontade de continuar aferrando-se a alguma de suas tradi\u00e7\u00f5es \u201cdefasadas\u201d etc. Numa palavra, recorre se a estrat\u00e9gias de \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d das situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a, o que na atualidade \u00e9 favorecido pela hegemonia das ideologias do individualismo e que, obviamente, afeta tamb\u00e9m a maneira de realizar muitas das an\u00e1lises sobre o que acontece no sistema escolar.<\/p>\n<p>Assim, quando se fala do fracasso e do \u00eaxito escolar, de problemas disciplinares nas salas de aula, do que o alunado sabe ou desconhece, a unidade de an\u00e1lise \u00e9 a pessoa considerada individualmente, e o discurso utilizado tratar\u00e1 tamb\u00e9m de deixar cla- ras as responsabilidades pessoais, individuais. Um exemplo disso, encontramos no difundido livro de Allan Bloom, The closing of the american mind (1987), em que, a prop\u00f3sito do sistema pol\u00edtico dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, destaca que \u201cclasse social, ra\u00e7a, religi\u00e3o, origem nacional ou cultura desaparecem ou chegam a ser algo sem interesse quando s\u00e3o contemplados \u00e0 luz dos direitos natu- rais, que outorgam aos seres humanos interesses comuns e os convertem realmente em irm\u00e3os\u201d (p. 27). Frase que cont\u00e9m implicitamente uma aposta na meritocracia como filosofia de vida. De modo semelhante, podemos explicar a atualidade de nu- merosas investiga\u00e7\u00f5es que pretendem medir as ca- pacidades mentais das pessoas, por exemplo, o quo- ciente intelectual, para responsabiliz\u00e1-las de modo individual pelos seus feitos.<\/p>\n<p>O \u00eaxito e as possibilidades de promo\u00e7\u00e3o s\u00e3o vistos como atos de competitividade entre pessoas que, mediante o esfor\u00e7o individual e suas capacidades naturais inatas, alcan\u00e7am m\u00e9ritos com os quais concorrer e demandar acesso a privil\u00e9gios sociais de maneira tamb\u00e9m individual.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o conv\u00e9m cair em simplifica\u00e7\u00f5es no momento de analisar e tratar de quest\u00f5es de racismo e de discrimina\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que nem todas as pessoas que compartilham alguma das marcas idiossincr\u00e1ticas de uma ra\u00e7a ou etnia sem poder sofrer\u00e3o com a mesma intensidade as situa\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o. Pode acontecer, at\u00e9 mesmo, que alguns dos membros de um grupo social marginalizado cheguem a ser muito respeitados e aceitos pelos grupos dominantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o poderemos compreender bem os problemas raciais se n\u00e3o contemplarmos as din\u00e2micas de classe e g\u00eanero que interagem em seu interior. \u00c9 \u00f3bvio, por exemplo, que ser uma mulher cigana dedicada a tarefas dom\u00e9sticas e familiares \u00e9 difere te de ser uma mulher cigana que trabalha e triunfa no mundo do espet\u00e1culo, da televis\u00e3o ou do cinema; ou ser um homem cigano dedicado a catar papel\u00e3o de ser um anci\u00e3o patriarca ou desempenhar outro trabalho art\u00edstico ou profissional de maior prest\u00edgio. Em nossas an\u00e1lises e estrat\u00e9gias de interven\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a qualquer coletivo social, \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m essas vari\u00e1veis. As pessoas constroem esquemas conceituais atrav\u00e9s dos quais sua experi\u00eancia cobra sentido, analisam e valoram as situa\u00e7\u00f5es nas quais se v\u00eaem envolvidas, em resumo, percebem a realidade. Por conseguinte, qualquer evento no qual se vejam envolvidas ter\u00e1 um significado espec\u00edfico dependendo da ra\u00e7a a que perten\u00e7am, da classe social, do g\u00eanero, da idade, do territ\u00f3rio em que vivem etc. Tudo isso obriga a que, nas propostas de trabalho para as salas de aula e centros de ensino, se preste aten\u00e7\u00e3o a tais dimens\u00f5es no momento de ponderar o significado ou relev\u00e2ncia das tarefas que se planejam e se executam.<\/p>\n<p>Neste ponto, encontramos j\u00e1 duas implica\u00e7\u00f5es para o trabalho nas aulas:<\/p>\n<p>1. Tudo o que se programe como tarefa escolar, como proposta de trabalho curricular, tem de tornar vis\u00edvel suas conex\u00f5es com as experi\u00eancias cotidianas e significativas para o coletivo estudantil ao qual \u00e9 oferecido. \u00c9 necess\u00e1rio que se permita que os problemas, preocupa\u00e7\u00f5es, aspira\u00e7\u00f5es e interesses do alunado sejam acolhidos.<\/p>\n<p>2. Toda proposta curricular tem de estar apoiada na cultura de proced\u00eancia do alunado. E quando falamos de cultura de origem n\u00e3o \u00e9 como conceito abstrato sem maior significado, mas sim estamos nos referindo aos \u201cdiferentes e din\u00e2micos estilos de vida de sociedades e grupos humanos e \u00e0s redes de significados que as pessoas e grupos usam para construir seus significados e comunicar-se entre si\u201d (Hall, 1992, p. 10).<\/p>\n<p><strong>Conte\u00fados culturais dos curr\u00edculos e reconstru\u00e7\u00e3o de identidades sociais<\/strong><\/p>\n<p>O problema das escolas tradicionais, apesar da forte \u00eanfase nos conte\u00fados culturais apresentados em pacotes disciplinares, em forma de mat\u00e9rias, \u00e9 que n\u00e3o conseguem fazer que o alunado seja capaz de ver esses conte\u00fados como parte de seu pr\u00f3prio mundo. A f\u00edsica, a qu\u00edmica, a hist\u00f3ria, a gram\u00e1tica, a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, a matem\u00e1tica s\u00e3o dificilmente vis\u00edveis; conseq\u00fcentemente, o que se trabalha nas salas de aulas, para a maioria de nossos estudantes, existe apenas como \u201cestrat\u00e9gia\u201d para enfasti\u00e1-los, para que possam passar de curso a curso, com a esperan\u00e7a de obter um t\u00edtulo. A escola aparece como o reino da artificialidade, um espa\u00e7o em que regem determinadas normas, fala-se de uma manei- ra peculiar e onde \u00e9 necess\u00e1rio realizar determinadas rotinas, que servem somente para poder obter felicita\u00e7\u00f5es ou san\u00e7\u00f5es por parte do professorado e mesmo de suas pr\u00f3prias fam\u00edlias, mas a coisa s\u00f3 vai at\u00e9 a\u00ed. \u00c9 muito dif\u00edcil estabelecer la\u00e7os de conex\u00e3o entre os blocos de conte\u00fado dos quais se fala nas aulas, entre as tarefas escolares e a vida real, os problemas e realidades mais cotidianas.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 uma cr\u00edtica comum e reiterada ao longo da hist\u00f3ria das institui\u00e7\u00f5es educativas \u00e9 a de selecionar, organizar e trabalhar com conte\u00fados culturais pouco relevantes, de forma nada motivadora para o alunado e, portanto, perdendo o contato com a realidade em que se situam tais atividades docentes. As situa\u00e7\u00f5es e problemas da vida di\u00e1ria, as preocupa\u00e7\u00f5es pessoais, ficam fora das paredes das salas de aulas e dos centros de ensino em numerosas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro que o curr\u00edculo tradicional acabe mostrando uma not\u00e1vel semelhan\u00e7a com alguns jogos de perguntas e respostas sobre assuntos triviais ou concursos de televis\u00e3o de cunho nominalista. Competi\u00e7\u00f5es nas quais, para obter \u00eaxito, basta ser capaz de recordar pequenos fragmentos de informa\u00e7\u00e3o sem maior aprofundamento e, o que \u00e9 mais grave, sem a devida compreens\u00e3o dos conte\u00fados que s\u00e3o verbalizados. Apenas \u00e9 preciso saber aparentar que se entende aquilo que se pronuncia, embora a realidade seja outra.<\/p>\n<p>Educar equivale a socializar os alunos e alunas, torn\u00e1-los participantes do legado cultural da sociedade da qual s\u00e3o membros e dos principais objetivos, problemas e peculiaridades do resto da humanidade. A compreens\u00e3o e a reflex\u00e3o a respeito do que se trabalha, \u00e9 \u00f3bvio dizer, \u00e9 imprescind\u00edvel. Mas, do mesmo modo, \u00e9 indispens\u00e1vel ter em conta que contribuir para uma compreens\u00e3o cr\u00edtica da realidade obriga a assumir que quase todas as mat\u00e9rias e temas tem dimens\u00f5es controversas, quest\u00f5es sem resolver. Essas perspectivas conflitivas existem paralelamente \u00e0s diferentes opini\u00f5es, valores, prioridades e interesses patentes e ocultos em toda a comunidade. Isso pode afetar quest\u00f5es como as seguintes:<\/p>\n<p>&gt; a sele\u00e7\u00e3o e\/ou defini\u00e7\u00e3o de um problema a ser resolvido;<\/p>\n<p>&gt; a an\u00e1lise de suas causas, progn\u00f3stico e conseq\u00fc\u00eancias etc.;<\/p>\n<p>&gt; as a\u00e7\u00f5es, solu\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es que se propugnam;<\/p>\n<p>&gt; por quem, quando, como, onde ser\u00e3o tomadas essas decis\u00f5es corretoras ou resolutivas etc.<\/p>\n<p>Tentar preservar o alunado das dimens\u00f5es controvertidas da realidade equivale a introduzi-lo num limbo, deslig\u00e1-lo do mundo real.<\/p>\n<p>Evidentemente, nessa tarefa, os recursos did\u00e1ticos atrav\u00e9s dos quais se veiculam conte\u00fados culturais (livros-texto ou outro tipo de fontes de informa\u00e7\u00e3o: monografias cient\u00edficas, revistas especializadas, dicion\u00e1rios, document\u00e1rios, v\u00eddeos, software etc.) desempenham um papel crucial. O valor e o rigor n\u00e3o ser\u00e1 o mesmo para todos. Uma prova do que dissemos j\u00e1 encontramos no momento de procurar, nos livros-texto que circulam atualmente nas institui\u00e7\u00f5es escolares, a presen\u00e7a de coletivos inteiros, como o povo cigano, e o que se diz deles. Chama poderosamente a aten\u00e7\u00e3o a pobreza documental e, o que \u00e9 pior, a distor\u00e7\u00e3o e a manipula\u00e7\u00e3o informativa que caracterizam muitas reda\u00e7\u00f5es que aparecem em tais livros-texto, o recurso ainda dominante nos centros de ensino (Calvo Buezas, 1989; Torres Santom\u00e9, 1996a, 1996b).<\/p>\n<p>De qualquer maneira, n\u00e3o gostaria de modo algum de dar a impress\u00e3o de que assumo que os estudantes e docentes aceitam sem mais nem menos tudo o que aparece nos livros-texto, sem opor resist\u00eancias, reinterpretar, revisar ou alterar a informa\u00e7\u00e3o ali contida. Alunas e alunos manifestam resist\u00eancias, umas intencionadas e outras n\u00e3o, diante de seu conte\u00fado. Assim, vemos que algumas vezes reinterpretam informa\u00e7\u00e3o que lhes \u00e9 apresentada tendo em conta outras informa\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias que possuem ou experimentaram, outras vezes as rejeitam de m\u00faltiplas formas, por exemplo, mantendo-se indiferentes.<\/p>\n<p><b>Repensando a aprendizagem escolar<\/b><\/p>\n<p>Em muitas ocasi\u00f5es, est\u00e1 sendo esquecida a necessidade de reconsiderar a aprendizagem escolar levando em considera\u00e7\u00e3o de uma maneira expressa o efeito das transforma\u00e7\u00f5es estruturais que fragmentam e desorganizam radicalmente a experi\u00eancia humana (Nixon et al., 1996, p. 29). Ultimamente, a \u00eanfase est\u00e1 sendo posta mais em aspectos economicistas e em considera\u00e7\u00f5es a partir de \u00f3ticas\u00a0das pol\u00edticas de mercado, enquanto as preocupa\u00e7\u00f5es morais e \u00e9ticas s\u00e3o relegadas. Desse modo, j\u00e1 nem o pr\u00f3prio fracasso escolar \u00e9 considerado uma falha dos mecanismos de justi\u00e7a social que toda sociedade democr\u00e1tica tem obrigatoriamente que se impor.<\/p>\n<p>Propor-se a estimular processos de ensino e aprendizagem, tal como \u00e9 fun\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es docentes, obriga tamb\u00e9m a n\u00e3o deixar \u00e0 margem as condi\u00e7\u00f5es e filosofias subjacentes que caracterizam esses processos. \u00c9 a partir das finalidades dos centros de ensino, dos objetivos sociais de que est\u00e3o incumbidos, que se deve questionar o porqu\u00ea dos conte\u00fados curriculares que s\u00e3o escolhidos ou promovidos, as formas adotadas para desenvolver os processos de aprendizagem e modelos organizativos coerentes com as dimens\u00f5es anteriores.<\/p>\n<p>Aprender \u00e9 desenvolver processos de compreens\u00e3o sobre a realidade que induzem \u00e0 participa\u00e7\u00e3o nela e se originam a partir das tarefas escolares com as quais alunas e alunos se comprometem dia a dia na sala de aula. Aprender \u00e9 participar num clima de sala de aula que incita quem ali participa a entrar em situa\u00e7\u00f5es de di\u00e1logo e coopera\u00e7\u00e3o, servindo-se dos recursos materiais adequados para chegar a maiores n\u00edveis de compreens\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es sociais nas quais participa e convive. Em tal concep\u00e7\u00e3o de aprendizagem, \u00e9 \u00f3bvio que n\u00e3o \u00e9 apenas \u00e0s peculiaridades psicol\u00f3gicas de cada pessoa a que se deve recorrer para obter informa\u00e7\u00e3o a respeito da qualidade dos processos de ensino e aprendizagem. S\u00e3o tamb\u00e9m, em meu modo de ver, mais decisivos os valores \u00e9ticos e morais, compartilhados de maneira reflexiva e expl\u00edcita, que servem de guia para a cria\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o de ambientes educativos.<\/p>\n<p>\u00c9 imprescind\u00edvel ter presentes as dimens\u00f5es morais nas tomadas de decis\u00e3o sobre os modelos organizativos de sala de aula e de centros educacionais, assim como nos momentos de decidir a respeito das caracter\u00edsticas dos conte\u00fados e recursos did\u00e1ticos a empregar, os pap\u00e9is das figuras docentes e os comportamentos do alunado e, logicamente, das tarefas escolares e procedimentos de avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Partindo-se da aceita\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia dessa dimens\u00e3o filos\u00f3fica e pol\u00edtica no momento de pensar nas estrat\u00e9gias de ensino e aprendizagem, \u00e9 indiscut\u00edvel que o trabalho em equipe adquire um significado especial. Este deixa de ser contemplado como algo exclusivamente ben\u00e9fico a t\u00edtulo individual, n\u00e3o apenas pelas habilidades interpessoais e cognitivas que favorece, mas tamb\u00e9m pelas capacidades de socializa\u00e7\u00e3o que ajuda a construir (ver Quadro I). S\u00e3o fomentados h\u00e1bitos de respeito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais pessoas, de colabora\u00e7\u00e3o e de compromisso com ideais coletivos e democr\u00e1ticos que v\u00e3o al\u00e9m de considera\u00e7\u00f5es e sucessos individuais. Colabora-se na conforma\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos sociais de participa\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica, imprescind\u00edveis numa sociedade democr\u00e1tica, justa e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 com propostas de trabalho planejadas de maneira democr\u00e1tica entre estudantes e docentes, desenvolvidas e avaliadas em equipe, que se contri- bui tamb\u00e9m para valorar as diferen\u00e7as pessoais e a diversidade no seio de cada comunidade, assim co- mo entre sociedades e pa\u00edses. Elas devem, por con- seguinte, tornar poss\u00edvel o desenvolvimento de ati- tudes de respeito, toler\u00e2ncia e coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Conte\u00fados culturais nas salas de aula num mundo global e solid\u00e1rio<\/b><\/p>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es de ensino e aprendizagem nas situa\u00e7\u00f5es escolares devem facilitar a an\u00e1lise e a compreens\u00e3o do modo de funcionamento das estruturas sociais que caracterizam e condicionam a vida dos cidad\u00e3os e cidad\u00e3s. Desse modo, ser\u00e3o assen- tadas as bases que os capacitar\u00e3o a fazer frente e atuar em defesa de seus leg\u00edtimos interesses.<\/p>\n<p>Para essa meta, \u00e9 importante prestar aten\u00e7\u00e3o aos conte\u00fados culturais que ser\u00e3o promovidos nas salas de aula. Esses conte\u00fados, em teoria, referem-se ao conhecimento, habilidades e aptid\u00f5es que as pessoas usam para construir e interpretar a vida social. Atualmente, seria muito dif\u00edcil afirmar que as tarefas escolares com as quais enfrentamos o alunado na sala de aula capacitem-no para refletir e analisar criticamente a sociedade da qual faz parte, preparem-no para intervir e participar dela de\u00a0maneira mais democr\u00e1tica, respons\u00e1vel e solid\u00e1ria. Dificilmente se pode constatar que os atuais processos de ensino e aprendizagem que t\u00eam lugar nos centros escolares sirvam para motivar de cara o alunado a se envolver mais ativamente em processos de transforma\u00e7\u00e3o social, influir conscientemente em processos tendentes a eliminar situa\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o. Em muito poucas situa\u00e7\u00f5es, as alunas e alunos s\u00e3o estimulados a examinar suas pressuposi\u00e7\u00f5es, valores, a natureza do conhecimento com o qual se defrontam dia a dia nas salas de aula, a ideologia subjacente \u00e0s distintas formas de constru\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de conhecimento etc.<\/p>\n<p>Uma educa\u00e7\u00e3o human\u00edstica, cient\u00edfica e t\u00e9cnica para uma sociedade pluralista precisa estimular e favorecer uma maior aten\u00e7\u00e3o aos produtos culturais de cada sociedade, prestando aten\u00e7\u00e3o a suas condi\u00e7\u00f5es e processos de constru\u00e7\u00e3o e \u00e0 forma como s\u00e3o percebidos e valorados, tanto dentro da pr\u00f3pria comunidade quanto por outras sociedades. Isso obriga a levar em considera\u00e7\u00e3o os pontos de vista dos diferentes grupos culturais, etnias e classes sociais, assim como as vari\u00e1veis de g\u00eanero e idade das pessoas. Dessa maneira, facilita-se que as propostas curriculares sejam coerentes com ideais sociais de justi\u00e7a, respeito e democracia, assim como se\u00a0for\u00e7a a reconsidera\u00e7\u00e3o de algumas das caracter\u00edsticas do que comumente se vem entendendo como qualidade do ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/jurjotorres.com\/?attachment_id=1088\" rel=\"attachment wp-att-1088\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1088\" src=\"http:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Cuadro-Trabj.-Equipo-1024x783.png\" alt=\"**Cuadro-Trabj. Equipo\" width=\"540\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Cuadro-Trabj.-Equipo-1024x783.png 1024w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Cuadro-Trabj.-Equipo-300x229.png 300w, https:\/\/jurjotorres.com\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Cuadro-Trabj.-Equipo.png 1646w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/a><\/p>\n<div title=\"Page 13\">\n<div>\n<p>O reconhecimento da diversidade cultural e de sua import\u00e2ncia pol\u00edtico-moral s\u00e3o pontos de apoio de qualquer luta em favor de uma maior democratiza\u00e7\u00e3o e da garantia de maiores cotas de igualdade social. Mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio o reconhecimento da realidade h\u00edbrida e mesti\u00e7a da imensa maioria dos povos, na\u00e7\u00f5es e estados do mundo.<\/p>\n<p>Prestar aten\u00e7\u00e3o, nas institui\u00e7\u00f5es escolares, a todas as culturas poss\u00edveis, passadas e atuais, a todos os pa\u00edses do planeta, coletivos sociais existentes, produ\u00e7\u00f5es culturais e cient\u00edficas, fatos relevantes, aspira\u00e7\u00f5es \u00e9 sinceramente imposs\u00edvel. Portanto, tamb\u00e9m de uma perspectiva antidiscrimina\u00e7\u00e3o e de justi\u00e7a social, \u00e9 preciso estabelecer alguns cri- t\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados culturais que podem ser incorporados ao trabalho curricular nas salas de aula. Entre os numerosos crit\u00e9rios que podem ser determinados, um que \u00e9 decisivo \u00e9 o de prestar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s culturas e grupos desfavorecidos. Os mais favorecidos j\u00e1 disp\u00f5em de uma multiplicidade de canais informativos para se fazerem ver e notar. Num mundo global, conv\u00e9m n\u00e3o esquecer que as condi\u00e7\u00f5es e a qualidade de vida de todos os povos s\u00e3o e ser\u00e3o num futuro iminente cada vez mais interdependentes. Em muitas ocasi\u00f5es, as condi\u00e7\u00f5es de vida de um povo dependem e repercutem sobre as dos demais.<\/p>\n<p>Uma institui\u00e7\u00e3o como a escolar, que tem entre suas finalidades principais preparar as novas gera\u00e7\u00f5es, precisa obrigatoriamente construir h\u00e1bitos nos meninos e meninas que lhes permitam levar em considera\u00e7\u00e3o outros povos e coletivos sociais nas an\u00e1lises da realidade que levem a cabo e nas tomadas de decis\u00e3o nas quais se vejam implicados.<\/p>\n<p>Detectar como as narrativas que foram sendo divulgadas e promovidas estavam escritas unicamente a partir das vozes e interesses de uma minoria, portanto, recorrendo a processos de silenciamento, manipula\u00e7\u00e3o e deforma\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma tarefa em que as institui\u00e7\u00f5es escolares tamb\u00e9m t\u00eam uma importante miss\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Qualquer leitura atenta da maioria dos manuais escolares que circulam entre o alunado permite constatar processos de censura e deforma\u00e7\u00e3o de importantes eventos hist\u00f3ricos, culturais, cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos; tanto nas informa\u00e7\u00f5es referentes \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de tais fen\u00f4menos como em suas interpreta\u00e7\u00f5es e valora\u00e7\u00f5es (Delfattore, 1992). Conseq\u00fcentemente, isso significa que no processo de socializa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es existem sinais de uma certa estafa intelectual e moral que, infelizmente, pode funcionar no futuro como estopim para comportamentos coletivos e individuais de cunho racista, sexista, imperialista, classista etc. \u00c9 preciso, no entanto, n\u00e3o esquecer que essas peculiaridades de determinada cultura escolar nada mais s\u00e3o do que conseq\u00fc\u00eancia da origem da educa\u00e7\u00e3o institucionalizada, ou seja, algo consubstancial com uma institui\u00e7\u00e3o como a acad\u00eamica, cuja finalidade, at\u00e9 o presente, n\u00e3o foi outra sen\u00e3o preparar as futuras elites, n\u00e3o facilitando, por conseguinte, o acesso e\/ou a perman\u00eancia dos filhos e filhas das classes e grupos sociais populares. Logicamente, essa filosofia continua vigente em muitas pr\u00e1ticas na atualidade, o que podemos comprovar na facilidade com que se justifica o atraso escolar dos meninos e meninas do mundo rural e de grupos sociais desfavorecidos. N\u00e3o deixa de ser curioso que um tema de tanta import\u00e2ncia como o do fracasso escolar tenha passado a ser de interesse secund\u00e1rio, de acordo com a maioria das tem\u00e1ticas dos cursos, encontros e confer\u00eancias dirigidos ao professorado.<\/p>\n<p>Se um observador de fora tratasse de averiguar quais s\u00e3o as preocupa\u00e7\u00f5es dominantes no sistema educativo espanhol, recorrendo \u00e0s tem\u00e1ticas escolhidas para a atualiza\u00e7\u00e3o do professorado, poderia chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que no Estado espanhol n\u00e3o existe fracasso escolar. Por outro lado, chamaria sua aten\u00e7\u00e3o o interesse por aprender a avaliar e qualificar com mais precis\u00e3o, em como hierarquizar uma s\u00e9rie de conte\u00fados disciplinares ao longo de um ciclo escolar, como elaborar Projetos Curriculares de Centro, etc. No entanto, a realidade do fracasso das institui\u00e7\u00f5es escolares em suas finalidades formativas\u00a0\u00e9 percebida com bastante unanimidade pelos cidad\u00e3os e cidad\u00e3s.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div title=\"Page 14\">\n<div>\n<p>Conv\u00e9m n\u00e3o deixar \u00e0 margem a an\u00e1lise das novas formas de desvantagem social, cultural e econ\u00f4mica, especialmente quando informes de institui\u00e7\u00f5es como a Caritas evidenciam que em nosso pa\u00eds est\u00e1 crescendo o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, ou de organismos internacionais que apontam como as dist\u00e2ncias entre grupos sociais s\u00e3o incrementadas; as pessoas pobres o s\u00e3o cada vez mais, e n\u00facleos importantes das classes m\u00e9dias perdem poder e possibilidades a cada dia. Do mesmo modo, \u00e9 preocupante como a pobreza continua com um processo not\u00e1vel de feminiza\u00e7\u00e3o; s\u00e3o as mulheres que em maior porcentagem vivem em condi\u00e7\u00f5es de necessidade e pobreza.<\/p>\n<p>Uma importante ajuda na capacita\u00e7\u00e3o para compreender esse tipo de situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a an\u00e1lise e revis\u00e3o dos conte\u00fados culturais que s\u00e3o oferecidos como exemplificantes ao alunado.<\/p>\n<p>Todas as disciplinas possuem aspectos em seus conte\u00fados que permitem prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de justi\u00e7a social e diversidade; tanto as chamadas ci\u00eancias sociais e humanas como as f\u00edsico-naturais. No fundo, as diferentes disciplinas ou ci\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o outra coisa que a formaliza\u00e7\u00e3o e sistematiza\u00e7\u00e3o dos conhecimentos, habilidades e valores que cada sociedade possui para sobreviver da maneira mais satisfat\u00f3ria poss\u00edvel, para fazer frente aos desafios de seu desenvolvimento e alcan\u00e7ar maiores n\u00edveis de eq\u00fcidade e justi\u00e7a. As diferentes disciplinas, atrav\u00e9s dos tempos e em cada sociedade concreta, variam mais ou menos em fun\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o que tais povos mant\u00e9m entre si. Obviamente, em \u00e9pocas hist\u00f3ricas em que a comunica\u00e7\u00e3o era mais dif\u00edcil, cada povo ia gerando formas mais idiossincr\u00e1ticas de resposta \u00e0s necessidades que detectava. Mas toda sociedade sempre construiu e utilizou conhecimentos de f\u00edsica, qu\u00edmica, economia, direito, tecnologia etc. para viver. \u00c0 medida que os povos se comunicam, intercambiam esses conhecimentos e os conhecimentos adquiridos e reconstru\u00eddos v\u00e3o se organizando para facilitar sua aprendizagem pelas novas gera\u00e7\u00f5es. Nessa din\u00e2mica\u00a0\u00e9 que tamb\u00e9m v\u00e3o surgindo as especialidades e os especialistas.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Se atualmente ainda existem comunidades com as quais as formas de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o suficientemente fluidas, nessa medida alguns conhecimentos, habilidades e tecnologias aparecem como mais idiossincr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Trabalhar com essa concep\u00e7\u00e3o de fundo pressup\u00f5e planejar propostas curriculares integradas (Torres Santom\u00e9, 1996b), nas quais os estudantes e as estudantes se vejam obrigados a:<\/p>\n<p>&gt; Incorporar uma perspectiva global. Assumir a an\u00e1lise dos contextos socioculturais nos quais se desenvolve sua vida, assim como daqueles das quest\u00f5es e situa\u00e7\u00f5es que submetam a estudo; atender \u00e0s dimens\u00f5es culturais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas, religiosas, militares, eco- l\u00f3gicas, de g\u00eanero, \u00e9tnicas, territoriais etc. (ante uma educa\u00e7\u00e3o mais tradicional em que a descontextualiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das peculiaridades da maior parte de tudo que se aprende.)<\/p>\n<p>&gt; P\u00f4r a descoberto as quest\u00f5es de poder implicadas na constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e as possibilidades de participar de tal processo.<\/p>\n<p>&gt; Deixar patente a participa\u00e7\u00e3o daqueles que constroem a ci\u00eancia e o conhecimento; n\u00e3o silenciar quem s\u00e3o para demonstrar a historicidade e condicionantes de tal constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&gt; Incorporar a perspectiva hist\u00f3rica, as controv\u00e9rsias e varia\u00e7\u00f5es que ocorreram at\u00e9 o momento sobre o fen\u00f4meno objeto de estudo; a que se deveram, a quem beneficiavam etc. Incidir, portanto, na provisoriedade do conhecimento.<\/p>\n<p>&gt; Integrar as experi\u00eancias pr\u00e1ticas em \u00e2mbitos cada vez mais gerais e integrados.<\/p>\n<p>&gt; Compreender todas as quest\u00f5es que s\u00e3o objeto de estudo e investiga\u00e7\u00e3o levando em considera\u00e7\u00e3o dimens\u00f5es de justi\u00e7a e eq\u00fcidade. Converter o trabalho escolar em algo que permita p\u00f4r em pr\u00e1tica e ajudar a compreens\u00e3o\u00a0das implica\u00e7\u00f5es de diferentes posi\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e morais.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div title=\"Page 15\">\n<div>\n<p>&gt; Partir da valoriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e do conhecimento do pr\u00f3prio alunado. Facilitar a confronta\u00e7\u00e3o de suas convic\u00e7\u00f5es e pontos de vistas pessoais com os de outras pessoas.<\/p>\n<p>&gt; Promover a discuss\u00e3o a respeito de diferentes alternativas para resolver problemas e conflitos, assim como dos efeitos colaterais de cada uma das op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&gt; Proporcionar possibilidades de avalia\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, valora\u00e7\u00f5es e conclus\u00f5es que s\u00e3o suscitadas ou nas quais se v\u00eaem comprometidos.<\/p>\n<p>&gt; Aprender a comprometer-se com a acei- ta\u00e7\u00e3o de responsabilidades e a tomada de decis\u00f5es, a assumir riscos e a aprender com os erros que cometam.<\/p>\n<p>&gt; Potencializar a personalidade espec\u00edfica de cada estudante, seus estilos e caracter\u00edsticas pessoais. Chegar a convencer-se do valor positivo da diversidade pessoal, algo imprescind\u00edvel para chegar a assumir a de outros povos e culturas.<\/p>\n<p>&gt; Empregar estrat\u00e9gias de ensino e aprendizagem flex\u00edveis e participativas. Aprender num \u00e2mbito organizativo flex\u00edvel, participativo e democr\u00e1tico, no qual se preste especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 integra\u00e7\u00e3o de estudantes de diferentes grupos \u00e9tnicos e n\u00edveis culturais, de destintas capacidades e n\u00edveis de desenvolvimento, no qual as tarefas escolares sejam levadas a cabo em grupos cooperativos de trabalho.<\/p>\n<p>No fundo, trata-se de educar as cidad\u00e3s e os cidad\u00e3os com um \u201cceticismo informado\u201d ou, o que \u00e9 a mesma coisa, com capacidades para o pensamento cr\u00edtico, como uma das estrat\u00e9gias perante uma sociedade e um mundo no qual os fundamentalismos, o pensamento dogm\u00e1tico, tendem a inund\u00e1-lo e a se colocar como \u00fanico par\u00e2metro a perpetuar.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>P\u00f4r em a\u00e7\u00e3o essas estrat\u00e9gias nos ajudar\u00e1 na conforma\u00e7\u00e3o de cinco h\u00e1bitos mentais que iremos construindo com o trabalho curricular nas salas de aula. H\u00e1bitos que ajudar\u00e3o a obter uma capacita\u00e7\u00e3o mais adequada para participar de um mundo em que a diversidade \u00e9 uma de suas marcas mais peculiares. Procuraremos fazer que as alunas e os alu- nos prestem aten\u00e7\u00e3o e se preocupem com:<\/p>\n<p>1. Evid\u00eancias. Como conhecemos o que conhecemos? Que tipo de evid\u00eancias consideramos suficientemente boas, v\u00e1lidas?<\/p>\n<p>2. Pontos de vista. Que perspectivas, crit\u00e9rios escutamos, vemos e lemos? Quem s\u00e3o seus autores ou autoras, onde as elaboraram, quais eram suas inten\u00e7\u00f5es ou finalidades?<\/p>\n<p>3. Conex\u00f5es. Como est\u00e3o relacionadas umas quest\u00f5es com outras? Como se encaixam entre si?<\/p>\n<p>4. Conjecturas. O que acontece se&#8230;? Supondo que&#8230; Podemos imaginar alternativas?<\/p>\n<p>5. Relev\u00e2ncia. Que controv\u00e9rsias se estabelecem? A quem se presta aten\u00e7\u00e3o? (Wood, 1992, p.\u00a0172).<\/p>\n<p>Tal clima de aula estar\u00e1, em meu modo de ver,\u00a0contribuindo para que o alunado desenvolva uma consci\u00eancia cr\u00edtica que lhe permita analisar, valorar e participar de tudo o que acontece e tem a ver com seu entorno sociocultural e pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Manipula\u00e7\u00f5es populistas das filosofias progressistas<\/strong><\/p>\n<p>Algo que vem adquirindo grande peso em nossa sociedade \u00e9 o discurso populista. Nele se recorre ao emprego de um vocabul\u00e1rio que faz refer\u00eancia a conceitos muito interessantes e valiosos, mas que s\u00e3o descarregados de significado, desvirtuados, para aparentemente dar a sensa\u00e7\u00e3o de que se enfrenta uma s\u00e9rie de problemas sociais urgentes; mas \u00e9 s\u00f3 isso, apar\u00eancia. Temos um exemplo disso nos discursos populistas contra o racismo, a pobreza, o desemprego etc. Neles s\u00e3o nomeadas realidades e direitos como os do povo cigano, da mulheres, da popula\u00e7\u00e3o negra, dos homossexuais e l\u00e9sbicas etc., mas evitando considerar por que temos de nome\u00e1las, a raz\u00e3o pela qual se presta aten\u00e7\u00e3o a dimens\u00f5es idiossincr\u00e1ticas de etnia, ra\u00e7a, g\u00eanero, sexualidade etc. Ocultam-se rela\u00e7\u00f5es de poder existentes nas sociedades em que convivem esses coletivos que so- frem alguma forma de marginaliza\u00e7\u00e3o, as categorias de classifica\u00e7\u00e3o, sua valora\u00e7\u00e3o e os motivos pelos quais foram sendo constru\u00eddas essas situa\u00e7\u00f5es de marginalidade nessa determinada comunidade a que nos referimos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div title=\"Page 16\">\n<div>\n<p>Evidentemente, essa estrat\u00e9gia de confus\u00e3o chegou tamb\u00e9m ao mundo da educa\u00e7\u00e3o. As administra\u00e7\u00f5es educativas, concretamente atrav\u00e9s das leis que elaboram e dos decretos e normas que as desenvolvem, v\u00eam manejando conceitos que foram constru\u00eddos por for\u00e7as sociais progressistas, formulados e reformulados mais de uma vez \u00e0 medida que eram melhoradas as an\u00e1lises sobre a realidade, mas que agora se esvaziam de seu conte\u00fado social e, portanto, se despolitizam ou \u201crepolitizam\u201d em sentido inverso, conservador. Conceitos como globaliza\u00e7\u00e3o, interdisciplinariedade, curr\u00edculo integrado e outros t\u00e3o vinculados a estes, como socializa\u00e7\u00e3o, igualdade de oportunidades, democracia escolar, participa\u00e7\u00e3o e similares, passam a funcionar como voc\u00e1bulos vazios ou muletas de express\u00e3o, sem dar conta de sua carga de significado e das conseq\u00fc\u00eancias de seu uso. Outros, como aten\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade, sofrem um forte reducionismo, deixando-os circunscritos a aspectos de \u00edndole exclusivamente pessoal, a dimens\u00f5es de conduta ou a problemas psicol\u00f3gicos que t\u00eam a ver apenas com alguns indiv\u00edduos concretos. O mesmo cabe dizer de termos pedag\u00f3gicos como profissionaliza\u00e7\u00e3o, projeto curricular etc., conceitos para fazer figura, mas n\u00e3o para ser conseq\u00fcente com eles e criar as condi\u00e7\u00f5es administrativas, de trabalho e de forma\u00e7\u00e3o que possam torn\u00e1los realidade na pr\u00e1tica cotidiana das salas de aulas e dos centros escolares.<\/p>\n<p>Surgem, inclusive, novas figuras e estruturas profissionais (psicopedagogos e psicopedagogas, orientadores e orientadoras, equipes psicopedag\u00f3gicas de apoio, de aten\u00e7\u00e3o antecipada, de estimula\u00e7\u00e3o precoce etc.), mas com uma forma\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o bastante enviesada: para atender unicamente a aspectos de patologia individual, e n\u00e3o a problemas que afetam coletivos sociais e que requerem prestar aten\u00e7\u00e3o a dimens\u00f5es que condicionam sua vida e, por conseguinte, o aprendizado de cada aluno ou aluna.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><strong>O construtivismo como estribilho<\/strong><\/p>\n<p>Os que promovem as novas ideologias conservadoras n\u00e3o hesitam em tratar de esvaziar e \u201creorientar\u201d todos aqueles conceitos e filosofias que no momento hist\u00f3rico presente tenham ganhado presen\u00e7a e prest\u00edgio. Uma boa mostra disso \u00e9 seu apoio e promo\u00e7\u00e3o dos atuais discursos em defesa do construtivismo, filosofia psicoeducativa que, em suas divulga\u00e7\u00f5es pelas inst\u00e2ncias e personalidades vinculadas ao poder, vem se mostrando demasiadamente parcial.<\/p>\n<p>Esse modelo te\u00f3rico elabora seus argumentos com demasiada \u00eanfase em dimens\u00f5es individualistas ou excessivamente \u201cuniversalistas\u201d, abstraindo-se das peculiaridades de cada comunidade e do momento s\u00f3cio-hist\u00f3rico que est\u00e1 vivendo. Nesses discursos psicol\u00f3gicos, o ser humano aparece confinado \u00e0 margem de aspectos essenciais, como suas dimens\u00f5es socioculturais e hist\u00f3rico-geogr\u00e1ficas. Ne-les n\u00e3o se trata de p\u00f4r em relevo como essas vari\u00e1veis jogam um papel decisivo na aquisi\u00e7\u00e3o do conhecimento, do sistema de valores e desenvolvimento de habilidades, tanto em sua sele\u00e7\u00e3o como em sua valora\u00e7\u00e3o, interpreta\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dificilmente poder\u00edamos nos opor \u00e0 atual corrente epistemol\u00f3gica que promove que \u201co conhecimento se constr\u00f3i\u201d. Mas n\u00e3o deixa de ser chamativo que em muitos momentos esse discurso venha a se esgotar em frases t\u00e3o simples como uma muleta de express\u00e3o ou um cacoete, deixando o aprofundamento de tal filosofia para o leitor ou ouvinte. No Estado espanhol, costuma ser freq\u00fcente, especialmente do ponto de vista da psicologia, que a defesa das teses construtivistas entre o coletivo docente acabe se resumindo em alguns slogans com os quais todo o mundo concorda e assume, dada a simplicidade de sua formula\u00e7\u00e3o. Ao final, fica apenas a id\u00e9ia um tanto abstrata de que tudo \u00e9 quest\u00e3o de \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d, essa sim revestida com frases e conceitos que gozam de certo prest\u00edgio. Sem d\u00favida, nos momentos da a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, muitos professores e professoras sentir-se-\u00e3o incapazes de transpor essa filosofia para situa\u00e7\u00f5es reais nas salas de aula. Todavia, uma an\u00e1lise mais minuciosa e cr\u00edtica mostrar\u00e1, com relativa prontid\u00e3o, que o construtivismo n\u00e3o \u00e9 algo do qual possamos falar no singular e com o qual concordem todas as pessoas que assim se etiquetam. Existe conflito entre as concep\u00e7\u00f5es e explica\u00e7\u00f5es subjacentes a tal perspectiva ou \u00e2mbito explicativo, como detecta C\u00e9sar Coll (1993, p. 239) quando afirma que \u201cpor tr\u00e1s do termo \u2018construtivismo\u2019 escondem-se interpreta\u00e7\u00f5es e explica\u00e7\u00f5es diversas e nem sempre coincidentes\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div title=\"Page 17\">\n<div>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o deixa de ser curioso que, depois de muitos anos em que as an\u00e1lises sociol\u00f3gicas estiveram e continuam gozando de importante aceita\u00e7\u00e3o no campo do ensino, de repente, muitos dos discursos psicol\u00f3gicos pretendam silenciar essas dimens\u00f5es e caracter\u00edsticas que foram sendo enfatizadas. As pessoas constroem conhecimentos, mas quais? Quando? Onde? Em que condi\u00e7\u00f5es? Com que finalidades? A servi\u00e7o de quem? Promovidos por quem? \u00c9 em torno de quest\u00f5es semelhantes a essas que o sil\u00eancio de muitos construtivistas chama a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o costuma ser freq\u00fcente que, nos discursos sobre construtivismo, apare\u00e7am reflex\u00f5es a respeito de quem orienta e promove o processo construtivista e em que dire\u00e7\u00e3o. Portanto, existe o perigo de assumir tacitamente um certo \u201cnaturalismo\u201d: que todas as meninas e meninos deixados \u00e0 sorte constroem de uma maneira adequada.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, \u00e9 vis\u00edvel a impregna\u00e7\u00e3o das concep\u00e7\u00f5es individualistas em muitos momentos do discurso construtivista psicol\u00f3gico, assim como nas orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que derivam desse modelo. Um exemplo disso temos no Brasil, no texto que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura divulga sobre \u201cO ensino fundamental: Par\u00e2metros Curriculares Nacionais\u201d. Documento muito impregnado de construtivismo e no qual, no momento de derivar propostas pr\u00e1ticas para as aulas, como no que diz respeito \u00e0s formas de agrupamento do alunado, podemos ler o seguinte:<\/p>\n<p><em>Devem estar atentos \u00e0s diferentes formas de agrupamento poss\u00edveis segundo uma variedade de aspectos, por exemplo: desempenho diferenciado, desempenho pr\u00f3ximo, g\u00eanero, afinidades para o trabalho, afinidades afetivas, possibilidade de ajuda, possibilidade de coopera\u00e7\u00e3o, ritmo de trabalho etc.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o existe \u201co melhor\u201d crit\u00e9rio de organiza\u00e7\u00e3o de grupos para uma atividade, \u00e9 necess\u00e1rio que o professor decida em cada tipo de atividade, em cada momento do processo de ensino e aprendizagem, para aqueles alunos espec\u00edficos, qual \u00e9 a melhor forma de organiza\u00e7\u00e3o social.[&#8230;]<\/em><\/p>\n<p><em>Os agrupamentos s\u00e3o medidas eficazes para facilitar a individualiza\u00e7\u00e3o do ensino, pois podem ser consideradas as necessidades de cada aluno e garantidas situa\u00e7\u00f5es adequadas para o desenvolvimento de certas aprendizagens.[&#8230;]<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 poss\u00edvel pensar em grupos que n\u00e3o sejam estruturados por s\u00e9rie e sim por objetivos a serem alcan\u00e7ados, onde a diferencia\u00e7\u00e3o entre s\u00e9ries se d\u00ea pela exig\u00eancia adequada ao desempenho de cada um (p. 24).<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Em explica\u00e7\u00f5es e propostas como as anteriores, penso que se pode constatar o predom\u00ednio de uma concep\u00e7\u00e3o exclusivamente individualista da aprendizagem. Cada aluno e aluna constr\u00f3i seu pr\u00f3prio conhecimento, exclusivamente pessoal. Os outros companheiros e companheiras s\u00e3o considerados instrumento ou recurso para favorecer essas aprendizagens em cada pessoa. N\u00e3o existe uma s\u00f3 linha de argumenta\u00e7\u00e3o, num tema t\u00e3o decisivo como o dos agrupamentos do alunado, que finque p\u00e9 na necessidade de desenvolver a solidariedade entre os que compartilham uma sala de aula ou centro escolar, na exig\u00eancia de trabalhar em grupo para aprender a colaborar, conhecer as demais pessoas que nos rodeiam, banir pr\u00e9-julgamentos ou estere\u00f3tipos sobre aqueles que pertencem a coletivos sociais marginalizados ou a etnias sem poder.<\/p>\n<p>Quando se realiza a enumera\u00e7\u00e3o das modalidades de agrupamento de estudantes, isso \u00e9 feito\u00a0como se todas tivessem o mesmo valor, como se se tratasse de uma tomada de decis\u00e3o meramente t\u00e9cnica, para favorecer o potencial inato de cada menino ou menina, para construir um conhecimento pessoal e que, podemos deduzir, ter\u00e1 conseq\u00fc\u00eancias individuais. Esquece-se de mencionar as lutas que o coletivo docente, juntamente com outros coletivos sociais, levou e leva a cabo para contribuir para banir o sexismo promovendo agrupamentos mistos, de meninos e meninas; para favorecer a integra\u00e7\u00e3o das pessoas com discapacidades, conformando grupos de estudantes de diferentes n\u00edveis de capacidades e conhecimentos; para colaborar na luta contra o racismo, sobre a base de agrupar alunas e alunos de diferentes etnias num mesmo grupo; para educar pessoas mais solid\u00e1rias, fomentando o trabalho em equipe no qual cada estudante se sinta \u00fatil aos demais membros etc.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div title=\"Page 18\">\n<div>\n<p>O professorado \u00e9 muito mais do que promotor de conflitos sociocognitivos e, por conseguinte, precisa deter-se em pensar quest\u00f5es que ultrapassam os aspectos puramente psicol\u00f3gicos, tais como dimens\u00f5es de valor, justi\u00e7a, democracia, solidariedade que acompanham a produ\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o do conhecimento e a tecnologia.<\/p>\n<p>Um \u201csentido comum\u201d, cuja constru\u00e7\u00e3o esteve controlada pelos c\u00edrculos de poder, pelos discursos promovidos por todo um conjunto de intelectuais oficialistas que gozam de todo o tipo de facilidades para aceder aos meios de comunica\u00e7\u00e3o e dirigir a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento e tecnologia, pode, deixado a seu livre arb\u00edtrio, funcionar em dire\u00e7\u00f5es reproducionistas. A realidade n\u00e3o costuma adornar-se com etiquetas explicativas, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 imprescind\u00edvel esfor\u00e7ar-se para revelar seu significado mais aut\u00eantico. Conv\u00e9m estar atento para que o discurso \u201cconstrutivista\u201d n\u00e3o acabe convertido em etiqueta que dissimule posi\u00e7\u00f5es \u201creproducionistas\u201d, mas com roupagens e m\u00e1scaras que dificultem captar sua manipula\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o dos mesmos interesses dos de sempre.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que em cada \u00e9poca, como se evidencia a partir da filosofia da ci\u00eancia (Kuhn, 1980; Toulmin, 1977; Lakatos, 1982) e ultimamente no que se vem conceituando como p\u00f3s- modernidade (Foucault, 1990; Feyerabend, 1984; Harding, 1993), toda uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es, influ\u00eancias, press\u00f5es e normas v\u00e3o tratar de avaliar a validade dos conhecimentos, assim como favorecer e obstaculizar a apari\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o de determinados saberes e tecnologias.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Na ci\u00eancia, a verdade est\u00e1 em disputa com muit\u00edssima freq\u00fc\u00eancia, assim como seus fundamentos metodol\u00f3gicos. Por conseguinte, podemos afirmar que s\u00e3o distintas condi\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas, culturais, militares e religiosas, assim como os conflitos de interesse entre os desafios que v\u00e3o se colocando para os distintos grupos sociais, etnias, g\u00eaneros que entram em jogo na constru\u00e7\u00e3o de conceitos, categorias, procedimentos, metodologias, valores e, portanto, nas solu\u00e7\u00f5es que as ci\u00eancias e os diferentes saberes v\u00e3o poder enfrentar.<\/p>\n<p>\u00c9 imprescind\u00edvel dar-se conta de que a consci\u00eancia das pessoas historiadoras, cientistas, artistas, pol\u00edticas, literatas est\u00e1 sempre condicionada pelo ambiente em que vivem, pelas pr\u00e1ticas nas quais se v\u00eaem envolvidas, pelas normas que possibilitam o acesso a postos de trabalho e as condi\u00e7\u00f5es de sua realiza\u00e7\u00e3o, pelos sistemas de valores, modos de perceber, saberes e racionalidades em que se ap\u00f3iam.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m ter certa atitude de d\u00favida diante de teorias que aparecem com demasiada arrog\u00e2ncia, escudando-se num excesso de frases feitas e slogans que funcionam para despolitizar realidades sociais conflitivas e acabam por se transformar em escudos protetores ante an\u00e1lises e propostas mais libertadoras, minuciosas e cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Com muita freq\u00fc\u00eancia, esquece-se que, tamb\u00e9m mediante processos discursivos e ret\u00f3ricos, contribui-se para dar forma ao pensamento hegem\u00f4nico, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um \u201csentido comum\u201d que coopera para apresentar e pensar como normal, l\u00f3gico, natural e \u00fanico o que n\u00e3o passa de um modelo concreto de atuar, governar, pensar etc., entre outros poss\u00edveis. Isso j\u00e1 foi evidenciado por Michel Foucault (1990b, p. 198) quando, ao se referir \u00e0s \u201cpr\u00e1ticas discursivas\u201d deixa claro que est\u00e3o sujeitas a \u201cum conjunto de regras an\u00f4nimas, hist\u00f3ricas, sempre determinadas no tempo e no espa\u00e7o, que definiram, numa dada \u00e9poca e para uma dada \u00e1rea social, econ\u00f4mica, geogr\u00e1fica ou ling\u00fc\u00edstica, as condi\u00e7\u00f5es de exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o enunciativa\u201d; ou seja, condicionam e limitam os temas a respeito dos quais se pode falar, analisar, classificar, explicar, nomear; promovem um leque limitado de significados.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div title=\"Page 19\">\n<div>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m mediante pr\u00e1ticas discursivas que conceitos que at\u00e9 um determinado momento t\u00eam um determinado significado, uma vez que s\u00e3o frutos de outros discursos que lhes conferiam esse significado, ao intercalar-se em outras pr\u00e1ticas diferentes, podem chegar a alterar por completo seu significado ou ficar reduzidos a meros slogans ou frases-f\u00f3rmula. Em tais slogans \u201csua simplicidade proporciona uma embalagem de id\u00e9ias com tra\u00e7ado verdadeiramente claro e s\u00f3lido. Eles comunicam paradigmas, id\u00e9ias modelo que podem ser aplicadas a novas \u2018inst\u00e2ncias\u2019, mas distanciando-se de seus referentes originais\u201d (Fowler, 1991, p. 177-179).<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que a institui\u00e7\u00e3o escolar, atrav\u00e9s de suas pr\u00e1ticas e \u00eanfases, \u00e9 coadjuvante na constru\u00e7\u00e3o das maneiras de pensar, atuar, perceber e falar a respeito da realidade, do mundo de cada estudante e, por isso mesmo, de cada cidad\u00e3 e cidad\u00e3o. Na aprendizagem de mat\u00e9rias como hist\u00f3ria, matem\u00e1tica, f\u00edsica, geografia, literatura, idiomas etc., \u201cconstroem-se\u201d possibilidades de perceber, interpretar e valorar a realidade; fomentam-se atitudes perante o mundo que nos rodeia e do qual temos alguma no\u00e7\u00e3o; influi-se na conforma\u00e7\u00e3o de sentimentos e expectativas perante as pessoas com as quais convivemos e compartilhamos este planeta.<\/p>\n<p>O forte peso do conservadorismo atual contribui para que as quest\u00f5es morais, pol\u00edticas e socio-econ\u00f4micas sejam aspectos que tendem a desaparecer do vocabul\u00e1rio e, portanto, da pr\u00e1xis curricular. Ainda se pode constatar o medo de reconhecer e assumir que educar \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o um trabalho meramente t\u00e9cnico. Os discursos profissionalizadores, curiosamente, est\u00e3o sendo utilizados como disfarce para despolitizar e desfigurar grande parte do trabalho sociocultural e educativo. Trata-se de discursos nos quais se faz notar que a\u00a0\u00fanica coisa importante s\u00e3o as preocupa\u00e7\u00f5es por efici\u00eancia, controle, gest\u00e3o, objetividade e \u201cneutralidade\u201d, o que \u00e9 coerente com os discursos hegem\u00f4nicos, oficiais, sobre o fim das ideologias.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>\u00c9 preciso recuperar a capacidade de contextualizar e historizar nossos discursos e pr\u00e1ticas. Urge voltar a retomar algo que j\u00e1 parece um slogan vazio: conectar a institui\u00e7\u00e3o escolar com o meio. Do contr\u00e1rio, corremos o risco de construir um curr\u00edculo fundamentalista, uma proposta de trabalho na qual se d\u00e1 uma sele\u00e7\u00e3o fechada de conte\u00fados culturais a serem trabalhados nas classes, possibilita-se o acesso a uma \u00fanica interpreta\u00e7\u00e3o desses conte\u00fados culturais, uma s\u00f3 valora\u00e7\u00e3o e uma \u00fanica resposta verdadeira.<\/p>\n<p>Se as op\u00e7\u00f5es conservadoras continuam ganhando cotas de poder, h\u00e1 um risco importante de que os curr\u00edculos fundamentalistas venham a se ver ainda mais favorecidos. Curr\u00edculos cujas diferen\u00e7as estar\u00e3o no vi\u00e9s que desejam \u201cvigiar\u201d com maior aten\u00e7\u00e3o; \u00e9 previs\u00edvel que apare\u00e7am projetos curriculares obcecados por determinadas op\u00e7\u00f5es religiosas, econ\u00f4micas (para promover um determinado modelo produtivo e de rela\u00e7\u00f5es de trabalho de interesse para os grupos empresariais no poder), pol\u00edticas, racistas, sexistas etc. Estamos cada vez mais diante de institui\u00e7\u00f5es de ensino que apenas vendem o \u201cconhecimento oficial\u201d (Apple, 1993). O que parece imperar \u00e9 uma cultura da \u201cobjetividade\u201d, entendida como uniformismo, como ataque \u00e0 diversidade, com a finalidade de favorecer a articula\u00e7\u00e3o de sociedades \u201cmono\u201d: monoculturais, monoling\u00fc\u00edsticas, mono\u00e9tnicas, monoideol\u00f3gicas etc. Pretende-se negar a diversidade para impor uma \u00fanica cultura que se anuncia e se faz p\u00fablica como \u201ccomum\u201d, \u201cconsensual\u201d, \u201cvaliosa\u201d e \u201chist\u00f3rica (a de sempre)\u201d.<\/p>\n<p>Os coletivos de intelectuais, pesquisadoras e pesquisadores, artistas e docentes t\u00eam uma importante tarefa a desempenhar, ajudando a construir, a voltar a interpretar a hist\u00f3ria das sociedades levando em considera\u00e7\u00e3o as percep\u00e7\u00f5es e interesses daqueles que ficaram \u00e0 margem e sofreram a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Apostar na democracia obriga a que conceitos como \u201cjusti\u00e7a social\u201d, \u201cresponsabilidade \u00e9tica\u201d,\u00a0\u201cparticipa\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cigualdade\u201d n\u00e3o se transformem em f\u00f3rmulas vazias, mas em modos de vida. Assim, a pedagogia tem uma fun\u00e7\u00e3o dual: ajudar a proporcionar os meios atrav\u00e9s dos quais os coletivos sociais oprimidos chegam a tomar consci\u00eancia de sua opress\u00e3o e servir como instrumento mediante o qual es- sas mulheres e homens lutem para encontrar m\u00e9todos de transforma\u00e7\u00e3o da realidade (Trend, 1995, p. 148).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div title=\"Page 20\">\n<div>\n<div>\n<p>\u00c9 imprescind\u00edvel estar atento a todo momento para que esse trabalho de a\u00e7\u00e3o social em prol de maiores cotas de democracia e justi\u00e7a social se mantenha vinculado aos demais movimentos sociais que est\u00e3o comprometidos nessa mesma dire\u00e7\u00e3o de redistribui\u00e7\u00e3o de poder e dos recursos existentes na comunidade; movimentos que procuram em todos os momentos tornar vi\u00e1vel uma aut\u00eantica e informada participa\u00e7\u00e3o de todas as cidad\u00e3s e cidad\u00e3os nas tomadas de decis\u00e3o que servem para configurar e determinar a sociedade. Isso est\u00e1 ficando cada vez mais dif\u00edcil, dado o forte individualismo que impera nas sociedades p\u00f3s-modernas e da informa\u00e7\u00e3o que, por sua vez, facilita a reapari\u00e7\u00e3o de um not\u00e1vel culto \u00e0s lideran\u00e7as carism\u00e1ticas. Uma prova disso, e na verdade preocupante, \u00e9 a apatia para com o debate que surge no pr\u00f3prio seio de estruturas como partidos pol\u00edticos e sindicatos e que tem como resultado o afloramento de apostas por uma esp\u00e9cie de \u201ccesarismo\u201d. Diante de um importante grau de atrofia dos mecanismos de participa\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da vida no interior de muitos partidos pol\u00edticos ou mesmo de governos, a figura do dirigente capaz de tomar as r\u00e9deas e o controle adquire um peso desmedido.<\/p>\n<p>A constante den\u00fancia de apatia com a qual se etiqueta a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o das sociedades p\u00f3s-industriais, fruto das experi\u00eancias pseudodemocr\u00e1ticas nas quais se encontram implicadas, corre o risco de servir de situa\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria de novos fascismos ou autocracias mais invis\u00edveis; nestas a democracia fica minimizada numas tantas formas e ritos externos, mas sem conte\u00fado. Os espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o e controle democr\u00e1ticos est\u00e3o tramados por figuras representativas do mundo econ\u00f4mico, militar e l\u00edderes do governo. Um panorama semelhante \u00e9 tamb\u00e9m percebido por Paulo Flores D\u2019Arcais (1996) quando escreve:<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Estes s\u00e3o os dois modelos que aparecem no moderno obscurecer-se da promessa democr\u00e1tica: a partitocracia de partidos-m\u00e1quina, cada vez mais parecidos entre si, acompanhados de seus respectivos engenheiros do consenso e o gigantismo de aparatos burocr\u00e1ticos e auto-referenciais. E o populismo taumat\u00fargico, com seus improv\u00e1veis eleitos pelo senhor, seus insolentes vendedores de felicidade e o n\u00e9scio estrondo do aplauso for\u00e7ado. Os dois modelos n\u00e3o apenas n\u00e3o se excluem, como antes parecem celebrar em desconexa mesti\u00e7agem as bacanais p\u00f3s-modernas em vers\u00e3o ca\u00f3tica. E assim em todo o mundo (p. 59-60).<\/p>\n<p>Diante de uma perspectiva t\u00e3o amea\u00e7adora, torna-se priorit\u00e1rio recuperar para o maior n\u00famero poss\u00edvel de cidad\u00e3os e cidad\u00e3s e, evidentemente, para o trabalho docente os pap\u00e9is de ativistas contra-hegem\u00f4nicos com f\u00e9 no futuro; com suficientes doses de utopia entremeadas de realismo para configurar um futuro mais justo, democr\u00e1tico, numa palavra: humano.<\/p>\n<p>_____________________<\/p>\n<p>JURJO TORRES SANTOM\u00c9 \u00e9 Catedr\u00e1tico de Did\u00e1tica e Organiza\u00e7\u00e3o Escolar na Universidade da Coru\u00f1a, Espanha. Trabalha com temas relativos a Sociologia da Educa\u00e7\u00e3o, Pol\u00edtica Curricular e Curr\u00edculo Integrado. Entre suas obras se destacam: <em>Globalizaci\u00f3n e interdisciplinariedad: el curriculum integrado<\/em>, Madrid, Morata, 1996, 2a ed.; <em>El curriculum oculto<\/em>, Madrid, Morata, 1991.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>ABRAMI, Philip C. et al., (1995). <em>Classroom connections: understanding and using cooperative learning<\/em>. Toronto: Harcourt Brace.<\/p>\n<p>APPLE, Michael W., (1993). <em>Official knowledge: democratic education in a conservative age<\/em>. Nova York: Routledge.<\/p>\n<p>BLOOM, Allan C., (1987). <em>The closing of the american mind<\/em>. Nova York: Simon &amp; Schuster.<\/p>\n<p>CALVO BUEZAS, Tom\u00e1s, (1989). <em>Los racistas son los otros: gitanos, minor\u00edas y derechos humanos en los textos escolares<\/em>. Madrid: Popular.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div title=\"Page 21\">\n<div>\n<div>\n<p>COLL, C\u00e9sar, (1993). 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Jurjo Torres Santom\u00e9 Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o. (S\u00e3o Paulo &#8211; Brasil), N\u00ba. 4 (Janeiro-Abril, 1997) p\u00e1gs. 5-25. &nbsp; Trabalho apresentado na XIX Reuni\u00e3o Anual da ANPEd, Caxambu, setembro de 1996. 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